Eterno arquivo do que já não interessa
Vazio Infinito

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 4

Quarto Capítulo - A Insônia do Covarde

O covarde achou as chaves. Seu irmão já estava vindo e ele não fazia idéia do que fazer... Devia abrir a porta e esperar do lado de fora? Não, ainda havia o sol e logo após dele viria a lua. Ele não estava pronto pra sair. Ele foi até a sala e abriu a porta, depois voltou ao quarto e esperou.

A noite caiu e com ela veio o pânico. Para variar... Se dependesse dele iria encurtar a conversa o máximo possível, já passava da hora do sono definitivo do dia. Sentiu-se triste pelo seu irmão. Sabia que ele já não dormia há muito tempo, nem mesmo usando remédios. Se pudesse, e tivesse coragem, trocaria de lugar com ele.

A campainha tocou, o insone havia chegado. "Tá aberto, entra", o covarde gritou. O pânico como sempre o impediu de se levantar e ir receber o seu irmão da forma como devia, mas ele já havia se acostumado. Seu irmão foi até seu quarto e olhou ao redor, deve ter percebido aquelas cartas pra todas as pessoas que o covarde tinha machucado...pedidos de desculpas nunca entregues pelo medo."Levanta. Vamos conversar lá fora", o insone disse."Por que lá fora? Temos tudo que precisamos aqui", ele respondeu. "Lá fora, você precisa sair". A discussão se alongou, mas o covarde tinha medo de contestar seu irmão tão amado. Sairam.

Um silêncio aterrorizante se abateu sobre os dois. Ele teve medo de ter decepcionado o irmão com aquela fraqueza e por isso o mesmo não queria lhe falar nada."Como vai?" saiu da boca do insone. Bem. Bom, ele não iria dizer ao irmão que estava mal, tinha medo de que ele se preocupasse demais, mesmo estando magro demais, branco demais... fraco demais como sempre. Ele não tinha coragem de falar nada. Se arrependeu de ter ligado e feito o irmão se deslocar tanto até lá. Ficou calado.

O insone se levantou e foi embora em seu carro. O covarde só pode olhar atordoado toda aquela cena. Quis ser forte e ir atrás, mas tinha medo de incomodar seu irmão. Entrou em casa e se trancou novamente. Começou a chorar. Será que tinha deixado seu irmão decepcionado? É claro, quem não se decepcionaria com um irmão como ele? O insone sempre fora seu exemplo, seu herói, sempre fora alguém pra o proteger. Deitou na cama e se virou. Fechou os olhos. Mentalizou as palavras que o faziam dormir. Nada. Não conseguiu esquecer o irmão indo embora. Suou frio de medo. Pela primeira vez percebeu que teria de enfrentar o seu medo.

Sabia, essa noite seria longa...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 3

Terceiro Capítulo - A Covardia do Insone

O insone atendeu o telefone e escutou um montes de palavras gaguejadas. Seu irmão. Nossa, a quanto tempo não recebia uma ligação dele... "Tudo bem, estou indo aí te fazer uma visita breve", disse o insone e desligou. Fez o retorno, a casa de seu irmão era do outro lado da cidade. Mas onde era mesmo? Havia anos que eles não se encontravam um na casa do outro.

Já estava quase de noite. Ele deu graças a Deus por ter arranjado algum passatempo, por menor que fosse, para essa noite. Se dependesse dele, prolongaria essa conversa até amanhã de manhã, mas sabia que seu irmão não passava tanto tempo sem dormir. Como o invejava. Ele não conseguia dormir nem com remédios, enquanto seu irmão só precisava fechar os olhos e se virar para o lado.

Chegou e tocou a campainha. "Tá aberto, entra" seu irmão gritou lá de dentro. Havia se esquecido que ele tinha medo do sol, da lua, do céu, da rua... do mundo. Entrou. Foi até o quarto onde seu irmão costumava ficar e lá estava ele, naquele estado deplorável deitado na cama. A meia luz ele enxergou papéis amassados e jogados no chão e roupas espalhadas. "Levanta. Vamos conversar lá fora", disse ele. "Por que lá fora? temos tudo que precisamos aqui", respondeu o irmão. "Lá fora, você precisa sair". O irmão finalmente cedeu, após muita discussão. Sairam.

