Histórias passadas de coisas não tão passadas assim

sábado, 24 de dezembro de 2011

Piada de Final de Ano

Tudo acaba uma hora ou outra. Os dias acabam, as horas passam, os anos mudam. Até a gente vai acabar. Tudo o que nós fizemos vai desaparecer aos poucos. Tudo o nós já fomos, tudo o que somos e o que seremos... isso é nada. A vida é instantânea. Tudo passa e se desfaz. Problemas se resolvem, tempestades cessam, até estrelas explodem. A música tem sua nota final, a poesia passa e a nostalgia fica, mas logo logo vai embora. As nossas idéias somem. Nossas certezas mudam, mas eu sei que no final de tudo isso, eu ainda vou me perguntar por quê.

Ainda não consegui achar um motivo pelo qual eu realmente deva mudar. Não há porque criar algo que vá ser destruído. Não há porque lutar por uma vida com prazo de validade. Não há porque me esforçar por vivências mundanas e efêmeras. Ainda me pergunto qual é a grande piada por detrás da existência. Será que é engraçada, ao menos? Será que eu pelo menos vou rir no final dessa peleja cósmica entre a razão e o que é convencionalmente incompreensível? Tudo isso tem que valer a pena, pois nas condições atuais, nem se tudo fosse diferente, valeria qualquer coisa.

sábado, 3 de dezembro de 2011

Exaustão

Quem eu estou tentando enganar?
Eu, você ou todo mundo?
Com essa certeza vulgar
Esse desejo imundo

Por mais que eu queira mais que tudo
Seguir firme do teu lado
Não posso ser cego, surdo e mudo
Quando eu sei que estou errado

Como posso acreditar
Em qualquer um de seus sinais?
Como não me preparar
Se os finais são sempre iguais?

Como apagar o passado
Quando eu sei do que és capaz?
Como posso deixar de lado
O mal que isso ainda me faz?

Hoje, emocionalmente exausto
Em quais braços me protejo?
Sigo esse destino infausto
Olho pro futuro e não te vejo...

terça-feira, 22 de novembro de 2011

Você

Pra você, que só "me" escreve pra si mesma

Eu li suas cartas, da mesma forma que leio todas as palavras que escreve por puro despejo de sentimentos, pois se nenhuma delas tem destinatário, creio que use o papel apenas como espelho, ou pior, descarga. Eu ainda acompanho sua vida. De certo por algumas preocupações que persistem de meses atrás. Prefiro só observar, afinal já aprendi que quanto mais eu me envolvo, mais responsabilidades caem sobre minhas costas e eu já não posso mais carregar nada, nem ninguém.

Enfim, eu lhe escrevo em resposta, apenas por pensar que tudo que me é "destinado" merece ser respondido, mesmo o que não tem objetivo claro.

Sim... Talvez eu te conheça muito bem, mesmo com o pouco que tive a oportunidade de procurar saber. Essa sua tendência involuntária de destruir as coisas não me é estranha, e por mais que seja algo que me agrada, com você os limites sempre são excedidos. Eu me lembro do dia em que nos conhecemos, quando pensei ter notado uma espontaneidade rara nas outras mulheres que eu conhecia. Essa impressão foi o suficiente pra decisão que eu tomaria em pouco menos de 5 dias. Tudo me encantou um pouco, até a sensação de estar lidando com um desastre ambulante, mas aconteceu que o desastre real vieram a ser os planos que eu tinha feito pra mim e te incluído, talvez porque sentisse que você não sairia da minha vida tão fácil, talvez por pura ilusão precoce. Mas esses fatos já são comuns pra todo mundo, não há porque repeti-los.

Você já se calou, como eu pedi pra que fizesse, mas não espere de mim, esse poço de incertezas, uma certeza de que estou fazendo a coisa a certa. Ainda não sei dizer se estou satisfeito com os resultados que estou tendo. Admito o meu alívio, mas não escondo a sua ausência. Sei o que eu queria, e ainda quero, e de fato consegui me ver longe dos problemas que você me causava, de tudo de ruim que você andava despertando em mim. Mas e as coisas boas? Não ache que eu espero que seu silêncio dure pra sempre, mas você sabe como eu sou, não tomo iniciativas quando as coisas ainda são imprevisíveis, logo, não espere de mim um "oi, tudo bem?", mas sinta-se livra pra querer saber como vão as coisas com meu pai, que ainda pergunta quando vamos aparecer na casa dele, ou com minha mãe, que ainda espera em segredo, apenas por medo de me pressionar, que você apareça na próxima festa de família. Só não espere que nada se repita, não espere que o calendário volte aquele Setembro já tão distante.

Espero que realmente não acredite que nada disso convém a mim, pois o seu conformismo diante de todas as situações é que me mostra conveniência. Esses seus lamentos é que não convém, nem a mim e nem a ninguém. Minhas escolhas são tão certas quanto as suas, e não deixe que uma só pessoa decida o futuro de duas. Você não pode mudar o que eu já fiz, mas pode mudar o que motivou a minha atitude.

Mas, no fim, eu sei que você vai permanecer parada... talvez seja isso que eu queira, tirar de mim qualquer traço de culpa por ter sido muito drástico dando ao 'Nós' mais uma chance de ser diferente, esquecendo das outras chances que já jogamos fora. Não espero mais nada de mim por você, nem sei se quero mais nada de você pra mim, mas quero estar errado e sei que tudo tem solução.

Eu entendo esse seu gesto solidário, mas não o aprovo. Todavia, aprovo minha fuga, mas não a entendo. Portanto, não vejo nada de promissor em nada do que está sendo feito. Mas, como já disse, não espero mais nada desse eu e você doentio, e deixo esses nós na sua mão, para que faça o que quiser com eles. Esses 'nós', que nada tem de parecido com os nós de seus fios loiros, que são como as lembranças boas de um tempo que tivemos juntos, que você, com o seu ar desastrado, cortou e jogou fora, guardando o pouco que restou só pra você.

quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Minha Culpa

"Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador..."

