Eterno arquivo do que já não interessa
Vazio Infinito

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Crise

Deixar registrado o que ainda está por vir
É o hábito mais velho que preservo em minha vida
Vou guardando sentimentos pra depois me dividir
E curar com amargura as marcas de minha ferida

Eu sempre traço os mesmos passos, cometendo erros iguais
Mas agora estou cansado de ser fonte de atrito
E se eu não sei parar, pelo menos me limito
Aos ouvidos daqueles que eu sei que são leais

Guardo aqui mais uma face e um complexo discurso
E devo seguir o curso dessas ilusões nocivas
De que as coisas se somam e se constroem sem abuso
E que as esperanças permanecem sempre vivas

E será que isso ainda importa quando acaba a terça-feira?
Meus dias são espera de outros dias que virão
E se vier alguma crise, nem seria minha primeira
E se não vier a crise é porque vem a solidão

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Recado

Um singelo recado é o que eu tenho a devolver
Recompensa pelo esforço e pelo afeto que despende
Afinal você me entende sem nem mesmo me entender
É tão pouco perder o que nem ao menos nos prende

Não é ausência se eu ainda estou do outro lado dessa sala
Não se murche à negativa de um desejo tão recente
Não é distância se eu ainda estou ao alcance de sua fala
Nada entre nós se perdeu, só o toque é diferente

Tudo isso é ilusório, só carregue a experiência
E a gente se constrói em outra forma de carinho
Porque nada mais importa, se te agrada, estou aqui
Vão se coisas agradáveis, sobrevivem as vivências
Que a gente se encontre várias vezes nos caminhos
E que passe tudo mais, e só o melhor fique pra ti

Manifesto I

Se em tua busca ao derradeiro manifesto de minha dor
Encontrasses uma carta de perjúrio e sofrimento
E soubesses da minha vida através de meu lamento
Poderias distinguir o meu amor e o mau humor?

Eu nem sempre traço aqui as palavras mais corretas
E nem sempre organizo os sentimentos com clareza
Mas deixo as portas e as janelas para ti sempre abertas
Pra que venha bagunçar a minha vida e minha certeza

De que aonde quer que eu vá eu terei paz em minha alma
De que as coisas se acertam ao final dessa epopeia
De que o amor só vale a pena se partir de duas vias

Mas renovo a minha certeza de é melhor ter calma
E esclarecer aos poucos o que vive em minha ideia
Pra enfim abrir espaço e ter você todos os dias


Primavera

Deixa eu me deitar na terra e ser parte disso tudo
E ter em mim a empatia de tudo que aqui vive
Deixa eu ter a consciência desse enorme e absurdo
Instante de clarividência de um mundo que eu nunca tive


Deixa eu me rasgar nas folhas secas, me queimar, virar fumaça
E estar em meio a tudo que preenche a sua vida
E entre o certo e o duvidoso ser a linha que limita
Entre o que já foi e o que vier, ser a certeza de que tudo passa


Que hoje eu quero estar do outro lado do que enxergo
Se me ergo e me refaço como a própria primavera
E me misturar à terra, ao ar, à agua, ao universo
E ser nada daquilo que qualquer pessoa espera


Deixa eu escorrer dos poros o que define minha essência
Pra pingar em meio às flores e nutrir a insanidade
Que os deuses me provenham qualquer outra realidade
Já não quero carregar nos ombros minha consciência


Que hoje eu quero estar do outro lado do que enxergo
Se me ergo e me refaço como a própria primavera
E me misturar à terra, ao ar, à água, ao universo
E ser nada daquilo que qualquer pessoa espera


E se nada me bastar então aceito ter o nada
E se o nada me assustar eu me ilumino no escuro
E se o escuro aprofundar-se é a minha mente já cansada
Gritando que a metafísica é apenas um murmúrio
Por que é que eu me preocupo com o que fica para trás
Se o que vem pela frente é que me abala o chão?
Me desfiz em tantos versos que vocês não lembrarão
Me eternizo nessa obra que jamais esquecerás

terça-feira, 22 de novembro de 2016

Bússola

Sobrou pouco, quase nada, mas ainda resta aqui
Qualquer traço de um passado que reside na memória
E as marcas que eu carrego remontando a mesma história
Pra buscar outro destino que não mais remeta a ti

É difícil uma hora ou outra, as vezes vem você depois
As vezes vem algo mais forte e me carrega ao mar aberto
Onde qualquer onda e vento torna meu caminho incerto
E o barco se balança pra algum porto de nós dois

Só que a tempestade e a fúria não se acalmam como antes
E qualquer desejo é pouco ao olhar de quem foi cego
Não há resgate para a sombra de razão da nossa nau
A praia que desponta já não é mais interessante
E se a bússola apontar sua direção eu me renego
Para a grande descoberta ao desamor neste final

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Avanços

Quão voraz é o avanço e a força de sua vontade
Muda o tempo, muda o clima, muda a vida na cidade
E é o trânsito e o concreto e transpirar comodidade
E por debaixo disso tudo vive a sociedade

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

Delírio Social

O delírio social de ser alguém em meio a outros
Despir-se inteiramente de qualquer identidade
Somamos gentilezas ignorando as inverdades
Quanto disso perderemos nesses tantos desencontros

Não é bem visto ser honesto se o honesto não agrada
Não é aceita a transparência se os sentimentos ardem
A luta por menos afeto, para que os afetos tardem
O melhor desse silêncio é que nunca se diz nada

De um nada para o outro tudo muda, tudo vai
Mas será que alguma coisa realmente se perdeu?
Não dá nem pra saber se de fato aconteceu
Uma hora ou outra todo atencioso se distrai

E passou mais uma vez, todos sempre passarão
E eu só não passo junto porque tenho essa decência
De forçar essa cortina e demonstrar a independência
Cada ator nesse roteiro cumprirá sua função

E todos irão passar, todos se apagarão
E a luz que indica atividade vai aos poucos se perdendo
O que ardia já não arde, mas o que dói segue doendo
É o preço social de não seguir a multidão

Mas dizem que isso muda e o delírio vira paz
E os olhos vão perdendo a lucidez e a loucura
O tempo se fechou em desenlaces de ternura
E os tons dessa rotina todos ficarão pra trás

A gente vai se encontrar em outro sonho quase quente
Onde as cores não tem nome e onde os nomes não tem som
E tudo será fácil com requintes de algo bom
E a gente acorda em algum lugar entre o morno e o indiferente

Ninguém quer saber o que acontece com a gente
A educação é uma chatice, mas é só o que nos resta
No fundo a gente sempre soube que nada disso presta
No fundo a gente sempre soube que nada disso segue em frente

terça-feira, 18 de outubro de 2016

Silenciosos

Pra que se preocupar com a intenção por trás das palavras?
Tudo o que somamos até então foi em silêncio

terça-feira, 4 de outubro de 2016

Cor do Sol

O tempo há de bastar a qualquer mal que venha ao mundo
Nada mais será profundo e nada se ocultará
Segredos desvendados, nada mais será guardado
Nada mais será divino e nada se eternizará

Do pouco que sabíamos não iremos nos lembrar
E o lugar que conhecíamos não dirá nada pra nós
E o que é que a gente sabe, o que podemos saber?
Se a gente nem conhece o que não está em nosso olhar

São tantas cores em uma cor e tanta luz na cor do sol
Que a gente nem consegue ver além do branco limitado
A gente é só um sonho que resiste no lençol
E morre no momento em que o mundo é desbravado

Mas é assim que tem que ser, porque é assim que sempre foi
E ninguém se importaria se a gente só parasse
Mas ninguém recuaria pra estender a mão por ti
Porque ninguém jamais repara, só espera que tu passes

sábado, 17 de setembro de 2016

Véu

As vezes as tardes são espelhos
E mostram na cor do céu 
O que guardamos em segredos
O que está além do véu

sexta-feira, 26 de agosto de 2016

DL

Eu não tenho palavras pra expressar os fins de noite
O amanhecer me deixa frágil, talvez seja isso mesmo
Não reconhecer direito o que é a dor e o que é o açoite
Não saber se sigo em frente ou se só caminho a esmo

Certamente a mudança vem com o tempo que se vai
E as dúvidas de outrora vão perdendo a importância
Parece que a incerteza desmedida nos atrai
Mas tudo isso vai sempre perdendo a relevância

Não reconheço amargura nas máximas de hoje em dia
Me encontro muito mais em um realismo envergonhado
Em que eu sei o que fazer, mas prefiro nem tentar
As experiências moldam a nossa sintonia
A gente se esbarra em memórias do passado
E dá adeus pra tudo o que não vale continuar

Memorial In Aqua Scribere II

Daqui tanto se fez e tão pouco foi feito
Guardei apreço e mágoa sem pensar em economia
Aqui eu nunca precisei esperar por algum dia
Em que as coisas finalmente funcionassem do meu jeito

Foi aqui que me criei e aqui que envelheci
Foi aqui que formulei as frases certas mais erradas
Dos dias mais bonitos e as angústias já passadas
Foi aqui que eu finalmente me reconheci

Gravei tudo o que podia, guardei o que passou
Me encontrei em alguns momentos em que o essencial
Foi transformar meus pensamentos em algo material
Só assim que tanta dor e sofrimento acabou

Agora eu nem ao certo sei qual é a serventia
Desse amigo e confidente que me acompanhou por anos
Talvez pra relembrar das consequências e dos danos
E esperar que algum dia eu me reencontre na poesia

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Autorretrato

Fruto de mim mesmo tenho a chance de acertar
Senhor de minha angústia, sou apenas o que sou
Contando as incertezas do que é que me restou
Me vejo no retrato e me engano por gostar

Tudo me preenche porque nada me contém
Deixo tanto em tudo e ainda resta tanto em mim
Nada disso basta, porque eu não sou assim
Eu quero muito mais do que aquilo que convém

Eu que penso em cores e formas de viver
Imerso em tanta coisa e nada diz de mim
Me perco e me desfaço, me entrego ao que vier
Cerro os olhos, frágil, aguardo pelo fim

Eu que vivo fora do comum e do usual
Aceito as madrugadas e a falta de razão
Abraço as indecências e essa minha condição
De não conviver com o que é só normal

Na caligrafia eu me escorro muito mais
Em duas dimensões completamente desleais
Aqui eu sou imenso e o infinito se desfaz
Não tenho limites, então porque ainda tento?