Ele sabia o que devia falar ao irmão, mas tudo o que saiu foi um "como vai?". O irmão estava bem, aliás, julgava estar bem, mas o insone olhou pra ele e não concluiu o mesmo. Magro como sempre...branco demais como sempre...Covarde demais como sempre. Ele devia dizer isso, mas não conseguiu, não sabia se era certo. Quis falar que sentia saudades, mas não conseguiu. Não conseguiu conversar com o irmão. Não conseguiu nada, só se arrepender de ter ido até lá.

Levantou, entrou no carro e foi embora. Chegou em casa e começou a chorar. Sabia que devia ter falado tudo aquilo a ele, mas tinha medo de machuca-lo. O insone sempre fora o exemplo do covarde, e ele não podia magoar o irmão. Teve medo de fazer o certo. Teve medo de errar. Teve medo de falar. Medo de pensar. Medo de estar alí. Medo. Medo. Medo!

Ele sabia, essa noite seria longa...

Silenciosamente

O silêncio é fogo

Consumindo em sua obscuridade

Transformando suas abssais em canto


O silêncio é vento

Sussurrando melodias

Que vagam nuas na solidão

Onde tudo é nada

Onde o eterno escorre por entre os dedos


O silêncio são águas turvas

Que segue seu meandro

Saudando o outono das folhas que caem

E nunca mais veremos

No desabrochar das estações.


Dentro de mim eu me calo.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 2

Segundo Capítulo - A Covardia do Covarde

Ele afastou um pouco as cortinas e deu uma olhada na vida lá fora. A luz do dia iluminou um pouco aquele quarto que a muito estava completamente escuro. A quase quatro meses ele estava trancado alí. O covarde voltou pra cama, a vida não era pra ele. Adormeceu novamente.

Acordou poucas horas depois completamente suado, tivera um pesadelo. No sonho ele abria a porta do quarto, saia pra vida lá fora e então o sol queimava sua cara. Aterrorizante, mas não o suficiente pra lhe tirar a vontade de permanecer dormindo, pois sono ele não tinha havia tempo. Virou pro lado e fechou os olhos, mentalizou palavras que o fizessem dormir. "Sono". "Sonhos". "Dormir". Seu cérebro cedeu depois de alguns minutos.

O telefone tocou e o acordou novamente. "Que inferno". Desligou, não tinha nada pra conversar com ninguém. Aliás, tinha, mas lhe faltava a coragem de olhar fundo nos olhos de alguém e dizer o que devia ser dito. Não se considerava covarde, apenas não via o porque de causar intrigas, então ficava calado. No mais, ele sempre estava errado mesmo... era o que o irmão vivia lhe dizendo.

Além da covardia havia também aquele descaso, aquela arrogância. Ele não se julgava capaz de ligar com complicações, mas também não queria lidar com algo que estivesse abaixo de sua capacidade. Adorava desafios, mas só desafios que ele sabia a resposta. Também nunca teve foco. Nunca soube ao certo o que fazer, nem sabia o que queria pra ser sincero, e sempre que tentava começar algo lembrava que não tinha capacidade. Ah, como era fraco.

Adormeceu, não tinha coragem o suficiente pra autocrítica rotineira. Não tinha coragem de enxergar os próprios defeitos. Sempre se sentiu o injustiçado, ninguém nunca conseguia ver sua qualidades. Não conseguia entender que ninguém via o que ele tinha de bom porque ele não tinha coragem de se expor. Algumas vezes se expusera, com entrelinhas... e metáforas... e palavras pela metade, mas tinha se exposto, e depois de algumas verdades pela metade, que obviamente ninguém entendia, ele dizia já ter se mostrado demais e mudava de assunto. Tinha fama de misterioso, mas nunca teve um segredo.

Era covarde desde muito jovem. Lembrava-se de quando ainda lidava com o medo...de quando era só medo. Afinal, o medo é bom, nos move, nos incentiva e nos faz lutar pra sobreviver. Ele agora tinha que lidar com o pânico. O pânico era o contrário do medo, só nos faz ficar parados, sem saber como agir ou reagir e assim vamos aos poucos nos apagando na angústia.

Acordou, pegou o telefone, discou os números. "Alô" seu irmão atendeu... o que ele devia falar? O que? Gaguejou ao telefone, o irmão entendeu quem era e imaginou do que se tratava. "Tudo bem, estou indo aí te fazer uma visita breve".

Visitas?! A quanto tempo não abria a porta de casa... Foi procurar as chaves, talvez fosse um passo para mudar a vida. Abrir a porta, a boca, a mente e o coração. Quem sabe a coragem não entra por si só?