Florbela Espanca

domingo, 13 de novembro de 2011

Obsessão

Significado de Obsessão:
s.f. Ação de obsedar, de importunar.
Sentimento, idéia, conduta que se impõe a uma pessoa atingida por uma neurose obsessiva.
Fig. Idéia fixa, preocupação constante

Acordar é muito difícil quando a gente para de sonhar. Eu já tentei de tudo, de remédios a drogas, de planos a provas, mas nada parece preencher um espaço que se criou aqui dentro, nada pode ser se eu não permitir que seja. E assim, eu fico aqui... revirando de um lado para o outro, procurando uma escuridão que me pareça mais confortável do que essa que eu me encontro, essa escuridão que é mais do que não se encontrar, é mais do que não ter direção... é simplesmente não sentir mais o que era o sentido de todas as coisas, que achei que vivia, que achei que sentia.

Eu já reli cada um dos meus sentimentos e corrigi todos os erros de concordância. Eu já refiz todos os versos. Já usei todas as rimas que eu conhecia e você merecia, e ainda assim, não consegues compreender que eu me repito porque você se repete. Eu assumi minhas doenças, mas não curei meus vícios. Já reafirmei os vícios, mas não encontrei respostas.

Eu já sei tudo o que eu podia saber sobre nós dois, mas não sei absolutamente nada sobre você.

E aqui continuo... Colecionando as minhas decepções e as suas frustrações, só pra mais tarde, pegar papel e caneta e escrever alguma tragédia em que o Pierrot apaixonado sofre por uma Colombina que nunca se importou com o amor que o pobre coitado lhe deu. Esse sou eu, o idiota que escreve sobre si mesmo, mas nunca conseguiu decidir se seria o Pierrot ou a Colombina e nunca teve a sorte de acabar por Arlequim. Que minhas palavras alimentem uma fogueira, pra finalmente terem serventia.

Pois bem, dessa vez eu vou tentar ser diferente. Assumo não estar escrevendo mais para você. Não espero mais por um impacto que nunca aconteceu, não são as minhas poesias que te chocam, meu amor, não são meus pensamentos que te inspiram. Dessa vez, quero que cada linha aqui seja um traço do meu rosto e que nas entrelinhas eu encontre a vergonha que me falta pra, finalmente, mudar essa obsessão que me consome a tantos anos. Você nunca devia ter se tornado pra mim o que eu fiz de você: essencial.

Essa busca, enfim, terá um fim. "Sentir" perdeu o sentido, porque não faz sentido se não eu não puder sentir por ti. Mas que seja, sabe, que seja assim, sem lógica, sem métrica. Talvez dessa vez eu não tenha razão, talvez o sentido de tudo isso seja não haver sentido, talvez eu encontre outros significados em outros contos que não o do Pierrot, talvez eu reviva tudo em outros braços, talvez eu faça os braços que me acolheram viverem o que eu vivi, talvez eu mesmo crie uma razão pra existência. Mas, de uma única coisa eu tenho certeza: chega de viver a obsessão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Amor Morreu

O amor morreu. Morreu de velho, depois de tantos anos sofrendo as mesmas pancadas. Morreu de tempo... tempo demais pra resistir, quase nenhum tempo pra de fato existir. O amor simplesmente passou do prazo de validade e, como qualquer outra coisa, a gente jogou fora. Não se sabe ao certo quando tempo, quantos anos, quantos meses.... só o que se sabe é que o velho coração já não bate mais.

Devo dizer, o amor morreu de susto. Seu corpo já tão frágil não aguentou o choque que foi perder seu lar pra um sentimento qualquer com qualquer falsa sensação de pertencimento. O amor morreu de cansaço. Permanecer forte e seguro durante todos aqueles anos esgotou seu peito, já cansado de tanto suportar por fora e apanhar por dentro.

O amor morreu de overdose, como qualquer lenda distante que a gente busque pra nossa vida. Depois de perceber que entre os dois só existiria AQUELE amor, ele amou dobrado, pra compensar qualquer falta de sentimento, mas não aguentou a responsabilidade de controlar dois corpos, duas mentes, dois corações. O amor perdeu a alma... vendeu ela por qualquer olhar, qualquer toque e, principalmente, pelo seu olhar e o seu toque. Mas você não controla sua força.

Você matou o amor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Compensação

Aceite, meu caro
A tua imagem já não mostra nada
As tuas palavras já não dizem nada
Mas isso não dói
Aceite que não sentir também é uma condição

O eterno é raro
O efêmero já se fez tão vago
E não há como desfazer o estrago
Troque os lençóis
E novamente desocupe o coração

Agora senta e espera
Que as pessoas aprendam com os anos
Sobre a dor de refazer os planos
Abaixa a voz
E guarda pra ti tudo que é vontade

Esqueces de novo o que era
Apaga os novos velhos desenganos
E volta a te cercar de estranhos
Desata o 'nós'
E deixa se ocupar todo de saudade

Que é bom lembrar que a gente é muito pouco pra qualquer um
Mas que a gente é muito mais do que o valor que nos é dado
Se faz de forte só por hora e sobrevive por agora
Que todo esforço é compensado

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Uma Certeza Que Tenho, Um Sonho Que Tinha

Eu tenho um gosto na minha boca
Tenho uma sede que nunca sacia
Eu tinha uma voz que soava só
Eu tinha um grito que nunca se ouvia

Eu tenho mãos frouxas ao redor
De um corpo que não se movia
Eu tinha braços fracos e quietos
Que esperaram pelos teus algum dia

Eu te vi esses dias, como a tempos não via
E ainda tenho memórias de outra estação
Eu tinha uma dúvida que ainda vivia
E algumas certezas sem nenhuma razão
Eu tinha uma esperança de viver algum dia
Todos esses dias que certamente virão

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

Saudades

"Saudades! Sim.. talvez.. e por que não?…
Se o sonho foi tão alto e forte
Que pensara vê-lo até à morte
Deslumbrar-me de luz o coração!