Num autorretrato eu me escondo na moldura
Sou só o que eu escrevo e nunca aquilo que aparento
Num autorretrato eu me escondo na moldura
Em sonhos coloridos que revelam meu momento

sábado, 6 de agosto de 2016

Ensaio Sobre a Coragem

Esse é mais um dia no cotidiano de quem busca por respostas. As coisas as vezes se nublam por aqui, nem sempre é fácil viver um dia após o outro, mas optamos por continuar, porque no fundo acreditamos que isso aqui vai dar em algo, ou talvez acreditemos que no fim valerá a pena, ou na pior das hipóteses, esperamos que o mundo se baste em uma enorme brincadeira de mau gosto, aí a gente ri e se perdoa pelas crenças infundadas. Um sorriso a menos nesse dia, um sorriso a mais no fim de tudo, o que é que realmente importa?

Tomar café pela manhã e refletir durante a tarde. As demandas de hoje em dia devem nos absorver, porque assim a gente não consegue refletir sobre o que estamos criando e o que eles querem que você acredite estar criando. Sem conspirações, aqui tudo é muito mais tangível, olhe pro lado e analise os resultados de quem está ao seu lado. Você faz parte da solução ou do problema?

Tudo tem solução. Qualquer que seja o problema, só é problema enquanto a gente deixa acontecer. A gente se dá bem com as coisas que fingimos padecer, é natural pra nossa vida aceitar a dor como necessária e parte de um crescimento abstrato, mas digno. Parte disso se deve à convenção do que é maturidade, parte disso se deve às histórias de heróis, e eu sempre gostei dos heróis. Uma hora a gente enxerga que vem encarando o mundo como inimigo, por alguns instantes até acreditamos que podemos vencer, porque essa é a lógica básica dos heróis, eles vencem no final, passando por cima de todas as mazelas do mundo.

Se você já leu qualquer história que se preze, então sabes que nada disso vale a pena no final das contas, que toda força que é despendida causa reações em outras partes dessa cadeia e nem sempre a gente consegue calcular os estragos que causamos. Em um dado momento a gente busca a fuga da obviedade do herói, porque passamos a entender que morreremos no final, e os romances nunca chegam a tal ponto. O que vem depois daí? A gente nunca sabe.

O mundo não está aqui pra ser combatido e nem mudado, ele está aqui porque ele veio antes, nós somos as consequências de outras forças que já repercutiram em todos os cantos dessa existência e que morreram no silêncio quando o centro de tudo já não era mais alcançável. Talvez esse seja o nosso vindouro fim, não mais encontrar a raiz do que nos move e cedermos as agitações externas, pouco a pouco nos deixando derrotar por qualquer abalo que vier, afinal já não conseguimos mais depender de nós mesmos.

O laço disso tudo é pensar que a gente romantiza coisas pequenas, porque essa é a nossa única chance de felicidade. A peça que falta é a visão de que tudo isso é ensaiado por gerações pra parecer perfeito, a gente luta guerras invisíveis porque não existe mais um inimigo próximo, a gente se move a passos curtos porque não conseguimos mais enxergar futuro em nada disso. Vão te dar a chance de ser bom e a chance de ser útil, por qual delas você vai optar?

Se a luta que se trava hoje é internalizada, quantos de nós vão se perder apenas por não conseguirem mais olhar pra dentro? Se o mal que nos causamos hoje é a única coisa que podemos sentir, quando é que o mal que causamos a nós mesmos será perceptível e combatido?

Quando os heróis se aposentarem por cansaço.

quinta-feira, 28 de julho de 2016

Mais Nada

Do fim ao recomeço é por aqui que nos falamos
E em mais um desses momentos é aqui que desafogo
Pois sei que é evidente que irei embora logo
Terminar de uma só vez todo esse mal que nos causamos

Não somos nada um pro outro, ou foi sempre tudo assim?
Você não cabe na minha vida dessa forma que desejas
Eu não sou essa pessoa que convive com incertezas
Já não me entristece mais pensar que isso é o nosso fim

O cansaço disso tudo carregou muito de nós
Talvez tenha levado até o amor que persistia
Sobrou silêncio nesse encontro, falta de uma sintonia
Qualquer coisa pra acalmar a frustração nos meus lençóis

Mas não vou rogar por nós nem uma prece exasperada
Calo o que vier e sentencio afastamentos
Pensando só em mim em cada um desses momentos
Sei que pra você aqui já não resta mais nada

terça-feira, 26 de julho de 2016

Algo de Bom

Aos olhos de quem quer ver há sempre um algo mais
E aos teus olhos eu dedico alguns minutos desse dia
Se dissestes que viria eu faria um pouco mais
Se disseres que virá talvez eu guarde essa poesia

Aos olhos de quem quer ver há sempre um certo encanto
E eu não sei se esse é o teu caso, mas se for deixo também
Se dissestes que viria eu nem pensaria tanto
Então se é pra não pensar, encerra tudo e vem

Aqui as coisas são estranhas, não note a decoração
Eu tive muito pouco tempo pra evitar essa impressão
Então se irás me ler, leia algo de bom tom
Não quero te convencer, nem insistir, nem nada não
Mas devo lhe dizer que aqui em meio a confusão
Sobrou esse tempinho pra te escrever algo de bom

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Desespero

As madrugadas são cruéis e passam sempre devagar
O sofrimento desses dias não se parece com mais nada
O que ronda a minha mente é minha voz desesperada
Me pedindo com urgência alguma força pra mudar

Nada rima com tristeza, só o som que se parece
Nada mais pode explicar como eu me sinto nessa hora
Confundo a minha fuga com a vontade de ir embora
Porque a poesia é só um mal do qual meu peito padece

Sentado ao parapeito calculando os meus estragos
Pode ser que chegue a hora em que a vida se acerte
Mas até esse momento só me restam uns trocados
Nada que possa mover esse corpo que é inerte
Eu não tenho solução, não tenho mais pra onde ir
Eu não tenho outra opção além de ver tudo ruir

sábado, 16 de julho de 2016

Crepúsculo

Tenho sonhado todas as noites
Com as mais diversas realidades
Em nenhum desses sonhos e noites
Eu tenho vivido verdades

Não sei descrever fielmente
O que está acontecendo comigo
Nem tudo está bem, tudo está diferente
Nem tudo o que quero, nem sei se consigo

Os sonhos continuam me levando pro irreal
Pra qualquer lugar bem longe do que eu tenho vivido
Onde as vontades gritam o que pra mim é natural
E que durante as nossas tardes eu tenho escondido

Eu não sei se quero viver de novo a realidade
Os sonhos são melhores, eu acordo renovado
Não há sinal nenhum de que virá a tranquilidade
Enquanto tudo rui nesse meu mundo acordado

domingo, 3 de julho de 2016

3 de Julho

Entre o medo de viver e esperança de acertar
O tempo vai passando apressado a minha frente
Foi-se mais um ano, amigo, agora é diferente
Novas chances pra você, tente não desperdiçar

Daqui um ano você volta aqui nesse rascunho
E avalia com clareza o que mudou na sua vida
Assim como a madrugada que passa despercebida
Vamos ver se dá pra sobreviver ao mês de Junho

Tanta vontade de ser grande te fez ficar pequeno
Se perder em opções de onde por o seu esforço
E descobrir contrariado que já não ficarás mais moço
Parece que é assim que a vida vai acontecendo

Existe tanta gente vivendo as mesmas dores
Padecendo fatalmente de sua própria ignorância
Quanto mais passa o tempo, menor é essa ânsia
De viver a ideologia, de lutar por seus amores

sábado, 25 de junho de 2016

Poema de Batalha

Que curioso é esse peso da idade
A tenra mocidade que se esvai tão de repente
Vão se os fios e os anéis, aos poucos leva gente
Nos dobrando sobre a força estranha da sociedade

Eu vagueio entre extremos absurdos de minha alma
Entre o medo de ser nada e a vontade de crescer
Afinal o que é ganhar? O que tenho a perder?
Para aquele que se humilha a história bate palma

Eu não sei bem se dou conta de seguir por mais um dia
Talvez no fim dessa semana eu encontre algum alento
Ou quem sabe eu me desdobre no confronto ao tormento
Pra mostrar que sou alguém que por valor triunfaria

Só eu sei como é difícil sustentar minha labuta
Eu escolhi caminhos tortos por caprichos do destino
Quando eu vi já era tarde, hoje não passo de um menino
Que persiste na batalha porque talvez goste da luta

Eu queria ter descanso, eu queria ter certeza
Eu queria alguma pista de que o desfecho é positivo
Eu queria imaginar o que me mantém tão vivo
E viver com a mesma força que apresenta a minha tristeza

Mas é assim que as coisas são, a gente cuida de si próprio
E força o escudo para o alto pra guardar quem vale a pena
Trilhando o caminho do alto enquanto a queda nos acena
Persistindo dia a dia por algum momento sóbrio

Maturidade e lucidez são coisas complementares
Que não se apresentam juntas por maldade do acaso
Eu que julgo tanta coisa, porque no fundo sou um raso
Só queria que o tempo aliviasse meus pesares

E no brilho disso tudo eu lavo minha memória
Resguardo sentimentos que preenchem meu vazio
Arriscando alguns limites que perduram por um fio
Pra ver se mudo em breve o decorrer dessa história

Existe a luz no fim de tudo, existe a satisfação
O derradeiro suspiro no leito da tranquilidade
Quando passa a vida toda e permanece a saudade
Pra narrar com polidez o que movia o coração

É tão cedo pra arriscar algum presságio de outros anos
Quem sabe a intervenção divina chega em meados de setembro
Eu tinha separado algumas coisas, não me lembro
De certo eu queria aprender a não fazer planos

Até lá eu sigo em pé, fraquejando na alvorada
Porque o amanhecer me traz tanta recordação
E algum aperto estranho nesse coração
Que já está muito cansado de aguentar tanta porrada

quarta-feira, 22 de junho de 2016

Carta ao Destino

Observe aqui a leveza de meus passos. Tenho traçado meu caminho sem a mesma pressa de antes, tomado o devido tempo para analisar minhas pegadas, notando o peso que carrego nos ombros refletida em certos momentos do passado. Eu melhorei, talvez ainda esteja no processo de ser um homem melhor, mas tenho me cuidado melhor do que antes, tenho prestado muita atenção nas palavras que digo e hoje eu vim lhe dizer o que tenho guardado.

Sempre foi e sempre será você. Eu tenho medo de escrever o que digito agora. Eu te amo, sempre amei e permaneci amando em cada um dos dias que passaram. Minha vida é muito confusa, mas eu sempre fui certo sobre você: é você quem eu quero. Balanço a cabeça para tirar da mente alguma coisa que eu não quero, mas agora organizo a linha que devo seguir: preciso te dizer muito.