Estava errado, como sempre...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 1

Essa é uma série em 5 capítulos que contara a história dos irmãos Insone e Covarde.

Capítulo 1 - A Insônia do Insone

Passavam das 3:00 da madrugada. O insone estava sentado no sofá, pronto para o trabalho desde as 1:30, quando havia desistido de dormir, vendo cada volta dos ponteiros do seu relógio desde então. Mantinha os olhos pouco abertos. Se alguém o visse não teria certeza se ele estava acordado ou não.

Em sua cabeça nada funcionava direito. A sua única certeza é que tudo isso era a culpa daquela maldita insônia que já não o deixava dormir a quase quatro meses. Pensamentos desconexos voavam e colidiam em sua cabeça. Tudo parecia um filme muito ruim e sem previsão de término.

Por volta de 3:30 ele se levantou e foi até a cozinha, já era hora do sua primeira xícara de café, só pra garantir que o sono que não evoluía lhe atacasse mais tarde. Ligou a televisão, mas seu cérebro não conseguia acompanhar a programação.

Por volta de 4:30 surgiram os primeiros indícios de que um novo dia amanheceria. Essa era a hora em que o Insone repetia sua frase preferida: “Sempre há um novo dia, não importa o quão horrível tenha sido a noite anterior”. Essa era a ideologia que lhe dava força pra continuar, saber que mesmo que ele não conseguisse vencer de si mesmo durante a noite sempre havia o sol do dia para lhe dar força pra continuar a batalha.

Ele acendeu um cigarro e tomou mais uma xícara de café. O dia seria duro, muito trabalho a se fazer. Pensando nisso sentiu mais vontade de fumar... Tisc tisc, dê bastante corda a fumante e ele se enforca no seu próprio vício. Já havia escutado algumas vezes que a insônia era resultado dos vícios rotineiros. Café demais, cigarros demais. Os antigos vícios (que pra ele nunca foram vícios) ele havia largado, não podia conviver com a culpa da cocaína e nem com a dor dos ácidos, isso realmente lhe tirava o sono.

Os galos de algum lugar longínquo já estavam a realizar o seu trabalho, isso significava que ele podia começar o seu daqui a pouco tempo, algo em torno de três horas. Três horas? O que eram três horas pra alguém que só tem como companhia os fantasmas da solidão durante toda a noite e a madrugada? Três horas eram o fim da tortura, o momento de se libertar das correntes que Morfeu tenta prender em todos nós.

O insone vivia seu momento de alívio. Já estava quase na hora, podia até ver o sol surgindo devagar por trás da serra. Ah, como era bom o amanhecer. Tomou mais café, dessa vez por gosto, acendeu outro cigarro, entrou no carro. Agora começava o stress que ele tanto amava... O dia a dia.

O insone não era o mesmo durante o dia, ele era alguém forte.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

O Próximo Instante

O futuro bateu em minha porta
Me chamou pra um cigarro e uma cerveja
Cantamos juntos algumas palavras tortas
Mostrou que vai estar comigo, onde quer que eu esteja

O futuro hoje sentou a minha mesa
Compartilhou comigo vinho e canção
Algumas letras de morta beleza
Contou sobre o meu acabado coração

O futuro veio e se apaixonou pelo passado
Tiveram um filho chamado presente
Passeamos pelos sonhos despedaçados
Senti coisas que só um fraco sente

O futuro então morreu no segundo ato
Guardei seu corpo no alto da estante
O passado e seu filho guardei em retrato
Esperei o nascimento do próximo instante

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Meio Certo ou Errado (Ou Aquele Tempo) Versão Definitiva mas passível de mudanças

Eu que sempre quis o certo
Agora não sei mais como me enganar
Sempre me julguei esperto
Até demais pra nunca errar

Eu que nunca me arrependo
Sem medo de machucar
Sempre comecei sabendo
Aonde iria chegar

Eu que sempre estive certo
Naquele tempo tão voraz
Sempre estive tão perto
E deixei tudo ficar pra trás

E eu que sempre fui incerto
Sempre tentei me enganar
Nunca fui um cara esperto
Acostumado a só errar

E eu sempre me arrependo
Sei que vou me machucar
O passado vai me remoendo
E o futuro nunca vai chegar

Começando tudo errado
Não há nada a se mudar
Ponho a vida de lado
Volto sempre a caminhar