Esquecer! Para quê?… Ah, como é vão!
Que tudo isso, Amor, nos não importe.
Se ele deixou beleza que conforte
Deve-nos ser sagrado como o pão.

Quantas vezes, Amor, já te esqueci,
Para mais doidamente me lembrar
Mais decididamente me lembrar de ti!

E quem dera que fosse sempre assim:
Quanto menos quisesse recordar
Mais saudade andasse presa a mim!"

Florbela Espanca

domingo, 9 de outubro de 2011

Descarte

Vamos resolver de uma vez
Eu não posso e você não quer
E não me importa mais o que disser
Nada muda o que você já fez

Eu tentei tudo o que podia
Você nem mesmo quis tentar
Nem mesmo experimentou mudar
Que diferença isso lhe fazia?

Eu lhe dei tudo o que eu não tinha
Você só me me virou as costas
Eu já sabia das respostas
E agora você segue sozinha

Eu sei que isso tudo é nada
Que pra você isso nem importa
E como sempre, fechas a porta
E me mantém como página virada

quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Sentido Pra Um Fim

Derrotado como sempre. Acho que a minha sina é me perder pra nunca achar nada. Talvez eu viva pra perder tudo o que sempre me manteve vivo.

Eu já tenho tanto pra lhe dizer... sei que mal fui embora, mas nem consigo calcular a vontade que já tenho de voltar. Já sinto sua falta como se ela estivesse sempre aqui. Dói demais essa saudade das coisas que nós poderíamos ter vivido, dói demais esse espaço vazio... que eu nunca deixei que você ocupasse. Espero não ter que esperar muito.

Eu sempre tive o consolo de ter dado tudo de mim. Sempre tive o conforto da compreensão alheia. Eu sempre tive o direito de me culpar apenas por ter aceitado demais. E agora? Quando cair a noite e eu só tiver o silêncio do meu quarto, quem vai me proteger dos meus fantasmas, sendo que tudo o que eu fiz foi criar mais um pra me atormentar? Eu queria poder me esconder atrás de toda essa sua vontade, mas eu já sou covarde demais sem o seu colo.

É triste ir embora assim tão cedo. Queria criar raízes e viver tudo o que eu pedi pra mim, mas o chão a minha volta já se abriu demais e eu não tenho mais onde segurar, não tenho mais nada pra me sustentar.

Eu consegui a liberdade, mas, de novo, vou sentir toda a solidão.

Olha, meu amor, por mais que não creia você ainda é o meu amor. Sentimento não é só dito ou sentido, sentimento também é sintonia, e a sintonia que eu tenho com você eu nunca tive com ninguém. Por mais que eu me apegue a outras vozes e outros olhares, por mais que eu já seja apegado a tantas outras pessoas, se eu tivesse forças pra viver mais do que só a minha vida, eu te juro que viveria a nossa vida, mas o tempo já se desfez e só me resta lamentar o que eu nem construí.

Se você realmente queria nada, então você fez tudo errado e conseguiu despertar tudo isso em mim.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Falsa Sinceridade

Eu tenho mentido sobre tanta história que até mesmo meu passado vem se confundindo.

Eu não estou bem, não há porque fingir
Nada disso é certo, nem essa máscara de incerteza
Não há frieza e nem há nada pra sentir
Não há porque ficar perto só por não poder fugir

Nada disso lhe convém e já não faz sentido
Não há razão em ser só por não saber não ser
Se o que somos é acaso, por acaso tem existido
E não há como manter o que não se pode viver

A gente sente, eu sei que sente
Mas a gente também mente, por querer sentir
Tudo aconteceu tão repentinamente
E agora a gente não sabe mais como deve agir
A gente só finge que entende
Porque hora ou outra isso tudo vai sumir

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Outono

Eu não sei ao certo o que está acontecendo comigo. Acho que a proximidade do fim do inverno está descongelando minha alma.

Engraçado como a minha vida havia perdido o sentido. Eu estava em pleno frio do inverno, contando os segundos para a chegada do outono e agora a primavera (que nem mesmo começou) já me parece tão linda. Ainda não aprendi a lidar com tantas estações e com tantas sensações que elas podem me causar.

Mas enfim, o Outono já chegou. Veio pra secar as mil folhas que eu me recusava a podar.
Eu já varri as folhas secas do jardim e devo dizer que a vista nunca foi tão bonita.
Pela primeira vez eu não tenho medo do final... pela primeira vez não tenho receio no começo... e pela primeira vez, espero que o tempo passe devagar. Espero que as manhãs se congelem no tempo para que as novas folhas nasçam fortes. Espero que as noites (que por acaso chegarem) se prolonguem pra que todo o tempo que tenho para apreciar a sua chegada no meu jardim seja maior. Eu prometo fazer tudo para manter a beleza de tudo o que vejo pela minha janela. Eu prometo fazer esse tempo valer a pena.

Engraçado como tudo é repleto de significado e essência quando você não espera que o frio passe e simplesmente começa a se aquecer. Eu parei de reparar no tempo que não passava e, agora que ele já passou, espero que ele pare, pra que eu possa aproveitar cada segundo que me foi dado perto de você.

domingo, 28 de agosto de 2011

Vida Vazia

Amanhã eu vou acordar, simplesmente por não conseguir mais dormir. Amanhã eu vou me levantar por nada, vou me arrumar por nada, vou me mover por nada. As manhãs perderam seu gosto de recomeço, as noites perderam seu ar de renovação. As pessoas perderam suas vozes e suas cabeças. A música perdeu o sentimento. Eu perdi a direção.