Eu aceito quem você é, eu te amo exatamente dessa forma. Eu sei que você me escolheu, eu sei que você sempre me escolheu, mesmo quando isso não foi muito claro pra mim. Eu sei que os outros vem e vão, mas sou eu quem permaneço, eu sei que eles não significam nada agora e eu continuo sendo imenso na sua vida. Ainda assim não é fácil para mim, o que me faz pensar que eu sou uma pessoa horrível. As coisas na minha cabeça são nubladas e quando você mente, tudo se nubla mais. Nem sempre foi o suficiente saber de tudo isso, porque eu me saboto, porque eu me questiono, porque eu me confundo, mas eu sei que você esteve do meu lado e que cada uma das coisas que você amou, você quis amar comigo. Eu amo isso. Dentre todas as pessoas que passaram pela sua vida, eu sei que eu fui a única que você quis levar consigo, eu e o Ernesto.

Talvez seja tarde pra dizer algumas coisas, mas eu sempre soube tudo isso, eu sempre soube de todas essas coisas. Eu não tenho nenhum motivo pra questionar a sua vontade de estar comigo, o seu amor ou a sua paciência com os meus problemas, isso me machuca muito. Tudo que vivemos foi recíproco ao seu modo, tudo o que vivemos foi completo e pleno, tudo o que vivemos foi tudo o que podíamos dar um pro outro. Eu aceito seus defeitos e diferenças, assim como você aceita os meus, e mesmo quando eu espero que você mude, não quer dizer que eu não te ame exatamente assim, só diz que eu busco um alívio pras coisas que me trazem angústia. Você é a melhor pessoa que eu conheci na minha vida e me mata saber que eu escolhi seguir sem ti. Agora eu escrevo com a vontade de te abraçar e te trazer pra perto.

Eu posso ser feliz com você, contanto que seja justo comigo mesmo e com as suas necessidades. Eu sempre soube que as coisas que me machucam são apenas coisas suas, que nunca deveriam pesar tanto para mim. O que mais me dói depois de todos esses meses é saber que eu poderia ter sido melhor, poderia ter sido melhor para você e pra mim mesmo. Eu abri mão da minha felicidade com você apenas porque as coisas eram muito confusas na minha cabeça, hoje eu temo apenas a falta de confiança e a imprevisibilidade das minhas reações. Hoje eu temo apenas a falta de coragem de aproximar essa distância. Hoje eu temo apenas a ideia de que você está a uma ligação de distância, apenas os segundos necessários para dizer: "Eu te amo, te perdoo. Me desculpa. Te quero de volta". Hoje eu temo que essa carta nunca chegue.

Eu sei que a gente se fez muito mal, eu sei que a gente se machucou muito, eu sei que a gente se decepcionou demais. Mais do que tudo isso eu sei que sou muito melhor hoje, e é com você que eu queria compartilhar tudo isso. Eu sei que as coisas terminaram mal e que eu posso estar sendo um iludido com essas palavras pouco certeiras, mas tanto amor não deve ser desperdiçado não amando. A forma como eu te olho não mudou, seus olhos ainda me olham como antes. Ainda vale a pena por você.

Pra sempre seu,
Merlin


segunda-feira, 20 de junho de 2016

Força de Vontade

Por todos esses anos eu vivi a sua vontade
E a diversidade de verdades que escondias
Sei que eu também mentia na minha sinceridade
Eu queria uma igualdade que jamais receberia

Com o passar dos anos eu perdi muito de mim mesmo
E fui vagando assim a esmo entre a sua confusão
Quando não perdia o sono, perdia a minha razão
Variando entre ilusão, decepção e muito medo

Eu achei minha resposta, por mais que seja a que eu não quero
Por mais que seja a que eu espero francamente estar errada
Escrevo a confissão marcada por não dizer o que eu mais quero
E por dizer que muito espero de alguém que não faz nada

Mas eu preciso te dizer que seu espaço na minha vida
Fica entre a confiança dividida e a certeza de mais dor
Por mais que sobre muito amor, minha alma já foi vencida
Eu não aceito outra ferida em nome desse amor

Qualquer Coisa Certa

Quando você chegar
Deixe a porta aberta
Traga consigo o sol
Ou qualquer coisa certa,

terça-feira, 14 de junho de 2016

Impurezas

Abertos os olhos, resta o peito que se fecha à realidade
Perdido em uma quase lucidez que se degrada todo dia
Concentrando as suas forças em se levantar da cama
Percebe enfim que o mundo já não mais lhe bastaria
Tropeça em cada um destes degraus com tua leveza
Mostra o rosto amarrotado de quem optou pela derrota
Joga fora o que ainda resta de valioso no passado
Pra sentar-se esperando que alguém lhe abra a porta
Sofrimento há muito tempo não significa nada
Afinal de contas quem será que ainda tem certezas?
Assistir outro cigarro se queimando e desejar
Queimar-se juntamente à fumaça e às impurezas
Abertos os olhos, resta o peito que se fecha à realidade
Acordar de mais um sonho com os rostos de outro dia
Concentrando suas memórias, fantasiando que não amas
Percebendo enfim que ninguém mais no mundo bastaria


quinta-feira, 9 de junho de 2016

Síndrome do Herói

É muita coisa nas minhas mãos o tempo todo, aos poucos eu vou perdendo a consciência do que controlo e do que me controla. Vou atravessando as tempestades que chegam e deixo tanto de mim em tudo isso. Será que o heroísmo faz sentido se o prazer não é absoluto? Eu perdi o rumo dos meus passos a medida que os ia traçando e fui me aproximando de um vazio que hoje é tão denso, tão complexo, tão medonho. Talvez tudo isso seja apenas o que eu sou, mas ainda assim é tudo o que eu não queria ser.

A gente sofre as consequências do atos de terceiros, parece que a vida se resume a isso. A gente paga pelas mazelas que os outros criam. Eu nunca quis ser uma dessas pessoas, percebo agora que o mal que eu propago reflete-se nos outros. Eu não posso ser responsável por nenhuma infelicidade que não seja a minha, não nesse momento da minha vida. Talvez por isso eu me feche na timidez das noites turbulentas, quando os demais se aproximam de mim, apenas posso dar passos pra trás.

Diante dos caminhos, eu escolhi o mais sinuoso, porque ali estava o desafio. Causei angústias a cada um desses passos e sei que muitas outras devem passar. Eu calo minha boca, porque só o que meus olhos sentem já me corta por completo. Ao passo que o inverno quando chegar buscará mais frio em mim, que já não tenho mais calor nas veias. Mas deve haver um ensinamento em tudo isso.

Não posso ser aquele que propaga o que não quer ganhar de volta. Das magias mais antigas da humanidade, uma delas ainda vive em nosso tempo: a lei do retorno. Se venho causando problemas, de certo teremos problemas. Eu não quero mais.

E agora quando a minha mente vacilar, eu notarei com serenidade que não posso atravessar todas as tempestades e que as vezes o abrigo de outros braços é apenas passageiro, se eu não posso ser herói de mim mesmo, não há naturalidade em ser herói para outrem. Eu que sou o mago da resolução das problemáticas cotidianas, confesso aqui que não ser fazer magia, apenas traço as linhas no papel branco que é a ritualística mais banal do mundo, difundo minha vontade pra que minha vontade se afunde em mim.

Munido apenas de minha consciência frágil, decreto aqui que sou senhor de minhas mazelas e delas padeço sozinho, não trarei mais complicações a quem se senta em minha mesa.

Que as próximas horas sejam mais leves.

domingo, 5 de junho de 2016

Sobre a Chuva #3

Agora o tempo fica frio, pra me equilibrar por dentro
Eu tenho usado do meu tempo apenas o que lhe cabe
E o resto do meu dia eu só espero que acabe
Afinal não parece mais haver outro contentamento

É a ansiedade que me mata, é a gana pelo olhar
Estar perto é o que sacia essa vontade absurda
Desejar que me procures, nem que seja por ajuda
Desejar que me procures, sem ao menos desejar

E já nem chove na minha rua, deve ser algum sinal
De que o mundo está maluco ou fui eu que alucinei
Tanto faz, na verdade eu apenas me cansei
De mais gente e então mais gente que é sempre só igual

Aí você aparece e traz consigo a tempestade
20 garrafas de cerveja não serão suficiente
Eu dissipo a tua tormenta pra que nada atormente
E te peço pra ficar enquanto for tua vontade

Sobre a Chuva #2

Será que nasce um sol por detrás da tempestade?
Não sei bem se é luz o que nos falta nesse dia
Talvez assim você enxergue a resposta que queria
Talvez se eu sento e espero passa essa ansiedade

Contido nas janelas meu horizonte é sempre igual
Eu enxergo tantos meios pra encontrar tantas saídas
E você aí perdida nas vielas divididas
Buscando equivocadamente a resposta mais fatal

Se a tempestade continua você apenas cruza os braços
E eu respondo do outro lado que é simples me seguir
Eu menciono o meu passado e conto pra onde devo ir
Aos teus olhos eu me encontro apenas em meio aos vagos

A tempestade irá embora um dia, a gente sabe que irá
E pra onde a gente vai acostumado com a inércia?
Eu me desdobro em mil pra elaborar a peripécia
Pra te levar junto comigo, onde quer que eu vá

Sobre a Chuva #1

Dado o segundo passo começam as incertezas
Será que é isso mesmo que a gente procura?
Talvez no acaso de qualquer outra loucura
A gente consiga construir apenas mais tristezas

Chove lá fora, como há muito não chovia
Mas você está vindo e assim tá tudo bem
Primeiro ato findo, pro segundo você vem
Pra me fazer sorrir como há muito eu não sorria

De certa forma vale a pena arriscar tudo contigo
Pois se as coisas forem bem a alegria é imensa
Se as coisas forem mal, a gente senta e repensa
Não tem porquê se congelar só pela sombra do perigo

A chuva dá uma trégua porque você tem que chegar
E isso só me mostra que o certo é o que é incerto
Minha cabeça a se nublar quando você chega mais perto
Sei lá se isso me assusta, mas eu tenho que tentar

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Primeiro de Junho

As escolhas que tomamos acabam tomando a gente, senhorita
E eu sei que pra você parece urgente uma mudança
É tanta confusão contida nas palavras mais bonitas
Que mesmo em meio à calma não se vê mais esperança

Eu sei que sofres, porque já sofri do mesmo mal
Enquanto os outros seguem a gente se perde estando imóvel
Não há nada nisso tudo que lhe torne um ser banal
Mas é difícil aceitar que a solução é sempre o óbvio