Anos Perdidos

Ele despertou após dois anos
Era o mesmo depois de tantos meses
Recordou devagar todos os velhos planos
Mas tentou adormecer mais algumas vezes

Depois de dois anos sentiu-se mal
Levantou e viu tudo diferente ao redor
Tudo o que era bom já não era igual
E o que era ruim ficara pior

Começou a pensar em adaptação
Tentou começar de onde, em sonho, parou
Tentava ser mestre da situação
Mas pensava "meu caro, o mundo girou"

Só lhe restava o conformismo
E alguma força pra recomeçar
E depois de um sonho tão comprido
Tentar construir seu novo lugar

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Sobre Estar

Estar.
Estar bem ou mal, indo ou vindo.
Eu estou e só.
Posso limitar minha vida ao simples significado de viver e... continuar vivo.

A vida desmorou sobre meus ombros de uma forma brutal, parece que aguardou 18 curtíssimos anos pra desabar de uma só vez. Todos os problemas acabaram se fundindo em um só monstro que me assombra diariamente. Tudo que podia acontecer para que as bases da minha existencia caíssem aconteceu. Mesmo as soluções paracem hoje serem parte de algum problema.

Não, não estou bem. Eu não me permito estar bem e tentam não me permitir estar mal.
Não estou indo também, minha vida se estagnou por atritos e nem vindo, pois não tenho rumo nenhum.
Me resumo a estar... apático
estar vivo
estar me arrastando sem sair do lugar.

Acabou o pior ano da história, mais ainda não começou o outro que tem tudo pra ser pior ainda.

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Leves confissões

O vento, meu bem, leva

Leva a saudade, o beijo, as flores

E traz algo de algum lugar

De algum olhar


O vento, meu bem, também diz

Desejos, lembranças e canções

Saboreia o toque nos cabelos


O vento, meu bem, proclama

As tímidas vozes de longe

Além do tracejar do horizonte

Que não separa o sonho do ato


O vento, meu bem, toma a gente nos braços

Leva-nos além dos nossos passos

O vento também se apaixona.

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Carta pra Lua

See, hear the torture inside
Devouring what was left of my pride
You thought it's not going to happen to you
Thought you could hide.


Preciso lhe falar sobre os meses longes de ti
Lhe contar sobre a falta que faz seu corpo aqui
Me vejo sempre seguindo pistas que não me levam
A lugar algum
E sei que assim, sou homem nenhum
Saiba também sobre o frio que me causa a distância
Até mesmo meus cigarros
Pela metade se apagam...
Não tenho calor para mante-los acesos

Saiba do vazio. Perdi minha alma...
Ela me deixou pelo tédio da solidão

Entenda querida,
O tempo não corre na vida, apenas no relógio
O tempo continua parado, esperando inquieto
Pelo momento em que você
Passará por aquela porta

Nem mesmo precisas ler essa carta
Essa é só uma das íntimas tentativas.
Ao saíres no céu verás os meus versos estampados
Nas nuvens que por ventura lhe cobrirão
Encenados no céu da noite por mil estrelas

Não poderás escapar dos meus apelos
Da mesma forma que não escapo do seu domínio,
Sua luz.

Venha, me deixe viver novamente
Ou vá e me deixe morrer em paz, finalmente

Trecho em itálico retirado da música "Quietus" da banda Epica

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Vivos Após a Morte

"We Keep On Living After We Die"

Sabe o que é meu amigo
O alcool não mais satisfaz
Prazer meu cigarro não traz
Mas ainda estou contigo

Os vicios que nunca foram poucos
Acabaram por nos deixar loucos
As mentiras que tanto gostamos
Acabaram nos entrelaçando

Mas a razão de tudo isso é dizer
Que no bar não reside o prazer
Que é estar contigo em certos momentos
Nossa amizade não resume
E é engraçado como a vida une
Dois péssimos elementos

Trecho em Itálico da música "Risin' Day" de autoria da Díade

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2010

Meio Quadro, Meio Espelho

Meio quadro e meio espelho
Quadro pintado em vermelho
Não me vejo neste espelho
São duas partes de um só fato

Meio quadro e mais espelho
Quadro feito por inteiro
E só se enxerga no espelho
Algumas partes desse trato

Meio quadro em que me enquadro
E meio espelho em um retrato
Pois pintado neste quadro
Vejo estampado um fato
Feito inteiro em vermelho
Eu me enquadro neste espelho

sábado, 13 de fevereiro de 2010

In Aqua Scribere (Definitivo, mas passível de mudanças)

É necessário a descrença para que haja fé
E o descumprimento para que o juramento valha.
Mesmo que as palavras sumam ou nem sempre saiam
Saiba que o pensamento não falha.