Não tem nada que me doa tanto quanto não saber o motivo de cada uma de minhas ações. Eu faço coisas pensadas e repensadas que no final significam sempre a mesma coisa: nada. Não me resta uma gota de vontade... respirar é uma tarefa cada vez mais saturada. Pra que insistir em algo que não está me dando nada em troca? Antigamente eu responderia paixão. Hoje eu não respondo mais.

E eu continuo frequentando os mesmos lugares, continuo conversando com as mesmas pessoas, continuo cultivando as mesmas dores e colhendo apenas angústia. Eu continuo sendo aquele que se senta sozinho em frente ao volante e pensa se realmente há algum lugar pra onde se deve ir. Eu continuo sendo aquele que se senta sozinho de frente pro computador e de repente acorda sozinho entre tantas pessoas numa sala distante, escutando coisas que nem sabe se são verdades, e mesmo que sejam, são verdades que já não me dizem nada.

Mas devo continuar, porque esperam alguma coisa de mim. O sangue que eu já derramei nunca bastará. O suor que escorre no meu rosto é muito pouco. A luta de cada dia não significa nada pra quem se conformou em continuar lutando. A dor de cada suspiro que se dá não é nada pra quem só sabe sentir o que já sentiu antes. Quem abriu os olhos pra verdade da vida fez questão de esquecer o sentido de viver.

E a gente nutre a falta de sentimentos. A gente cria as nossas próprias armadilhas, pra tornar a vida mais "emocionante", e quando a gente cai nelas, lembramos que esquecemos de pensar em como escapar depois. Talvez seja melhor sentir dor do que não sentir nada, mas eu me pergunto, e quando a nossa dor é justamente não sentir nada?

Eu só sei de mim... só sabia de mim... um dia acordei e não sabia mais nada. Eu só sei do que não sinto. Só sei do que não quero. Só sei que não espero mais nada de ninguém, muito menos de mim mesmo. Me satisfaço com a estagnação. Me conformo com o estrago que já foi causado e não sei se vejo perspectivas de reparação.

Um dia eu acordei e só vi ar pela janela. Um dia eu olhei fundo nos olhos de alguém e só vi as minhas lágrimas secas. Um dia eu acordei a vida já não era nada. Essa é a resposta: não há resposta pra essa vida.
Vida vazia...

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

À Desconhecida

Acho que estou trocando as coisas de lugar
Não sei o que vejo e o que sinto
Não sei o que conto e o que minto
Não sei mais o que deves escutar...

Sigo a sina de estar me confundindo
Ou espero, te iludindo
Ou te espero vir sorrindo
Dizendo o que eu mais quero escutar...

Talvez por puro fascínio e ilusão
Talvez algum princípio de razão
Talvez seja essa curiosidade

Só sei se quero mais que devo
Mas mudar isso... não me atrevo
Pois de ti, não quero só saudade

Escreve-me

"Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!

Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!

"Amo-te!"Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!

Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade..."

Florbela Espanca

quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Meu Futuro A Quem Pertence?

Eu sempre soube que esse momento chegaria. Eu sempre soube que chegaria um tempo em que todos os maiores erros que eu cometi durante a minha (curta) vida voltariam para me assombrar e que eu não teria esconderijo nenhum. Eu sempre soube que quando eu mais precisasse de você, não poderia contar contigo pra nada, nem mesmo para um cerveja e algumas palavras pra me confortar.

Esse tempo sem você tem sido muito difícil. Não foram raras as vezes em que eu me vi admirando as nossas fotos antigas... me perdi no meio dessas fotos, até o dia que as apaguei por pura covardia, já não aguentava mais amaldiçoar o presente, simplesmente por ele não ser mais o passado. Agora eu sofro, esperando um futuro que nem Deus sabe se existe

terça-feira, 9 de agosto de 2011

Embora Pareça Tarde

Vou embora, que já se faz tarde
Você parou o seu relógio, mas meu tempo continua correndo
E assim sendo, não há mais nada para mim aqui
Não há mais nada para mim que venha de ti
Não há mais nada... nada

Vou embora, que já se faz tarde
E depois de tanto alarde, é hora de começar a correr
Contra o tempo, desfazer os contratempos
Refazer o que eu perdi, repensar o que vivi
E pensar em como a vida ia se acabando

Vou embora, que já se faz tarde
E vou tarde, muito tarde
Perdi tanta coisa te guardando
Que agora nem sei o que guardar
Não creio mais no verbo amar
E nem em quem diz estar amando

Embora esse seja o fim
Acredito em outro começo em outro lugar
Em outro caminho que tenha destino
E que eu saiba que valha a pena traçar
Vou embora sozinho, mas dessa vez, com vontade de chegar

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O olho, o fundo, o meio

Hoje, por um segundo conheci o que não sou
Me vi em um furacão e eu era, ao mesmo tempo, ele.
Cheguei perto do meu não-eu
Com raiva dei-lhe um tapa
Mas senti como se algo saísse de mim...
E não voltou.

Me vi em um abismo
Ele estava ali pleno em um vazio agudo
Gritava em ecos o que ninguém dizia
Uma voz que ninguém ousava ter
Ele me ninava.
Como se me quisesse só para ele
Como se me conhecesse
Como se me amasse

Mas e eu?
Amava o nada?
O abismo?
Amava o que não era?

De repente, meus pés me olhavam
Me pediam para saltar
E o olhar do abismo me chamava
Para conhecer o que não via

O fim me aguardava
O fim do abismo
Ou o começo
Aquilo que apenas sentia.
Em meu peito.
Em meus olhos.