Você não precisa me escolher, porque a gente se escolheu
Você não precisa me acolher, porque a gente se acolheu
Você só precisa se mover, porque você não se perdeu
E eu permaneço como estou, eu não pretendo te soltar
Eu vou contando-lhe o que sou, pra você se acostumar
Porque de tudo o que restou, você é o que vale guardar

terça-feira, 31 de maio de 2016

Solução

Veja bem, as possibilidades dizem muito sobre nós
Enquanto eu calculo o tempo você soma as distâncias
Eu divido minhas essências, você aumenta as discrepâncias
Mas ainda não entendo o resultado disso tudo

Nem sei se quero imaginar o que é que vem após
Se nos teus cálculos me encaixo o resultado é positivo
E se mudar as variáveis ainda digo que me arrisco
Em função do nosso tempo, tudo isso é absurdo

Eu sei que quero o resultado que me agrada mais
Ignoro os erros que essa operação nos apresenta
Assim como você se aflige tanto que nem tenta
Entender que não são números que resolvem a questão

Se é pra contar alguma coisa, esquece a história por detrás
Não adianta eu te pedir pra me aceitar em meios termos
O interessante é descobrir aos poucos se seremos
O que falta nisso tudo, dos problemas a solução

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Leoa

Amansa a minha teimosia
Me conquista, só mais uma vez
E me leva pra onde for, eu deixo
Você sabe do bem que já me fez

Se não dá para ser mais agora
Seja exatamente aquilo que puder
Me basta mais um dia do teu lado
Me basta aquilo que vier

Eu me acalmo diante da tormenta
Das frases que você não terminou
As coisas estão bem assim
Pensa que a gente mal começou

Toda a confusão cessa
E a gente ri daquilo que passou
As coisas continuam como sempre
Só a gente que mudou

Eu penso em várias formas
De mostrar-lhe que isso é certo
Só falta você me captar
Só falta você chegar mais perto

Em qualquer blues eu vou cantar
Os mesmos versos que lhe teço
Se te comovi com outros versos
Foi apenas meu começo

Se eu te passar um mapa
Pra encontrar tranquilidade
Prometa para mim
Que tenta com sinceridade

Te passo o meu endereço
E você vem correndo aqui
Promete então, cara leoa
Que não vai esquecer de mim


domingo, 22 de maio de 2016

Afirmativa

Senhorita,
Admito enfim neste domingo que estou nas tuas mãos.
Se me cabe um sim neste destino, somente a ti cabes decidir
Se me resta o não, por desatino, esta loucura irá me divertir
Pensando bem neste acaso, já não estamos muito sãos

Já não faz sentido outra abordagem pro encontro
Se tanto desencontro ainda assim só fez juntar
Rei de mil problemas e rainha de se complicar
Seja lá qual for o meio, sei que tudo estará pronto

É assim que a vida age, não dá pra ter escapatória
As coisas se encaminham pro fim que devem ter
Assim como as escolhas que fizemos no passado
Se de tanto erro mútuo sobrevive nossa memória
Em comum temos certeza de que soubemos crescer
E agora então me diz: o que pode dar errado?

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Pedaços

Foram muitos pensamentos que me trouxeram a este ofício de hoje. Mais uma vez tenho a sensação de que a obra que deixarei para a posteridade é puramente a obra que tenho vivido. Talvez eu seja apenas uma pessoa que observa os fatos e tenta não tirar o pior deles, mas acabo falhando quando devo enxergar o que há de bom. Isso tudo é o que sou, um ser difícil, mas que tenta constantemente ser melhor do que foi outrora.

Hoje o dia está bonito, da janela do meu quarto eu vejo um horizonte diferenciado dos demais. É fácil me tranquilizar quando as folhas das árvores tremulam calmamente e o céu tem um tom cinza amarelado de mais um pôr do sol que assisto na plenitude solitária de minha atualidade. Muita gente se preocupa comigo ultimamente, mas eu estou bem. Não sei dizer o que mudou, não sei evidenciar qual é a causa da minha paz, também não penso mais com tanta frequência na minha essência melancólica e nos meus olhos cansados, apenas durmo bem e anoto os sonhos pra recordação.

Eu não sei o que a vida me reserva, não sei quando é que vou me provar que estou certo. Não tenho tido muitas necessidades, portanto fica fácil atingir uma completude de corpo, alma e mentalidade. Este não é mais um momento triste em que eu tento inconscientemente eternizar minha amargura. Com o tempo eu notei que o escritor é responsável pela imortalidade das emoção e das vivências que descreve. Eu aceitei a condição de que a gente segue em frente e que nada no mundo vai trazer de volta as coisas que eu queria reviver, sendo assim, escolho não mais tratar minhas dores  nessa escrita autoterapêutica, escolhi tratar daquilo que eu não sei bem se entendo.

Francamente, por que eu me cobro tanto uma compreensão que não significa nada além de momento? Eu conheço as consequências de meus atos há muito tempo, conheço minhas responsabilidades e sei bem que meus estímulos são simplórios, não há razão de me prender a esta fase transitória. Eu tenho me proposto tanta coisa interessante e tenho alcançado igualmente tanta coisa, por que é que eu ainda me sinto tão pouco nesse mundo? As pessoas me chamam em outros cantos, em vão não responderei, porque essas pessoas estão vivendo bem e eu não sei se quero contribuir com estragos. Sozinho a vida é simples, tudo depende apenas de minhas mãos, tudo depende apenas dos meus pés, tudo depende apenas de minha mente, eu estou bem assim. 

Todavia eu não entendo muito bem qual é o propósito dessa felicidade solitária, afinal de contas eu sou só sorrisos quando estou em meio aos meus iguais, aos meus irmãos, aos meus amigos, aqueles que são a razão maior de minha mudança. Várias vezes eu ouvi de várias bocas que eu deveria me amar, deveria ser feliz comigo mesmo, deveria me bastar. Hoje eu entendo um pouco mais o que eles queriam dizer, mas entendo melhor ainda que eles nunca conseguiram enxergar por detrás do véu de minhas dependências e depressões. Eu sempre fui feliz comigo mesmo, eu sempre me bastei, eu sempre me achei muito melhor do que me portava diante dos outros, mas o vício por afeto e carinho e a melancolia me fizeram aceitar que toda tristeza era recompensada com outro belo pôr do sol, que era bonito sentir demais, porque quem sente muita tristeza também pode sentir muito amor. Quanto amor eu sinto? Jamais entenderei. Apenas entendo que isso nunca dependeu da tristeza e do sofrimento que eu aceitei viver. Contudo, sempre me bastei e sempre me senti bem comigo mesmo, quando possível, não vim aqui ser hipócrita defendendo que um homem é feliz consigo mesmo a qualquer instante. Guardo minha hipocrisia para outra situação.

Se eu nunca mais serei aquele que fui nos últimos anos, talvez agora seja a hora de começar a desenhar aquele que serei nos próximos. A automedicação que me proponho é mais um verso, é com isso que irei contribuir. Aqueles que eu amei e aqueles que eu amo nunca irão morrer, pois estarão sempre guardados aqui neste recanto, neste pequeno templo de recordações quentes e lágrimas frias, neste arquivo daquilo que já não interessa mais, mas que interessou o suficiente para se tornar um pedaço de mim. Um pedaço que deixo aqui.

sábado, 30 de abril de 2016

Doce Bipolaridade

Agora deixo o tempo trabalhar como puder
Me colocando um passo a frente do destino
É um desatino, mas aceito o que vier
Reformulei o meu contrato, agora assino

Foi complicado alcançar minha consciência
Que se perdia a cada hora por tão pouco
E se for louco o meu caminho, experiência
Eu grito alto até ficar muito mais rouco

O que é culpa fica ao lado pra lembrar
Que nossos erros constroem os acertos
E certas coisas nunca vão se consertar
Certas pessoas vão embora com o tempo

Mas seja lá o que eu sou permaneceu
E eu aceito a condição de ser melhor
Pra mostrar que quem errava enfim cresceu
Pra mostrar que eu não quero ser pior

terça-feira, 19 de abril de 2016

Amigo

Amigo,

Se me pedes o consolo da minha companhia
Como eu, que sozinho sou nada, negaria?
Eu que sem ti seria cinzas ou apenas levaria a vida cinza
com amargura
Se teus dias são ruins, que sejam nossos
Se tuas noites são longas, que sejam nossas
Se tuas dores apertarem, que sejam minhas também
Pois se diante de todos em minha vida, foste contigo
que escolhi compartilhar minha caminhada
seja intensa ou perisosa, com obstáculos medonhos
com pesadelos e sonhos, para mal ou para bem
É contigo que contei, então contes comigo também
Posso perdoar todo o mal que me causares
Mas como perdoaria se escolhesses se causar o mal?
Este mal que é estar sozinho não compensa
Então para e pensa.

Amigo
Pro que precisar
conte comigo.

domingo, 17 de abril de 2016

17 de Abril de 2016

Querida,

Lhe escrevo hoje porque não há mais nada que eu possa lhe falar, entretanto tenho tanto a dizer. Assim como a vida continuou dia após dia enquanto estive ao seu lado, os dias continuam ao meu lado enquanto a vida ainda pertence um pouco a ti. Não há muito o que dizer sobre esse processo, o tempo passa, porque tem que passar, as coisas passam, porque têm que passar, e você sempre soube de tudo isso muito melhor do que eu. Um momento cria outro, nesse meio tempo apenas podemos tentar guardar o que nos é precioso. Sabendo do que perdemos, eu agora me pergunto se vivemos um momento ou apenas falhamos em guardar o que éramos em um intervalo entre momentos.

Ainda não entendo o que aconteceu. Contei diversas vezes a história das bobagens que eu te disse, procurando em meio a tanta coisa quais foram as bobagens que fizeram diferença pra essa história. Eu sei que alguma coisa se perdeu, mas talvez tenha sido alguma coisa que eu não conheci de fato, portanto jamais poderia encontrá-la. Por diversas noites eu pensei nisso e cada uma dessas noites eu perdi, porque as respostas que eu procuro nunca apareceram. Veja bem, não espero que me explique ao seu modo quais foram as causas do incidente, pois as horas que o destino ainda pode nos reservar devem ser gastas com outras coisas.

Sinto sua falta. Tenho notado sua ausência com frequência, nessas horas respiro fundo e penso que você está ocupando os espaços ideais agora, pois a última coisa que desejaria era me tornar um exercício. Ainda penso no que você me falaria diante de situações diversas, ainda lembro do seu cheiro invadindo a minha cama. Saudade é uma coisa que não dá pra explicar, é algo que nos distancia ainda mais do que as distâncias. Sinto sua falta porque foi só o que sobrou de ti. 