Se julgares o meu pensamento
Saiba que não mudara os fatos
E saiba que o que guia meus momentos
São os meus próprios atos

Como num teatro que é um dia
Conto futuros dos presentes
Encenado em pura magia
Só por magos decadentes

E a história assim prossegue
Mas esse é meu terceiro ato
E aqui não deixo que negue
Só sorria pro retrato

Oração da Madrugada

O tempo corre e eu permaneço sentado
E ao meu lado a vida passou
Pois se sentado permaneço abismado
Parado resolvo os fatos

Se o tempo me falta nos versos que
Assim escrevo
O tempo me sobra nos versos
Em que me descrevo

Se a vida me falha em horas
De minutos lentos
A vida se faz presente
Em cada um dos momentos

E se me falta o senso
Nos meros segundos passados
Quem lhe fala
Fala em contos inacabados
E se me falta a filosofia
Saiba que
Vivo em cada dia
E vivo não serviria


Se presto ou não
Quem sabe o tempo
Me de razão
Quem sabe não

Se lhe digo isso agora
Não pense duas vezes
Me jogue fora
Vivo não sirvo
A não ser pro propósito
Pelo qual sobrevivo

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

Sem Cor

"Era uma vez um jovem..."
Ele escreveu, como já havia escrito milhões de vezes a mesma frase no papel. A Cera de mil velas caiam sobre suas palavras, nem se lembrava a quanto tempo estava alí, sentado naquela posição tentando escrever.

Ele não tentava meramente, sempre conseguia. Era sempre elogiado pelos seus versos, mas ele mesmo nunca gostava. Pois faltava o amor em cada palavra. Faltava aquela dose descontrolada de sentimento.

Mas ele escrevia. Escrevia por hobbie, gostava das rimas e das histórias de sua vida contadas em um aspecto poético. Nem sempre precisava de inspiração, só de algo pra falar. Costumava dizer, dê-me um tema que eu lhe devolvo um soneto, e sempre fora assim.

Até que em um belo dia cinza ele notou a falta de cor. Não havia cor nas suas palavras. Ele mesmo nunca gostara das cores, sempre fora um adepto do branco, preto e do cinza. Praticidade era seu segundo nome. Mas a falta de cores lhe tocou. Como um poesia pode ser cabível em preto e branco? Ficam aquelas rimas de sempre... amor sempre rimando com dor e magia com alegria. Mas faltava a cor, o sentimento, a inspiração...

Mas isso não era pra ele, ele só queria industrializar a sua arte pra banalizar o seu sofrimento.

quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Suspiro

Cale-se

Deixe o silêncio reinar por um instante

Eu preciso respirar em paz

Enquanto você continua

Agitando a ampulheta da discórdia


Apenas um segundo

Para que minha alma possa ir

A procura de um repouso seguro

Para os meus olhos em dilúvio


Inspiro, transpiro

Perdendo-me no tempo.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Cinza

"Love is the funeral of hearts, and an ode for cruelty"

Eu uso como ode a crueldade
Transformo em conto minha maldade
Escrevo mil versos sobre a insanidade
Faço das palavras a minha tempestade

No contraste da alegria e do sofrimento
Me encaixo perfeitamente nesse tormento
Converto o silêncio em bom momento
Faço disso tudo o meu firmamento

Viajo entre as palavras e versos
Entre mundos e universos
Me mato três vezes em um só dia
E vivo assim mesmo nessa agonia

Me tranco nas lembraças passadas
Me torturo com palavras mal faladas
Me acabo em poesia mal escrita
Faço do cinza a minha própria vida

Trecho em itálico retirado da música "The Funeral Of Hearts" do HIM

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

A Angústia

A Angústia
A decepção
A tristeza
Minha desolação

A Angústia
A minha frieza
Me tortura
A minha tristeza

A Angústia
A Desolação
A Amargura
Corta meu coração

A Angústia
Corta o coração
Minha tristeza
É só decepção

Una Valsa, Sempre Ela

Ela se levantou
Disparou olhares de pena
Então valsou
Aquela valsa serena

Faltava lhe um par
Um principe do mundo só dela
Mas naquele imundo bar
Ela era a única alma bela

Mas ainda assim dançava
Sua a dança era a única luz
Já não sonhava
Cantava a música que compus
E assim valsava
Carregando a sua própria cruz

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Caiu...