Olhei para o que pensava ser eu
Havia uma covarde coragem
Ali, bem no fundo.
No fundo de um precipício dentro de mim

O que havia no fundo daquele vazio era meu umbigo.

segunda-feira, 25 de julho de 2011

Zero

Zero.
Esse é o valor que me é atribuído.
Sou só uma sombra do que eu deveria ser pra cada um de vocês e sirvo apenas para a proporcionar diversão enquanto sou pisoteado. Sou a mesma sombra que te vela a noite, embora tudo o que sintas seja desespero e, como de costume, desapareço quando as luzes se acendem. Sou aquela sombra que vocês teimam em ignorar, fecham os olhos pra não ver e se esquecem ao nascer do sol, pois só existo com a lua, pra vocês eu só existo de noite.

Perdi a conta das tentativas de me fazer ao menos notável. Perdi a vontade de contar.

Eu sou nada... o nada que vocês sentem. Sou aquele vazio que incomoda tanto, mas que você se esquece por não saber de onde surgiu. Sou os espaço vazio do seu lado, o espaço que você nunca quis que eu ocupasse. Eu sou solidão materializada, sólida, sólita, concreta, mas sou a solidão que nunca te faz mal, pois ninguém quer o que não existe, pra vocês eu nem sequer existo.

Perdi a conta das sensações que provoquei. Perdi a capacidade.

Eu sou o que foi apagado, esquecido, torturado e substituído... mas ainda assim, o que tentou ser tudo o que podia pra cada um de vocês.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Não Tenho Sentido

Qual é o sentido de tudo isso?
Pra que repetir o que não existe?
Pra que continuar, manter o vício
Se nem é por vontade que a gente insiste?

A gente se prende e nem repara
E quando dói, a gente não sente
Transforma alegria em coisa rara
Mentindo ao dizer que a gente não mente

Qual é o sentido de ser só mais um?
Há propósito em querer ser dois?
Talvez a vida seja mesmo solidão...

Se pra você meu valor é nenhum
Pouco me importa o que vem depois
Quem fecha o peito, preserva o coração

sábado, 16 de julho de 2011

Desabafo

É bonito ver a vida girando. Bonito e triste.
É engraçado ver como as coisas se repetem na minha vida e como eu torno as coisas repetitivas para as pessoas que estão ao meu redor, eu juro que não posso evitar, por mais que eu queira (e acreditem, eu quero muito) viver coisas novas. Eu tento, diabos, eu tento muito mesmo, eu apaguei tanta gente da minha vida, só pra correr o risco de aprender a viver sem essas pessoas e conseqüentemente, corri o risco de viver sem ninguém, porque ninguém, NINGUÉM, quer viver nesse limite entre necessário e dispensável, ninguém precisa do meu limite diário de amor e ódio. Eu sou o limite, embora não tenha limites nas minhas atitudes estúpidas.

Eu não posso pedir desculpas, porque sei que não vou mudar. Não da pra fugir dessa fuga que é minha vida. Dentro de mim tem outro eu, e um foge do outro... Enquanto o primeiro foge do segundo ele se esconde nas pessoas que eu amo e o segundo, enquanto foge do primeiro, se esconde nas pessoas que me odeiam. Confuso. Meus sentimentos se escondem nas pessoas que eu amo, mas eles fogem da minha razão, que se esconde nas pessoas que me odeiam... E nessa fuga mútua, eu me tornei um homem de dois pesos e duas medidas. Meus amores não sabem o quão racional posso ser, meus inimigos não sabem o quão sentimental eu sou. Não lido com ambos e ainda consigo uma grande dose de culpa. Consegui transformar amor e ódio na mesma coisa... no mesmo veneno que me mantém vivo.

E a fumaça do meu cigarro toma forma. Não sei se por ironia, acaso, azar, álcool, delírio ou destino, mas tudo o que vejo na mancha cinza que saiu de mim é o seu rosto. Mas passa, quase como imaginação, como a fumaça que está no ar, como você na minha vida. Você veio quase como um cigarro. Encheu meu corpo de prazer, me sufocou e saiu da minha vida... deixando apenas as lembranças ruins que intoxicam meu sangue e minha mente, mas como um bom fumante, eu sempre quero outro cigarro. Mas isso passa, é só imaginação.

Quisera eu viver nesse mundo imaginário dos meus textos, onde toda dor é bonita e gratificada. Nessa fria realidade de julho (maldito inverno que congelou minha alma) a dor não é bonita, ela apenas dói e eu só posso sentir. Eu não aprendi nada com minhas vidas passadas e nem com o passado de quem tanto me inspira. Lispector, Meireles, Pessoa, Baudelaire, Sartre, Morrison, Smith... vocês acompanharam silenciosamente minha vida e eu não soube tirar nada disso. Mas o mundo imaginário continua aí e nesse mundo eu me sento a mesa com todos vocês, pra compartilhar estórias e bebidas, só assim a dor passa. Mas na fantasia do meu quarto a dor está estampada nas paredes


Talvez eu tenha amado demais ou talvez seja apenas mais um maço de cigarros que chega ao fim, agora não há mais nada pra me intoxicar. E além do câncer espiritual, eu sofro também da abstinência. Não, eu não amei demais, eu amei tudo o que podia. Ainda resta muito amor nesse peito fraco. Coisa de poeta, esse sadomasoquismo hollywoodiano que só fica bonito exibido pros outros. Talvez a dor não passe porque ela agora é parte da vida de cada um dos miseráveis que leram essas palavras. Talvez a dor não passe porque suas garras são mais fortes que minha repulsa. Talvez a dor não passe porque eu não a quero longe de mim, apenas pra mostrar pra mim mesmo que tudo o que se sente é eterno. Talvez a dor nem exista. Só amor...