Eu nunca quis que fosse dessa forma. Dou muito valor à vida que tivemos juntos e ao que construímos um no outro. Fomos essenciais um para o outro, de formas diferentes, mas sinceras. Tenho orgulho do que criastes em mim, assim como fico honrado ao reconhecer um pouco de mim em ti. Eu nunca quis que a gente se magoasse, porque merecemos a felicidade e a plenitude, tanto a que tivemos e sempre será só nossa, quanto a que nunca poderíamos viver juntos. Eu entendo que tantas coisas em nós são infinitas e que só pode haver carinho por aquelas coisas que são passado agora, mas confesso que você habita meus sonhos persistentemente, não só aqueles que tenho dormindo. 

Por vezes eu comecei essa carta e desisti, não sabia o que falar e não queria de forma alguma trazer à tona sensações ruins, porque o nosso fim foi muito amargo e hoje eu desejo que a sua lembrança de nós seja bela. Ainda não tenho certeza das palavras que estou escrevendo, mas não devo faltar com coragem por me faltarem razões. Sendo assim vou ocupar esses espaços com o que houver de bom.

Não foi fácil. Ainda não é. De qualquer forma eu continuei aquelas velhas batalhas, conquistei mais algumas coisas boas. Estou trilhando o meu caminho com foco. Não me destruí, mas não escondo os meus deslizes. Não te fiz promessas, mas ainda me serves de motivação pra ser uma pessoa melhor, pelo respeito ao seu papel na minha vida. Fui feliz quando pude. Não quero compartilhar minhas angústias contigo, vou apenas resumir que tenho passado por alguns problemas, que você já conhece, e tenho encontrado certa dificuldade em alguns momentos. As vezes desejo tanto o seu apoio e o seu colo, que até penso que não conseguirei mais nada sem ti, mas não me entrego e, quando posso, faço o meu melhor.

Não tenho tido notícias suas, o que tem sido uma tristeza calculada e necessária, mas rezo por ti todas as noites e te desejo do fundo do meu coração a felicidade e as realizações que você merece. Extendo esse desejo à sua família também, a cada uma dessas pessoas que foram parte da minha vida e que também me fazem falta, de formas inexpressáveis. Apenas tenho acesso à fragmentos de suas alegrias e me traz satisfação ver que estás rodeada de pessoas que te amam e querem apenas o seu bem.

Sinto necessidade de dizer algumas coisas por mim e por você. Não te culpo por nada do que aconteceu e perdôo cada uma das suas falhas. Reconheço meus erros e te peço perdão. Disse coisas que não eram verdades e expressei sentimentos confusos, porque nem sempre eu soube o que fazer. Tudo o que vivemos foi novo pra mim, hoje eu estou mais preparado pra agir de forma mais madura perante situações adversas. Também quero que não se sinta mal por ler outras coisas que tenho escrito, apenas entenda que nem todos os dias foram fáceis e que em alguns momentos a necessidade de te ter por perto se transformava em desespero. É importante dizer também que te entendo e te amo precisamente da forma como és e não julgo suas escolhas, te quero genuinamente feliz e se isso já não pode me incluir, já me conforta saber que por vezes fui eu quem te trouxe felicidade. Me dói, é claro, não fazer mais parte da sua vida e não saber o que o amanhã reserva para nós, mas me dói mais ainda pensar que as minhas últimas palavras pra você foram as piores que eu podia dizer. Então se nunca mais puder te dizer nada, desta carta poderás sempre tirar as melhoras palavras para o nosso final.

Há sete anos atrás eu conheci a pessoa que mudou a minha vida e isso é pra sempre. As relações são efêmeras, a gente também é, mas você é parte do que sou hoje, está estampada em pele e no coração que ainda bate diferente por você. Obrigado por ter compartilhado tantas histórias boas e ruins, nem todas as pessoas tem a chance de viver um amor tão forte quanto o que nós vivemos e isso já faz da vida um pouco mais valorosa. Não sei o que vamos viver daqui pra frente e se teremos a sorte de nos reencontrarmos, mas eu quero lembrar do nosso tempo com um sorriso e não guardá-lo para uma eventual reviravolta.

Portanto viva plenamente, seja assim desconcertante como és e experimente tudo o que te desperta o interesse. Felizes aqueles que estiverem em teu caminho, porque conhecerão a pessoa mais fantástica que eu tive o prazer de conhecer. Continue se amando e vivendo pela sua melhora, afinal de contas você é capaz e especial, com certeza vai alcançar coisas grandes e acredito que seus sonhos se realizarão. Desejo paz e felicidade, essa palavra que te persegue aonde quer que você vá. E quando as distrações faltarem ou a queda for maior que o vôo, lembra que o meu amor é seu e pode ser pra ti o que for mais conveniente. Não se resguarde por medo de me machucar, se precisar de mim estarei aí, assim como sempre estive, assim como sempre estarei. Eu te amo, do fundo do meu coração.

Sempre seu,
Merlin

Regressão

Num dia desses, há quase 24 anos atrás, eu tive uma conversa séria com duas pessoas. Eu mal as conhecia, mas sabia exatamente o que falar, porque naquela época eles precisavam me ouvir. Naquele dia eu sugeri uma hipótese, sugeri como seriam os próximos 24 anos.

No começo seria fácil, porque o que é novo ainda tem muito pra se estragar. Eles dariam alguns passos pra frente, mas sem notar precisamente aonda estavam pisando, e construiriam um frágil vínculo. No começo eles se enganariam, porque essa é época em que tudo é sedutor. No começo os acertos viriam, por acaso, mas algo se perderia, algo que passaria despercebido, algo que só viria à tona anos depois.

Os anos seguintes seriam mais baseados em crenças do que em fatos, as perspectivas e planos dariam lugar à necessidade cotidiana. Ainda haveria crença no amor e disso surgiria o primeiro filho. Como se o mundo se criasse de novo eles também se recriariam, amariam essa novidade em detrimento do que havia entre os dois.

De pouco em pouco a crença no amor se tornaria em amor à crença. A promessa do futuro já não seria mais tão sedutora e o filho seria a única coisa que eles teriam em comum. Só então eles conheceriam as facetas que não haviam notado um no outro, percebendo por fim que o súbito amor verdadeiro não passava de uma necessidade de tentar. Os anos passariam rapidamente, mas o erro permaneceria.

Um dia eles se olhariam desejando ser outras pessoas e enxergariam no outro a projeção do quanto haviam se degradado como pessoas. Nesse dia eles decidiriam que não havia mais formas de acreditar naqueles planos iniciais e que o que eles haviam construído deveria pertencer a outras pessoas. O filho se tornaria então o elo que sustentaria a convivência, mas ele jamais cumpriria esse papel.

Na briga final, um culparia o outro por todos os erros e nenhum enxergaria que um dos erros era o filho, evidenciando que os dois queriam manter o que havia de comum entre eles, mesmo sabendo que um dos lados dessa união seria detestável. A briga acabaria com eles. A briga acabaria com tudo, mas aquela pessoa que eles botaram no mundo prosseguiria, carregando o desrespeito que enxergou, sabendo que fora usado apenas como arma nessa guerra.

Anos depois a história já não seria sobre eles e sim sobre o que eles criaram, destruíram e deixaram de resto para que o filho carregasse. Essa pessoa escolheria nunca procurar os dois quando se sentisse inseguro, porque saberia que só aumentaria sua insegurança. Essa pessoas escolheria nunca se aproximar de verdade de nenhum dos dois. Essa pessoa escolheria nunca acolher nenhum dos dois. Até o dia que ele escolhesse que nenhum dos dois seria parte de sua vida.

Nesse momento os erros do passado voltariam e a dor que foi ignorada no calor do momento passado arderia como nunca. Eles se perguntariam o que tinha que ter sido diferente. Eles tentariam de tudo para desfazer o estrago, mas nada se mostraria eficiente.

Chegaria então a notícia de que a única coisa que havia em comum entre eles havia se matado, porque carregar o ódio de um pelo outro o fez odiar e por não ter alento no carinho que ele escolhera não receber, o único caminho que encontrou foi se perder. Não haveria meios para se encontrar.

Ao final da conversa, olhei bem no fundo dos olhos que ainda estavam atentos às possibilidades e ainda se desejavam a despeito do que eu havia contado. Apenas perguntei: é isso que vocês querem, sabendo de tudo que ele nunca vai querer?

Eles se separaram
E essa conversa nunca existiu

Contribuição

Hoje eu queria fazer diferente
Não expressar de forma clara o que pesa no meu peito
Não usar as palavras pra causar conforto ou alívio
Apenas usá-las

E dar valor à simples prática da escrita
Não porque eu preciso
Não pra me salvar
Apenas pra contribuir

Quem sabe eu levo isso pra minha vida
E nos dias mais difíceis, aceito
Levo o momento como prática
Nem tudo precisa ser sobre sentir

Concebo como um exercício
Que nem sempre é favorável
Mas que é tudo que existe
E apenas contribuo

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ensaio Sobre a Felicidade

Acordei outro dia sem perspectiva de colaboração, quero apenas que o universo me conceda uma saída rápida nessa linha reta da funcionabilidade. Levantei-me, porque deitado eu penso muito, preparei-me e então deitei de novo, agora sim era a hora de pensar. Arquitetei minha armadilha: me prendo nisso e vou buscando as chaves que sempre estiveram no meu bolso, porque o desafio é se convencer de sair do conforto e da segurança dessa melancolia. Como os velhos que já não fazem parte da vida, apenas se enquadram naquele momento que pode durar um dia ou 15 anos, aquele momento que tudo termina. Feito isso, me sentei diante da estante do desinteressante, agora vou contar a história sublime do que apropriei das histórias medíocres.


Aqui de dentro a vida parece mais tranquila. Não assumo compromissos, não me presto à reforma ou revolução, não me apego ao desenrolar do que é natural. Naturalidade para mim é enxergar de fora, porque eu vivo em um futuro calculado nesses horários tortos que me cabem. Por volta das 20 eu já sei o que fizeram, mas meu dia começou, minhas possibilidades são maiores porque as informações são frescas e eu acabo de concentrar minhas energias. Agora é só buscar a chave e sair do refúgio do escafandro. Vejo que ficou tarde, já não há o que fazer depois das 22h.


Como dá pra ser feliz com essa modalidade restrita de vida? Eu fui privado das vivências e enxergo com desconforto os passos dados que eu nunca poderia dar. Mas a escolha é minha, por que é que eu não a tomo?