Caiu...

Caiu enfim na angústia de se trancar e esperar por qualquer resposta de qualquer lado
Caiu na tentação de pegar o telefone e digitar qualquer número para ver se alguém o atendia
Caiu na realidade, sem paraquedas, o tombo foi tão grande que nem ao menos conseguiu se manter acordado, e viver parte da vida tomado pelo sonho de que tudo corria bem, se é que algo correu...
Mas acabou por cair da cama também, e acordou, já no fim.
Mas que fim? Ele mal havia começado a viver e já tinha milhões de problemas pra resolver!
Pensou em sair, mas não sabia onde estava e muito menos pra onde ir. Se trancou então na sua fortaleza que há muito parecia mais o inferno do que o céu, mas ele queria imaginar e criar sua própria realidade.

Caiu ao chão para chorar, o corpo alí parado, soluçando... esse era o primeiro sentimento real de sua vida, a dor, a angústia, o arrependimento de não ter se dado conta de que tudo era um sonho...
Tudo em sua vida havia sido tão fácil, ele nunca imaginara que teria de lutar pra conseguir algum espaço pra respirar.

Mal sabia que o infinito dos sentimentos o esperava. Sempre havia pensado que o infinito não era pra ele, porque era pra sempre e ele não (nem nada que partisse dele)

Mal sabia que a eternidade dos 18 anos que vivera não eram nada...tudo era mentira inclusive as suas mentiras eram mentiras... e as palavras que julgara mentiras, bem, elas não passavam de mentiras também. Seu mundo era mentira, mas ele não, ele era verdade.

Aquele mundo não lhe pertencia

Solidão

Lá está ele a chorar

Sem se quer saber até quando

Sem nem saber por qual esquina

Seu pranto está a rolar


Acúmulos.

E triste, não sabe de onde

Inúmeros reflexos o fazem transbordar


Lágrimas se infiltram

Fertilizam algum coração


Podemos até ver

Através das janelas embaçadas

Alguns olhares curiosos

A interpretar seu infinito pranto.


Mas apenas o sol entende

Que é sua ausência que faz o céu chorar.

"Morena, sobre Estar Só"


É só...

Pois ando só
E acho que só assim
É possivel enfim
Dizer que só
Quero você e só!

Mas não só
De corpo só
Amor e só
Não só
Quero Tudo Assim
E quem sabe enfim
Deixar de ser tão só...


Trecho em itálico da música "Dois Barcos" dos Los Hermanos

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Desalento

Escrevo-te essas linhas afim de que meus pensamentos consigam encharcar a folha e encontrar nesta um repouso seguro para florescer. Assim o faço para que eles não se percam nesse dilúvio de sentimentos, pois são o que não quero esquecer. As palavras me saem doces mesmo que tristes ao mergulhar no mundo que criei para o que sou. Lugar onde posso renascer sempre que me vejo debruçado sobre minha vida. Onde eu posso cair no abismo que sou e até dar ouvidos aos meus gritos lunáticos que imploram por um olhar atento ou algum gesto maciamente terno. Tropeço em sorrisos plenos que desmentem tudo o que não sou, o que insisto em ser. Minto para você, para mim, para meus olhos. Sinto-me mais velho, cansado, como se a cada vez que me deslumbrasse, meu rosto envelhecesse. Talvez você nem me reconheceria. Talvez buscasse algum vestígio do que fui. Vasculharia. Temeria por quem haveria me tornado. Entretanto, lhe peço que olhes bem nos meus olhos e encontre neles a direção do meu mundo. Aquele que criei. Mundo que posso dançar com minhas palavras. Não, não são aquelas pérfidas e destoantes de um condenado. Condenado a sobreviver. Por isso o criei, para que minha imagem não seja ludibriada, nem tenha aquela aparência macilenta. Mas enfim, lhe convido a conhecer meu mundo, onde meus pensamentos já se aninharam. Apresento-lhe meu espelho.

Xeque- Mate

Minha vida é um constante xeque-mate
Porém de lados inconstantes
Pois mesmo que muitas vezes seja meu o ataque
Percebo logo que defesas são importantes

Raríssimos são os empates
Com razão mais emocionantes
Terminam em debates
Que se tornam bem desgastantes

Xeque-Mate.