Estou doente, sabe. Não. Eu sou doente, SAIBA. Isso me conforta de uma forma asquerosa. Sou canceriano, logo a culpa nunca será minha, mas sim dos meus problemas. Eu sou um produto dos tiros que tomei durante essa juventude interrompida. “Não importa o que fizeram de nós, mas sim o que nós fazemos do que fizeram de nós” Sartre é um gênio. Pois bem, eu me fiz de vítima, mas eu tenho NOJO (tenho nojo da palavra nojo) dessa piedade humana, tão falsa. O que todos querem é te levantar da merda pra sempre que quiserem te soltar de novo, aí onde você está? Na merda. Mas eu me fiz de vítima (sem mais devaneios), é mais fácil aceitar a dor se ela é livre de culpa. Ser traído dói, ser trocado dói mais ainda, mas ser culpado, meu amigo, isso é quase insuportável pra quem julga ter feito tudo certo sempre.

Então, é lindo ver a vida girando, mesmo que a minha gire sempre em torno do mesmo eixo e pare sempre no mesmo lugar. É lindo rever as minhas musas nessa volta. É lindo assistir nossos momentos mais íntimos que só as minhas músicas sabem traduzir. Mas é triste, porque você só pode olhar, nunca tocar e viver de novo. Eu repito os ciclos com reticências, pra poder repetir mais e mais e mais e mais, porque quando a vida parar eu vou ter que começar a agir.

Eu só acendo outro cigarro e penso: “É bonito ver a vida girando. Bonito e triste.”

quinta-feira, 14 de julho de 2011

Já que sou

O jeito é ser...

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Eu tentei me livrar de tudo que me incomoda, e descobri que pra isso só precisava de uma noite de sono
Só que aí eu me lembrei que pra isso eu preciso de sono e então a insônia volta a me atacar...
Sabe aquela velha história de que os problemas se acentuam de noite...pois é, tudo bobagem.
A minha teoria é que os problemas se acentuam quando você vê mais problemas dentro deles, uau, que óbvio
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O engraçado é que aparentemente eu não tenho problema nenhum. As coisas estão se encaixando aos poucos na minha vida...eu descobri que não preciso me adaptar aos outros pra viver bem com eles e descobri que não quero viver com grande parte deles....

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Eis o grande drama da vida de um platonista... a aproximação... andei reparando no meu próprio desespero e foi o suficiente pra me deixar desesperado.

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É, bem melhor agora. Me encontrei novamente através de toda a indiferença e da pena que eu posso sentir de alguém, e dessa vez não é de mim mesmo.

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Vontade de matar alguém, não qualquer pessoa, vontade de matar um certo alguém. Não sinto raiva, muito menos ódio, seria bom demais pra ela ^^

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Volto a me machucar. Tenho que parar com essa autoflagelação mental, afinal as pessoas não fazem nada pra me machucar e eu consigo me sentir pior ainda com isso. É muito mais fácil sentir raiva de alguém.

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Uma seção de filosofia transcedental sem nenhuma influência externa. Chegar o mais alto possível é muito fácil, difícil é lidar com a descida.

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_Que descida? Olhe pra você mesmo rapaz, você já está no fundo do poço - Diz a voz irônica do ridiculo
_É bom guardar isso em sua cabeça pra evitar futuros problemas - acrescenta a dura voz da consciencia
_E saiba aonde você quer chegar antes de dar o primeiro passo - diz a sensata razão
Um desenho gravado em pele por cima de uma ferida então se manifesta
_ As vezes o lugar mais alto em que podemos chegar é o chão. Não deixe de lado o que os outros disseram mas lembre-se de que a única coisa que pode ser desequilibrada aqui é você.

E então eu saí pra fumar um cigarro e refletir sobre tudo o que tinha dito pra mim mesmo.

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E varias vezes refleti sobre o ridiculo humano, e varias vezes me lembrei da inconstancia, da depressão, da bipolaridade, dos multriplos transtornos, traumas, dores, medos...vidas...seria enfim a existência do ser que aqui escreve muito mais do que isso?

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ah a alegria, como é doce, efêmera, fraca, forte, amarga e leve. Como passa, vem, para, olha, pensa, fala, age, volta, vai e me deixa enfim, porque eu sou pouco demais pra algo grande demais.

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E o amor, terá entrado na rotina? Ou é a única coisa que mantém esse corpo de pé? Estranho falar mas depois de sexta as coisas ficaram mais simples.

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Ressaca moral, arrependimento de palavras ditas sem ao menos um reflexão mínima

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Eu te odeio, por favor não me deixe

14/11/09

Insanidade

Ultimamente a tristeza tem me tomado as palavras
Essa loucura virou minha loucura
Desfiz os idealismos, reformulei as crenças
Seus sonhos antigos são minha amargura

Hoje, essa insanidade toda não me fascina mais
Mas ainda penso em tudo com saudades
Suas mentiras não machucam como a um tempo atrás
Hoje o que dói são as tuas verdades

domingo, 3 de julho de 2011

Menos Um Ano Me Restou

Mais um ano se passou
E eu não ganhei mais nada
Nem sorriso e nem amor
Só uma página virada

Mais um ano se passou
E eu nem conto o que perdi
Mil pedaços do que sou
Tantos anos que vivi

Mais um ano se passou
E é só um ano a menos
Agora eu vivo o que restou
Sabendo que nos perdemos
Pensando em tudo o que sou
E o que nós dois nunca seremos

sexta-feira, 1 de julho de 2011

À instabilidade das cousas no mundo.

"Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol e na luz, falta a firmeza,
Na formosura não se crê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância."