Pause aqui pra entender o que você não entende. Já parou pra pensar que o que te fazem consumir consome você? Em um milhão de livros eu li mil finais felizes. A literatura morre assim que a última página vem, assim como aquela sensação de fazer parte do irreal. Vamos fazer o seguinte, escreve seu livro com atitudes.


Antes do final do dia, acordo em bares e percebo que há entusiasmo, há um papo sobre qualquer que seja a novidade da semana, talvez da semana passada, eu me confundo nessas linhas cronológicas. Eu tenho um copo, eu tenho um maço, eu tenho voz e os outros tem ouvidos, agora sim posso contar a minha história mais sublime.


O que é a felicidade pros senhores? Devo perguntar isso em voz alta ou esperar as respostas das entrelinhas? Vou abrir a porta, porque tudo isso só funciona se o acesso é liberado. Felicidade é subjetivo, mas não deveria ser. Felicidade é convencionado. Culturalmente, por centenas de anos, a gente vem aceitando que uma única função cumprida é o suficiente pra dormir bem nas várias noites. Comprar seu carro, pagar suas contas, chegar no fim do mês com o sorriso do alívio, por que você confunde isso com felicidade? Trabalhar duro por tantos anos, construir a sua família com essa mesma ideologia. Diversas gerações de homens mecânicos, cumprindo o preestabelecido acordo que você assinou quando assinou seus documentos. Você é só um número, rapaz, e já que gosta de número, vamos conversar sobre a sua conta bancária. Ela compra o que mesmo? Ah é, compra seu carro, paga suas contas e quando chega o fim do mês você é feliz ou aliviado?


A gente tem perdido momentos únicos de 9 às 18, pra ter apenas momentos corriqueiros. Ficar feliz com o novo computador, achar o máximo essa impressora que é scanner, o ar condicionado, o novo software que vai facilitar a sua vida. Faz o seguinte, pega esse conhecimento prático, cria o software que vai mudar sua vida. Das 18 às 22 o que é que você realmente é? Já não é funcionário do expediente, mas será que o expediente saiu? Não, querido, você agora é funcionário de um expediente mais complexo, eu chamo ele de existência, mas você que trabalha tanto, pode só chamar de tédio, a gente vai compreender.


Enquanto isso, eu acordo as quatro, infeliz e livre, talvez a leitura correta seja incompleto e só, mas quem vai me dar essa resposta. Os dias bons vão me dizer que a felicidade está exatamente no copo, no maço, na voz e nos ouvidos, os dias ruins vão me dizer que a felicidade está nos travesseiros, os outros dias dizem nada, mas por que? A gente não precisa se desesperar na busca do futuro, não, a gente precisa se centrar no futuro do passado. Sem clichês, por favor. Claro que é clichê, mas as melhores frases não são? Me diz os seus objetivos e lemas, você acha que tudo isso é só seu?


Tudo isso é corriqueiro, sabe? Se você trabalhasse menos e se afastasse do que a sociedade te oferece, escolheria o meio fio em frente à praça à qualquer televisão de plasma de um milhão de polegadas, até porque em nenhum canal eles vão transmitir o meio fio, mas em todos eles a televisão de plasma estará bem visível. Tudo isso é o que a gente não aceita, porque a sociedade não aceita, o outro, aquele outro bem próximo de ti, vai pedir sua companhia no boteco e eu ainda não conheci nenhum meio fio que pagasse um salário. A gente tem que arcar com as contas, porque se não elas vão arcar com a gente, companheiro.


Então o que é felicidade? Nada
Felicidade é saber que nada disso faz sentido, porque não precisa fazer. Vamos transferir o significado das coisas pras gavetas e buscar o significante, tem que ter algum motivo pra isso funcionar tão bem, não é? Isso não é um texto político, não quero incitar revoltas e nem apontar o sistema como o nêmesis da vida plena, não. Só quero entender porque é que a gente se prende ao alívio como felicidade recorrente.

São só momentos, no final das contas, a vida tá cheia deles. É possível ser feliz em alguns, mas só se de cada um deles, você conseguir elaborar um verso.

Cartas Marcadas

Fiz um apanhado de tudo o que eu pensava que era, transformei isso em um espelho, pra que eu pudesse refletir por todos os ângulos. Ainda assim eu não consigo imaginar onde estou em tudo isso.

Perceba o que eu venho percebendo: A tinta nas paredes tem algum propósito, talvez elas estejam lá pra te mostrar que sua vida só pode ter um punhado de cores. Eu escolhi viver isso de forma diferente. Usei outras tintas pra tingir os meus limites e deixei claro para minha insubordinação inconsciente de que o que as tintas dizem nada ao meu respeito. O que está aqui escrito nas paredes é só um grito que as paredes precisavam dar, porque os meus não seriam ouvidos.

Ainda assim eu as escuto, ainda assim eu as concebo como companheiras nos momentos abstratos. Estou rindo e chorando, porque os meus sentimentos pertencem a outras dimensões agora, isso significa pouco mais que nada pra quem lê e quase tudo que é possível para quem escreve.

Essa é a minha droga, esse é o meu vício, essa a minha fraqueza. As palavras na parede são o sinal de onde eu queria estar, em um momento congelado no espaço tempo, visível apenas para quem tem alma pra compreender a magnitude do que optei por silenciar. Meu silêncio raro é a manifestação de que o surto tomou conta.

Meias palavras me causam atitudes reais, meias verdades me propõe verdades reais, meias promessas me geram expectativas concretas. Nada disso é paupável, eu sei. Do vasto campo insólito da feira de sensações, eu gastei tudo o que tinha em uma única cartada, será que devia ter distribuído melhor as experiências? Eu não sei do que eu não vivi, eu não sou o que eu não pude ser, eu não meço os passos que deixei de dar, mas tudo isso está aqui em alguma parte da minha estrutura.

Mecanicamente eu ainda uso das tintas pra enfeitar minha penitência, cada uma delas é a redenção de algum pecado.

Na teoria eu devia estar tentando atingir alguém com esse lirismo, mas de tudo sobrou cinismo e eu nunca soube me conter. Quero me atingir, quero me mostrar que dói mesmo, quero me fazer lembrar todos os dias desses fragmentos de realidade que eu deveria ter desmantelado em possibilidades boas, era tudo tão propício, mas era tudo duvidoso. Eu optei por ter conteúdo pra construção, disso venho construindo epopéias frágeis em castelos de cartas, todas elas me deixam ser coringa, todas elas me deixam ser quem quer que eu possa ser... nenhuma delas aceitou minha marcação. Acho que de cartas marcadas basta essas do destino, né?

O branco não é mais branco agora, ele foi manchado por azul e preto
O branco não é mais branco agora, ele foi manchado por mim.

domingo, 10 de abril de 2016

Teoria

Eu tenho uma teoria
A gente vem buscando as respostas pras perguntas erradas
Vem se encontrando em tanta estrada que já nem sabe onde ir
E as conversas pelos bares e os amigos e as risadas?
Quanta diferença damos ao que nos pode diferir?

Se busco apenas minha glória, quanto eu deixo passar?
E se buscar felicidade, quando compreendo o acerto?
Quanta alegria vai embora, o que iremos vivenciar
Enquanto nos degradamos na procura de um conceito?

Eu vivi por muitos anos aceitando o sofrimento
Achando que o melhor de mim era o melhor que eu conseguia
Hoje sei que o meu melhor é o que me traz melhora
Perdi muito de mim apenas por não estar atento
Fui formulando minhas propostas, deixei tudo em teoria
Enfim eu me entendi, felicidade eu quero agora

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Presença

Outro dia a gente a gente começou uma história incerta, senhorita. Há pouco mais que nada que descreva o que a gente representa, toda sorte de obstáculo se coloca entre a gente e pra nós resta o azar de sermos apenas o que somos, não é mesmo? Dentre todas as palavras que eu conheço e as frases que posso formular, talvez nenhuma diga exatamente o que eu quero descrever, das sensações que a gente se causa. Mas há algo além.

É engraçado saber das tuas angústias, é curioso adentrar a sua vida, porque em tudo isso eu vejo muito de mim mesmo. Eu sei que foi difícil para você, você sabe que é difícil para mim. Eu sei que você se fecha ao mesmo tempo que eu me abro e que quando as palavras me sobram as reações te faltam, mas os olhos fixos dessa fotografia em nossa conversa ainda me dizem muito, quase tanto quanto o teu silêncio. 

Pois bem, como em qualquer outra noite eu procuro o teu conforto. Sei bem que você me causa um bem inconveniente, mas por que é que a gente se distancia quando pode se aproximar? Eu te peço paciência, pois sei que vale a pena gastar algum tempo com estas palavras, porque somando e dividindo esforços, quem está gastando o tempo na verdade sou eu. 

Do que vale o charme e o sexo? Muito menos do que a empatia, eu tenho em tua companhia a impressão de que vem mais. Eu queria explicar exatamente o que me causas, o que me move a ser ouvinte das tristezas de outrora. Eu te entendo, minha querida, eu estive onde estivestes e sei bem que na verdade tu és muito mais que mostras. 

Eu só queria a tua presença, porque tudo intensifica. Se é só usar do clima e me atrever a ser mais, então me deixa aproximar e aceita que a vida é feita disso, De um bocado de tristezas e um punhado de alegrias, permeada exatamente pelas vidas e mortes que você descreve sem descrição, característica mais comum desse teu lado de poucas palavras.

Poucas e suficientes, pra eu saber que é isso mesmo, você já está aqui.

domingo, 3 de abril de 2016

Soneto Sobre Qualquer Coisa

O que está acontecendo comigo?
Onde foi que eu estraguei tudo?
Quando é que isso vai fazer sentido?
Quando é que eu realmente mudo?

Quando é que os dias prosseguem normalmente?
Como faço pra acabar com o que acaba comigo?
O que foi que eu consegui com meu jeito persistente?
Como transformar esse presente em caso antigo?

Mil sonetos não conseguem me tirar desse soneto
Mil poemas não irão resolver o que há de errado
Se eu escrevo outra carta pra quem é que a destino?
Tudo isso é tão errado, mas no fundo não tem jeito
Vou vivendo no presente me afundando no passado
Porque só o que eu entendo é que não sei pra onde estou indo

domingo, 27 de março de 2016

Breve

Um dia as coisas ficam mais fáceis
Os fardos ficam mais leves
E a gente se pega fazendo planos
Para futuros mais breves

sexta-feira, 25 de março de 2016

Fantasmas

E então do nada todos os fantasmas se reúnem. Todos os monstros que eu guardo nas gavetas e nas sombras de minha vida surgem, como se precisassem me dizer alguma coisa, mas nunca dizem, nunca tenho uma resposta. São só os mesmos fantasmas de todas as noites, são só as mesmas angústias de todas as noites. Parece que isso nunca vai terminar.