O Antiquário de Sentimentos

E lá estava a velha gaveta, trancada a chave alguma, sempre escancarada pra quem quisesse examina-la. Sepultados alí haviam lembranças antigas, sentimentos antiquados, medos daquela bela época que ele esquecia o nome, algo parecido com infância. Mas restava ainda um receio maior, quais seriam os fantasmas do passado que surgiriam se aquela gaveta se abrisse? Não, ele não haveria de faze-lo. Sempre se sentira bem com as preocupações do presente, não gastava seu tempo com lembranças; Se acostumara com as novas razões da moda, sentimentos eram para os poetas e para filosofias vãs, ele não era disso; Sabia agora se esconder das aflições, dos sustos do dia-a-dia.

Não lhe restava tempo pra gavetas empoeiradas...velhos documentos de tempos e vidas longinquas. Vivia o hoje e desprava o ontem, mantinha a cabeça no amanhã. Não vivia nenhum dos três e todos sabiam dessa amarga verdade, inclusive ele, mas não se vive só de conforto e ele devia ir a luta. Viver? Ele mantinha sua cabeça no trabalho. Finais de semana, claro, a solução, pois ele tinha sábados e domingos pra organizar as papeladas de segunda.

Acordou um dia no meio da madrugada, péssimos sonhos, levantou-se e abriu o notebook, olhou as horas, ainda restava tempo antes do trabalho. Parou. Tempo antes do trabalho? Sua cabeça girou. O que era isso? O que ele iria fazer nas muitas horas que se alongavam antes da hora de sair de casa?

Olhou para a escrivaninha no canto do quarto, a terceira gaveta de cima pra baixo, sussurrou seu nome. Foi até lá, fez força para abrir a gaveta que há muito não era aberta. Olhou aqueles lixos amontoados. Amores que ele julgara eternos, ideais que ele jurara carregar por toda a vida e é claro, aquele velho desejo juvenil de ser alguém bom, importante. Ahhh, como ele havia amado aqueles anos horrorosos de sua adolescência, como queria vive-los novamente.

Horas se passaram e um despertador tocou. Sua cabeça voltou ao normal e ele se flagrou venerando um homem que morrera aos 18 anos, ele mesmo, e chorou. Mas sabia o que fazer e era o que devia ter feito a muito tempo. Leu o nome daquele velho amor dos seus 15 anos, procurou em sua agenda um telefone, algo que os ligasse novamente. Conseguiu um e-mail. Voltou ao notebook, escreveu tudo o que sempre quis ter dito àquela mulher que ele não conhecera, talvez tivesse conhecido a menina que se tornaria o que é hoje. Enviou o e-mail. Voltou ao canto do quarto e pegou aquela gaveta inteira, todos os documentos das vidas passadas, as provas da existência de um traidor que ainda estava acorrentado naquele corpo batido. Sabia o que fazer. Queimou todos os vestigios.

Foi embora, para esquecer o passado e criar um novo futuro, o futuro de alguém que não era só ele,
Eramos nós.

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

Devaneios

Cálida noite que me desalenta nesta profunda insônia

Deixando em meus olhos as marcas de sua represália

Não, não me arranques lágrimas que acusam minha culpa

Minha presença já é uma denúncia.


A vida que ainda vaga o seu corpo

Se esgarceia em busca do calor que emana da minha boca


Busque no amor que transbordava

Um alimento para sua alma desesperançosa

Pois minha estrada ainda está em curvas.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Esquinas

Um gole.

Cigarros, isqueiro,

Copos sujos e vinho barato


Um gole.

Gritos egoístas querendo engolir o mundo

A fim de preencher o ego


Um gole.

Olhos que vêem

O nada, o erro


Um gole.

Mãos trêmulas

Em busca de um novo vício

Uma ocupação para a cabeça vazia


Um gole.

Afogado em pensamentos ilícitos

Um surto de realidade

Entardecer de ilusões


Um gole.

Rodeado por hipocrisia

Por um mundo que cala e grita

Ensurdece e vira música

Fere e acaricia


Um gole.

Perguntas sem respostas

Respostas sem pensamentos sensatos

Perguntas que agridem

Que abrem os olhos

E ninguém quer abri-los


Ultimo gole.

E o mundo termina num copo vazio


O Vazio Me Preenche

E se tornou espaço...
Costumava ser um homem feito de desejos e ambições
De paixões...
Mas a história se resumia a isso.