Gregório de Mattos

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Recordação

Eu sei que não mereço nada
Não quero pena ou compaixão
Se minha escolha foi errada
Foi errada de coração

Sei que já não somos nada
Além do peso da recordação
Talvez nessa página virada
Haja enfim pontuação

Eu sento só, de frente à porta
E espero o que não vem
Sei bem que não lhe importa
Mas sem você não há nada bem

E eu me guardo, tranco a porta
Nego o poder que o tempo tem
Sei o quanto isso me importa
E que sem isso eu sou ninguém

domingo, 26 de junho de 2011

Epifania

Olha só... Amanheceu de novo e você não está aqui, mas eu estou. O tempo da tristeza não acabou, eu sei, mas dessa vez eu não vou olhar pro teto lembrando o quanto você me faz falta. Não. Já chega dessa tragédia grega que eu criei pra mim. Já chega de me esconder da tempestade embaixo das suas fotos, você não vai me proteger de nada.

Só eu sei o quanto dói e, acredite, dói muito, mas tudo o que eu fiz durante esse tempo foi piorar as coisas. Enquanto eu lamentava pelo tanto que eu tinha perdido, nunca lembrei de agradecer pelo quanto eu ganhei. Enquanto eu chorava pela sua partida, nunca percebi que algumas pessoas se entristeciam pela minha ausência. Hoje eu percebi que não vou ganhar nada se ficar sentado esperando que você se arrependa e volte pra mim correndo. Percebi que a dor não vai passar se eu me conformar com ela.

Talvez eu goste muito de tudo isso. Talvez eu adore sentir toda essa angústia e melancolia, só pra depois poder falar que sofri por sua causa. Não, isso não mostra que eu te amo, só mostra o quanto eu dependo de você. Eu não preciso estar deprimido só pra que a poesia pareça mais sincera.

Tudo o que aconteceu me marcou muito, e isso é pra sempre, mas tudo que vem tem sua razão e agora eu já sei o que vale a pena viver e quando vale a pena parar.

Mas agora chega de lamentações. Eu sei que não posso fazer mais nada em relação a nós, além de me sentir triste pelo fim, mas o mundo é grande e espera pelo meu recomeço... E eu não estou sozinho, em momento algum.

sábado, 18 de junho de 2011

Desmoronado

Hoje eu morri duas vezes... ainda assim, não foi o suficiente. Eu gosto é de sentir na carne as tuas garras, de sentir na pele toda a dor que isso pode me causar. Eu gosto é de gravar as tuas palavras pra motivar as minhas tragédias. Eu gosto é de saborear a dor, sabendo que é só isso que você pode me dar. Eu gosto de viver cada uma das tuas torturas, pra no final saber que sem você eu me torturo sozinho.

Hoje eu morri duas vezes. A primeira foi acordar, sem nem ao menos ter dormido, sozinho na cama que também era sua e lembrar que você foi embora por escolha, levando cada pedaço de mim, até mesmo os que eu nem mesmo sabia que tinha. Me cortei inteiro ouvindo as palavras que eram pra mim sendo ditas pra qualquer pessoa. Eu me joguei de um precipício e só o que enxerguei foi o seu rosto no chão. Não há escapatória de você, pois não há fuga de mim mesmo.

Hoje eu morri duas vezes. A segunda foi ir embora sem um toque, um beijo, um desejo de boa noite. Sentir o soco que foi a tua despedida tão singela, tão incerta que eu nem mesmo sei se foi pra mim. Me sentir sozinho numa estrada sem retorno e sem sentido e não poder nem ao menos te ligar pra sentir qualquer traço de segurança que existe na sua voz. Sentir o conforto que só as suas palavras causam. Sentir qualquer coisa que não seja essa culpa pelo que eu nem fiz. Sentir o peso de voltar a simplesmente existir no mundo, qualquer mundo que você não está.

Te amar dói, muito. Muito mais do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Jurei pra mim mesmo que nada poderia ser maior do que meu amor, mas me enganei da pior maneira possível ao sentir tudo isso, como um tiro que vem, me rasga e ao sair, ainda me deixa sangrando até a morte, porque foi a isso que você me condenou, sentir toda a dor que você poderia me causar e ainda me deixar sem ti, nem mesmo dentro do meu corpo.

Você infestou minha mente com tantas lembranças boas, só pra ir embora e não me deixar te esquecer nunca? Você me fez alimentar esse monstro que era esse maldito sentimento, só pra que no final a minha própria criação me devorasse? E agora, me pede pra ficar, só pra lhe desejar bons sonhos, como um escravo sem coração, cabeça ou destino.

Hoje eu te amo com tudo o que não posso, com tudo o que não tenho. Eu te amo com tudo o que não sou (e talvez nunca tenha sido). Hoje eu te odeio por não conseguir nutrir nada por ti além de amor, nem mesmo esse falso ódio. Hoje eu me odeio por te desejar tanto e de tantas formas, mas nunca poder te ter de um jeito que me faça feliz ou ao menos bem. Eu me culpo por ser quem sou. Detesto esse coração que teima em continuar. Detesto esses olhos que secaram. Detesto essas mãos que não sentem nada além da sua pele. Detesto esse homem que deixou de existir longe de você. Detesto esse homem que começa a surgir dentro de mim, apenas pra ocupar espaços... o espaço que eu deixei em mim e o vazio que você criou.

Não há destino mais incerto do que esse.
Não há futuro que pareça mais triste.
Não há passado que marque mais do que esse.
Não há presente. Agora nada mais existe...
Além de dor e você, longe, mas infelizmente presente

domingo, 12 de junho de 2011

Considerações Finais

Eu sigo só, daqui pra frente
Sem saber pra onde, sem saber por quê
Já que o que quero se esconde em você
Já que só queres o que não sente...