Todos os seres se agrupam, apontam para a minha fraqueza e me condenam, todos eles se divertem com a minha dor, ou será que eles são a dor em si? Já é tão difícil ter qualquer certeza. As noites tem sido mais longas, as manhãs tem sido mais frias. O sol parece mais fraco, será que a cor de tudo foi embora junto com as suas cores?

Eu só queria a tua proteção, me deitar contigo e saber que nada poderia me acontecer, pois com você as coisas fazem sentido. Hoje em dia nada parece ter porquê, nada parece ter final, é sempre tudo a mesma coisa, é sempre tudo a mesma cópia. Cadê você na minha vida quando eu preciso tanto? Mais uma vez é quando a dificuldade grita que eu perco o teu auxílio. Quando é que eu vou me acostumar?

De onde é que eu tirava forças pra sustentar-me até o fim da noite? No que mesmo eu me segurava quando os dias perdiam o propósito? Eu perdi tudo isso de repente, agora só tenho esses fantasmas, que nem mesmo oferecem companhia, apenas aumentam essa maldita solidão. É tão difícil sentir algum prazer, gozar da escolha que eu me impus, me alegrar pela coragem que eu pretendo... Nem sei ao certo se fui eu quem tomei uma atitude, só sei que o peso desses anos ficou aqui e eu tenho os arrastado para onde quer que eu vá.

E outra vez eu vou te culpar por tudo isso, outra vez eu te transformo no monstro que me assombra, porque eu já não consigo te encaixar em outro aspecto de minha vida. Outra vez eu vou fingir que nada disso é necessário, que é apenas outra falha que tu teimas cometer. Outra vez eu vou mentir para os fantasmas no meu quarto, porque tudo no espelho é um pouco vulnerável e eu já nem consigo garantir a minha própria sanidade.

Os fantasmas se reúnem, eles sempre estão aqui.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Vertigens e Torturas

Proponho-me vôos mais altos e caminhos mais vastos
Mil maneiras para observar a plenitude da queda
Mantendo ciência na mente de tudo o que peito hospeda
E os punhos contidos em espaços que não foram gastos

Tecendo centenas de versos, criando milhares de prosas
Sentindo a vertigem que bate quando o vôo decola
Não dá mais pra olhar trás, não dá pra voltar agora
Transformo meus versos em verbos e as prosas em provas

Torturo o meu coração, adoeço dia após dia
Mas há de chegar outro tempo, em que tudo pareça mais justo
Esse é o cotidiano de quem vive apenas do susto
Ter horas de tranquilidade, horas de pura agonia

Haverão mais vertigens e torturas, é claro que sim
Por enquanto eu apenas risco alguns nomes da lista
Por enquanto eu apenas tiro alguns rostos de vista
Por enquanto eu apenas prefiro assim

sexta-feira, 18 de março de 2016

Libertação

Eu tenho pensado muito na morte e em como todas as coisas devem acabar. Tenho virado noites calculando qual dor é mais suportável e pareço estar cada vez mais perto de qualquer resposta. As coisas ao meu redor seguem com naturalidade e eu ainda estou preso em tantos sentimentos passados. será que eu realmente sou um fardo? Será que eu realmente quero tudo isso?

Venho escrevendo notas suicidas imaginárias há muito tempo, guardando o pouco de coragem que me sobra para tomar uma decisão. Eu só queria não estar mais aqui, eu só queria não ter que continuar com nenhuma dessas coisas que me machucam tanto. As minhas escolhas de toda a vida se voltaram contra mim e eu realmente já não tenho forças para travar essa batalha comigo mesmo. Veja bem, a vida acaba hora ou outra, não há tranquilidade nessa passagem, é sempre o fim pra um e o luto para os outros, mas na minha vida parece que o luto já vem sendo sentido, devido ao peso que eu imponho nas minhas próprias relações.

Não tenho mais vontade de me levantar da cama, não tenho mais vontade de sair à luz do sol. Eu me deito e puxo as cobertas com a sensação de derrota: abri mão da única coisa que me fazia feliz, por mais que já não me fizesse bem. Irônico, não? Se eu continuar, enlouqueço, se eu desistir, me mato. Os dois caminhos levam ao fim, tudo está claro então.

E a dor nesses momentos chega a ser física, a solidão parece que dói nos ossos. Lembrar do que foi bom e desejar tudo isso de novo me consome. Eu tenho lutado como nunca pela minha própria sanidade, eu tenho levantado todos os dias e tentado ter um dia agradável até o fim de tudo. Mas também tenho carregado no peito uma culpa imensa, de não ter mais forças para tentar ser o melhor que eu podia ser por você, porque você já não quer isso, você só quer que eu cumpra o meu papel, silenciosamente, com a calma com que você pisa nos meus sonhos.

No mais, de quem mais poderia ser a culpa? Muita gente esteve do meu lado durante esses anos, muita gente quis ajudar. Eu infelizmente não consigo dar valor para essas coisas, porque o meu desprezo pelo que se vive aqui é muito grande e eu nunca consegui ser eu mesmo diante dessas pessoas. A culpa não é de ninguém, todo mundo está correndo atrás da sua própria felicidade, desesperadamente, e em algum momento desse processo eu soltei a mão do grupo e fiquei pra trás. Em algum momento eu me perdi nisso e não sei mais se posso ser encontrado.

Estou sofrendo demais, não só pelas novidades, não só pelos rompimentos. Tenho sofrido demais por não ter mais forças para continuar, por nem mesmo querer ter forças para isso. Tenho sofrido demais pela consciência de que sou uma pessoa horrível e que até neste momento sente uma pontada de prazer em pensar no sofrimento dos outros. Tenho sofrido muito porque tantas chances me foram dadas e quantas delas eu quis agarrar? Agora, na última chance que tive, eu simplesmente virei as costas e pedi o esquecimento.

No esquecimento estou.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Liberdade

Nenhum sinal de fumaça para essa noite. Nenhum alerta distante, nada vem de lugar nenhum. Apenas eu e as palavras que me acompanham há muito tempo. É assim que eu sou, me prendo às coisas e aos lugares, esperando que outras coisas e lugares me libertem posteriormente. Mas nada veio nessa noite, apenas as palavras que eu insisto em guardar, como companheiras ou carcereiras da minha própria solidão.

Eu construí coisas inabaláveis que caíram rápido demais e não soube desistir rápido demais das coisas frágeis. Eu me deixei levar e fui sendo levado por sentimentos que eu não deveria sentir, eu nunca quis ser tão vulverável e estar tão próximo da desistência. O fato é que nesse momento, eu apenas colho os frutos do que eu plantei, e o que eu plantei foram inúmeras ervas daninhas no meu próprio coração, que no momento não funciona como deveria, mas logo logo vai estar disposto e procurando a nova perdição. Mas dessa vez que seja nova.

Quantas vezes eu sustentei as coisas? Quantas vezes eu fui mais do que podia? Quantas vezes eu abri mão do que eu queria para ter o que meu coração desejava? Não, chega, dessa vez eu não posso mais ficar aqui assistindo minhas frustrações aumentarem. Eu não quero mais, eu não quero mais nada que remeta a isso. Não sinto mais nada, não desejo mais nada. Pela primeira vez a consciência do fim é tranquila e espero que ela me leve.

Se eu olhar por sobre os ombros e enxergar você na rua, apenas sigo em frente, porque tudo isso tem mesmo é que ficar pra trás. Eu amo ser livre, amo ser completo e amo ter minha vida pela frente, isso deve bastar de amor para o momento. Quanto a todas as outras coisas que ficaram, a gente queima. Essa é a única forma de me aquecer com alguma dessas lembranças.

Marco desse dia a ausência de sinais de fumaça. Não houve alertas e nem nada que viesse de lugar nenhum. As correntes se abriram porque eu forcei, o peso foi embora porque eu soltei e eu agora sigo para qualquer outro lugar. Qualquer outro lugar é melhor do que esse. Porque lá eu sou livre, porque lá eu sou inteiro, porque lá eu sou completo. Porque aqui eu me anulava e isso teve que acabar.

Obrigado, Matheus, por ter tido a força que você sempre quis ter

17/03/2016 - O último dia que sofri por isto. 

domingo, 13 de março de 2016

A Sala de Jantar

Na mesa posta, os pratos e talheres e pessoas
E a comida repousada a mesa que aguarda o agradecimento final para traçar seu destino
Cadeiras largas de qualquer coisa que não faz diferença
Porque poucas coisas realmente fazem diferença

O primeiro escolhe o centro da mesa, o segundo se sentaria a sua esquerda e assim por diante até o último.
O último não se senta, rouba os talheres e foge
E todos fogem
Porque poucas coisas realmente fazem diferença

sábado, 12 de março de 2016

Muros, Postes, Luzes, Praças e Avenidas

Já não há mais no mundo o aspecto humano da caligrafia
Não há mais a possibilidade de encaixar nos versos rápidos a vontade pura que as mãos transparecem
E assim como não existe mais o estudo não existe mais a essência.
Tudo há de se perder.

Devo ser um ser tão prepotente
Ao ver em mim a dor que aflinge os que admiro
Ler tantas frases e me ver nos intervalos
Mas o que mais resta de mim?
Eu falhei como exemplo, falhei como modelo, falhei como autor
Estou criando a recriação do que já existe
Repetindo aqui por tantas vezes o sofrimento e a metafísica e a indisposição
O fardo de carregar por tantas noites a falta da Tabacaria de defronte

Parado nesta janela para observar a vida eu me deparei com o muro
E no muro me deparei com meu limite
E no meu limite eu me deparei com tudo aquilo que já não é mais vida, tudo aquilo que já é mais nada
Saber de mim o que? Sou a cópia do que eu queria ser, me rendi à influência, me doei à dor dos outros para carregar ao meu próprio peito hipotético mais humanidade do que eu mesmo conheço.
Não quero mais pensar além da minha calvice e do peso da existência que sustento, há em mim tão poucos sonhos e quantos deles eu já abri mão há muito tempo?
Eu releio e folheio tanta obra, encosto os olhos nos pedaços de minha alma
Da personagem que criei para mim mesmo e que me criou sucessivamente
Como a metafísica das pedras em meu calçamento eu hoje sou duro, seco, morto, estático
Não estou conectado com nada superior, nem mesmo sei se existe o superior a tudo isso
Mas resumi minha vida na intenção de ser sublime

Eu entendo.