Acordou um dia sentindo-se estranhamente leve. Associou a boa noite de sono, ah há quanto tempo não dormia assim. Levantou e foi à cozinha. A casa estranhamente clara, mas ele sempre fechava as janelas e as cortinas, não gostava do mundo lá fora. A luz do sol batia em seu rosto de uma forma estranha, mas ainda assim sentou-se a mesa do café para ler o seu jornal. Bebeu um chá, comeu dois pães, levantou, tomou um banho, escovou os dentes, se vestiu, saiu de casa, acendeu o cigarro, pegou o ônibus e... e... e...? Onde estava aquele ânimo de chegar ao trabalho de almejar por aquela vaga na diretoria? E aquele desejo antigo do sucesso? Não, isso não existia mais nele...
Levantou-se, deu sinal, desceu do ônibus, acendeu o cigarro, ah o cigarro, parou em um bar, pediu o de sempre, duplo sem gelo e ponha na conta que depois a gente se acerta, tudo bem Ernesto? Pensou, pensou, pensou, pensou, pensou e não pensou mais, e... e... e...
E aquela ideologia jovem? Eu ainda sou quem eu era ontem, pensou, meu cabelo está igual, meus olhos continuam vivos, se enganava.
Levantou, pegou o ônibus, desceu em casa, pegou o lápis, o papel, a borracha e escreveu... Escreveu vários começos de frases, palavras sem propósito, sentiu o que temia... e temeu mais, pois agora sentia o que não queria e sabia como era ruim. O vazio assustador, a incerteza do futuro e o remorso do passado. Mas não, ele era um homem e devia ficar firme, pois nem só de desejos vivia! Se deitou e não acordou... Seu corpo era só um corpo, havia apenas se tornado espaço livre no mundo.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Merlin e a Vaidade

A Vaidade

A morte a Merlin alcançou
E de Hades ele não escapou
Eis que no plano da vaidade
De uma tarde ele se lembrou

"Diaboli Virtus In Lumbar Est"

Ah, a vaidade, é definitivamente meu pecado preferido


“Eu lhe dei homens e mulheres Merlin, e como você os usou?
Como amigos? Companheiros? Ou meros espelhos?
É... Narciso sempre achou feio o que não é espelho, não é?
E você nunca foi diferente, como todo o seu egocentrismo, toda a sua arrogância
As falsas virtudes criadas apenas por conveniência
Todas as promessas feitas apenas por convivência.
Você achou que iria escapar do julgamento?
Saiba que qualquer movimento
Antecipará o momento
Que o seu sofrimento irá começar”
Disse Hades.
“E tenho mais a falar
Você achou que estava próximo por bem?
Saiba também que nem mesmo a você conseguistes enganar
Você achou que cuidava dos outros?
E aos poucos eles, loucos, se voltaram contra você
Faça me rir
Eu sempre lhe fiz sorrir
Saiba que nem ao pobre que lhe fala você conseguiu enganar
Nem o deus do submundo conseguiu ludibriar”


Merlin abriu os olhos e a luz o cegou
Nenhuma silhueta o bardo enxergou
Nada de vozes, o silêncio reinava
E uma dor na cabeça o atormentava
Eis que a voz reapareceu
E todo o seu mundo tremeu

“Hades é como me chamarás
E pra sempre me respeitarás
Sou o seu ego dominante
E sua consciência delirante
Sou o julgamento que o condena
Sou a tristeza nada amena
A sua alegria limitada
E a sua vida condenada
Sou a sua bela vaidade
Que lhe leva a crueldade
Sou aquela velha maldade
Que lhe leva a insanidade
Sou aquela tenra idade
Que lhe leva a infidelidade”

E surgiu o espelho claro
Que só lhe refletia o raro
A podridão interna
A podridão eterna
O rosto distorcido do retrato

“Eu sou o ego bem inflado
Que lhe torna amaldiçoado
Sou todo feito de qualidades
Todas baseadas em perversidades
Escrúpulos, claro, faltam
E respeitos mútuos matam
Eu sou tudo que lhe há de bom”

Merlin se viu no inferno
Preso no castigo eterno
Acumulando no interno
Tudo que lhe era ruim
Mas a vaidade o saciava
O orgulho o alimentava
O ego o controlava
E esse ciclo era sem fim


Trecho em itálico retirado do filme "Advogado Do Diabo"