O que há de real por fora? O que pode haver de real por fora? Onde mesmo que isso começa?
Não, eu não quero a compreensão das entropias, sei que o rabiscar dos papéis antigos guardam mais de mim do que as teclas da modernidade. Eu me perdi antes mesmo de ter começado.
Não há resposta, não, não há. Há apenas um ser que queria ser outro e que entende a visão passada de que qualquer outra pessoa deve ser melhor do que a pessoa que sou. Tenho irmandade com coisas que não tem irmandade. Falhei

Talvez em tudo, talvez nem mesmo entenda o que tenha feito.
Sei que atravessei a rua e comprei outro cigarro, olhei pros lados e vi que as pessoas estavam lá, mas onde é que eu estava nisso tudo?
As vezes o mundo se fecha em coisas muito além do mundo e a gente tenta se lembrar dele de uma forma melhor do que a real
Enquanto o Destino me conceder, continuarei me enganando.

Há tantos gênios e tantos modos de ser genial. Talvez eu me conceba grande demais para tentar, porque é tudo fácil, é tudo tão pouco desafiador. O grande desafio é me manter de pé e assistir o muro defronte a janela que tem mais muro de defronte e mais janela por detrás, pensando que depois dessas fronteiras deve haver gente feliz.
Vocês precisam da felicidade, eu preciso compreendê-la.
Mas há mais assinaturas de gênios contidos em meu armário em meio aos livros que eu queria ter escrito do que palavras para expressar minha desolação.
O mundo é frio, cinza e errado.
Tanta gente se deteve esperando ao pé da porta de uma parede sem porta e eu aqui ainda grito para que abaixem a ponte
Talvez se eu tivesse olhado para o outro lado eu fosse feliz, mas aquilo que se esconde no que está a vista é muito mais grandioso e eu quis ser rei desse universo.
O universo me devolveu em responsabilidade e eu fui criança correndo de volta para a indisposição das coisas mundanas.

Se há no mundo um ser como Pessoa, se há na história uma verdade como a de Whitman, se há na terra o rastro de um Saramago, como posso eu esperar que a ponte baixe e os aflitos do outro lado vejam em mim uma resposta?
Eu nem me entendo, como posso guiar alguém à compreensão?
Temerário de meus objetivos eu redigito algumas palavras, por saber que das palavras pouco sobrarão, assim como a tabuleta se foi, assim como a tabacaria se foi, assim como a janela defronte se fechou, assim como o cigarro de quem observava se queimou e os olhos se fecharam,
Eu não preciso ter em mim todos os sonhos do mundo, porque assim eu deixaria o mundo sem sonhos
Eu só preciso guardar os meus sonhos em algum lugar mais rígido do que meu peito e mais protegido do que a minha mente.
Porque quando levantamos a metafísica vem, trazendo a consciência de que o pouco é quase nada e nós somos a migalha do que resta desse nada.
Veja bem, o que eu poderia ser então?

Vou correr os olhos na prosa de outrora
Vou passar meus dedos pelas capas desgastadas
E desejar mais uma vez ter morrido há mais de um século
Porque lá o significado pouco importaria, seria passado e do passado a gente só guarda o que quer.

Ouso mencionar a arte que me preenche em meio à minha própria sujeira
Como poderia ser mais arrogante o jovem que lê as frustações de qualquer velhice como as suas?
Num instante eu acordei e quis correr atrás do tempo perdido e quando vi o tempo estava bem em frente, apresentando um caminho que eu nunca havia notado
Mas era simples e eu desdenhei
Era fácil e eu gargalhei da sorte
Onde foi que eu perdi a fé que sou maior do que tudo isso?

Quanto altruísmo eu gerei, quantos ideais nobres e belos eu construi com o olhar frio como mármore
Quanta genialidade eu desperdicei querendo ser melhor
Quanto de mim eu deixei pra trás nessa imensidão de versos e mais versos que nem mesmo eu consigo ler, porque aqui a minha verdade grita e aponta para mim, aqui os julgamentos são reais e eu venho sendo condenado há mais tempo do que posso recordar.

Sigo pedindo para que os terceiros se lembrem de mim como alguém melhor do que sou, assim como fazemos com o mundo para manter a esperança.
Mas há tanto chocolate no mundo que a modernidade poupou da folha de estanho, as distrações estão no ar, são paupáveis, são tangíveis e os terceiros já não tem mais tempo para nada além da auto-confissão da confeitaria e a completa ignorância à tabuleta e à tabacaria e à prosa e ao que quer que tenha acontecido com a poesia.
Não há mais tempo para a metafísica, todos entenderam que é só uma questão de indisposição
Mas eu resisto bravamento como um guerreiro, travando a guerra imaginária no meu peito para atropelar meus próprios moínhos de vento.

(Talvez eu não seja tão ruim quanto imagino, talvez haja glória em mim, talvez eu tenha aberto os olhos dos outros pra realidade)

Mas a própria realidade vem fechando os meus olhos, porque eu não posso fazer parte disso aqui, eu não sou nada além da janela por detrás da janela que está, por sua vez, por detrás do muro. Eu sou a janela coberta pela cortina translucida, deitando ao chão espectros do que se passa em minha antivida, minha anticomplexidade, minha antiserventia para um mundo que já não precisa de serventia

E eu também tenho vivido, tenho estudado, tenho criado, amado e acreditado
Apenas para desejar que tudo se dissolva no que existe de mais sublime na Criação, a capacidade de sublimar e perder a forma para se unir ao ar, preencher o vazio com a própria ausência de forma e encontrar a resposta na falta de resposta.

Presunçosamente eu entalhei meu rosto em uma máscara, coloquei por cima de minha face e entalhei de novo e por cima disso esculpi minha marca.
Prendi o ar, tossi forte e quis fumar outro cigarro, mas quando vi a máscara já não mais saía, estava pegada à outra máscara que estava pegada à outra máscara que talvez seja meu rosto
Com esperança nada mais cairá pelo caminho
Eu envelheci em espírito, me embebedei em ignorância, me vesti nas armaduras invisíveis de minha pele
E quando vi estava aqui, no mesmo lugar, formando versos sobre os limites que o muro impõe

(Pausa aqui para a retratação devida, pois o tempo passa, mas a irmandade com as coisas sem irmandade permanece. Não há inutilidade em nada que seja passado, o errado é manter as qualidades encobertas pelas peles da vaidade, lidar com a rejeição dos outros é ruim, mas quando seu próprio corpo te rejeita as possibilidades são mais dolorosas)

Talvez contrate alguém para reformar o muro
Talvez contrate alguém para consertar a máscara
Talvez eu mesmo seja o alguém que irá fazer as tarefas que são sempre delegadas, porque assim a metafísica fica do lado de fora e quem sabe quando a noite deitar na terra, seja outro aflito que escreva versos como este, apenas para morrer na indiferença do primeiro sol.
Mas de que serve? Pois o muro cairá, assim como as máscaras caíram, assim como a rua perde a forma, assim como a casa se enche de mofo e umidade de quem há muito morreu aqui dentro.
As luzes aqui dentro se apagaram há muito tempo, mas as pessoas ainda transitam, cegamente procurando portas e escadas e salas de jantares
Eu só quero gritar que não há toalhas de mesa e panos de prato o suficiente para cobrir o vazio ridículo dessa cena e derrubar a cozinha para que ali surja algo a mais
A resposta talvez seja outra cozinha e outro jantar e outros talheres e outras bocas, famintas, assim como as primeiras, caladas, assim como as primeiras, me olhando fundo nos olhos sem enxergar nada do que eu posso expressar

Sinestesia morta dos meus versos inúteis.

De qualquer forma os passarinhos vão cantar, assim como eles devem fazer até o fim de suas curtas vidas
Eu devo escrever, porque é essa a contribuição que deixo ao mundo da metafísica indisposta dos carros com filtros em seus canos de descarga e das janelas que silenciam os gritos de agonia por todas as noites,
E vou apertar em qualquer que seja o peito hipotético que criei a monstruosidade humana dos sentimentos que venho alimentando, porque é isso que eu sou, é isso que eu posso ser.
Quando tudo acabar eu só espero que ainda hajam cigarros

Enquanto o Destino conceder, continuarei fumando
E sendo prepotente por julgar que entendo a dor dos que sentiram dor muito antes da minha vida
Desse desperdício de teclas e espaço em branco em frente a tela que brilha sozinha na casa apagada das pessoas que se apagaram e que trabalham para apagar outras pessoas no mundo burocrático das luzes elétricas nas avenidas que fazem as pessoas enxergar a escuridão que estão criando.

E quando eu repousar minha cabeça nos travesseiros duros, talvez crie a resistência que minha alma precisa
Talvez eu seja melhor quando o lençol for confortável, talvez eu seja melhor se não estiver tanto calor
E quando eu acordar amanhã eu abro a janela e agradeço ao muro por estar ali, dou bom dia ao pintor que veio remendar os descascados, renovo-me pela terapia de enxugar as lágrimas com coisas insólitas
Me apaixone mais uma ou duas vezes por pessoas que são mais felizes que eu e poderiam me proporcionar a vida mediocremente feliz e completa que tenho desejado
Desde que entendi que o medíocre é sublime.

Mas a luz dos postes das avenidas se apagaram, as pessoas se perderam, a metafísica atuou
E aqui eu permaneço sozinho com os fantasmas das pessoas que amo sem nem ter conhecido
Compreendendo perfeitamente a necessidade de uma tabacaria defronte a janela, para que os cigarros fiquem cada vez mais acessíveis.
Levarei mais chocolates em meus bolsos daqui em diante, para dopar a sensação de estar preso em uma conspiração milenar, onde os que sofrem são escolhidos a dedo

(Filtros vermelhos e olhos vermelhos
Cansaço das coisas cansadas que andam nas calçadas
Conheço tanta gente feliz e ignóbil e por isso ridiculamente completa
Talvez se eu entregasse as teclas ao próximo aflito a própria aflição me devolvesse a essência das coisas que se perderam)

Não, dessa vez eu só quero dormir

Nota #3

Só não entenda meu lamento com agonia
Só não me julgue como um fraco ou perdedor
Já não há graça em continuar a ironia
E nem chamar o desengano de amor

Eu mantive a sanidade por uns anos
Talvez agarre algum resquício de um chão
Sobre a intenção por trás de todos os planos
Levo comigo, vocês nunca saberão

Há no fim uma certa serenidade
E algum cheiro doce amargo de nós dois
Pra confundir o instante frágil e derradeiro
Revendo o tempo enxerguei tanta maldade
Só peço não ter que me repetir depois
Que do meu corpo reste apenas um canteiro