A gente se repete, é sempre assim
Tanto amor é muito pouco, é quase nada
Eu sempre louco e você sempre errada
Essa é a conclusão de todo fim...

E a gente se machuca até cansar
E a gente sempre sofre sem cessar
Mas é certo que amanhã é outro dia

Nosso tempo era curto e já passou
Você foi embora e minha dor ficou
E o amor está repleto de agonia

segunda-feira, 6 de junho de 2011

As Mesmas Rimas

Esse é o outono mais frio que eu já vivi
Lá fora as coisas parecem tão mortas, tão secas


Eu não sei se minha janela se transformou em um espelho
Eu olho pra fora do meu quarto, tentando sair de mim mesmo
E só vejo a minha tristeza
Estampada em cada rosto que se aproxima.

Talvez não consiga ver além de mim, talvez seja meu desejo
Ou talvez queira mesmo fugir disso tudo, pra caminhando a esmo
Chegar sempre àquela certeza
De que você vai estar em cada rima...

Tabacaria

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Epitáfio

Eu já não entendo mais nada.
Não vejo sentido nenhum nessa tristeza toda que me caracteriza. Eu olho no espelho e vejo um olhar vazio e o resto é a pura falta de expressão. Só sei que sinto... tristeza, amargura, frustração, decepção. Não sei mais como resolver tudo isso. Não sei mais o que tenho que resolver.

Sabe, não tem nada mais triste do que se deitar de noite e não ver sentido nenhum em nada do que aconteceu durante o dia. Não tem nada mais doloroso do que ver que seus próprios amigos não entendem a tua dor e, contraditoriamente, ter que concordar com todas as palavras que julgam tudo como drama e exagero. Não há nada mais frustrante do que acordar todos os dias esperando uma ligação que nunca vem, uma mensagem que nunca chega... algum traço de vontade, que a cada dia impõe-se mais e mais inexistente. Não existe decepção maior do que não se reconhecer nas próprias atitudes. Eu não me vejo mais aqui. Não há amargura maior do que ver tantos retratos onde tudo o que se percebe é um espaço ao meu lado. Eu não te vejo mais ao meu lado, meu amor.

Eu não sei mais se quero e espero, pois querer sozinho é muito pouco pra mim.

Não posso invadir a tua vida da forma como, obsessivamente, eu quero. Não posso controlar essa vontade doentia de te ter todos os dias. Não vejo mais solução pra o que eu costumava chamar de "nós dois", pois hoje é muito claro que não há nem mesmo solução pra mim.

Eu queria muito poder acreditar em todas as suas palavras, mas não posso.
Eu queria poder apagar do seu passado tudo o que me faz terrivelmente mal, mas não posso... E se pudesse não teria o direito. Eu não tenho o direito de mudá-la pra que me queira da forma como lhe quero e não tenho o poder de aguentar a forma como me queres.

É terrível ver como isso impregnou a minha rotina. Não há frase sem sentido ou sorriso passageiro que não me lembre você. Não há nenhuma dura pena ou cruel sentença que não pareça pequena perto do que me pedes. Não há eternidade que não pareça minutos perto dessa espera incerta. Não há beleza alguma em qualquer coisa que exista se não houver a minha única alegria imensurável, que é o teu simples toque ou qualquer palavra dirigida a mim, que venha para bem ou para mal.

Agora eu apelo pro papel, pois não há ser que não tenha ouvido estes lamentos.
Talvez tudo isso passe em branco, mas uma carta não entregue tem muito mais significado do que uma carta nunca escrita.

quinta-feira, 26 de maio de 2011

Réquiem de um Futuro Nosso

Eu resolvi desfazer meus limites
Eu tinha decidido que não poderia mais haver nada de bom na minha vida sem você por perto, mas você também decidiu que não poderia haver nada de bom com você ao meu lado.
Eu tinha me entregado, decidi que sua vontade era a minha vontade, que você era certa e única, mas você decidiu ser a única a insistir no mais errado pra mim.
Tinha permitido tudo a ti, deixei você escolher, e pretendi pra ti um livro aberto, mas você não me permitiu nada, nem saber o que pra você era certo ou errado.
Eu tinha me estragado, escolhi a sua verdade como minha verdade, fiz de minha vida uma crônica, onde a nota tônica, você, também era a nota do fim.

Tudo começava e terminava em você
Pois sem ti nada tinha porque
Nada era verdadeiro
Minha vida parou por tantos anos
E eu refiz todos os meus planos
E você era deles o primeiro

Eu perdi cada momento de paz
Pra sempre correr atrás
De ti na contra mão
E agora eu acordo de novo
Perdido e sem voz, no meio do povo
Sem espada, escudo ou coração

Mas resolvi desfazer meus limites
E embora não mais acredites
Ainda espero um futuro nosso
Mas agora acho que ficou tarde
E prefiro ir embora sem fazer alarde
Pois eu te amo muito mais do que posso

terça-feira, 24 de maio de 2011

Jantar de Despedida

Eu não sei mais como esperar
Há meses você foi embora
Disse sobre mil coisas a se concertar
Mas como fazê-lo, você ignora

Eu sei sobre tudo que há pra mudar
E sei que posso começar agora
Você me disse que iria voltar
Mas nunca disse a hora...

Eu não sei mais do que tinha certeza
Eu não sei nada mais sobre eu e você

Eu preparei o jantar e arrumei a mesa
Esperei por você bem de frente pra porta
Eu não sei mais do que tinha certeza
Mas tenho certeza de que você não volta

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Alma Perdida

"Toda esta noite o rouxinol chorou,
Gemeu, rezou, gritou perdidamente!
Alma de rouxinol, alma da gente,
Tu és, talvez, alguém que se finou!

Tu és, talvez, um sonho que passou,
Que se fundiu na Dor, suavemente...
Talvez sejas a alma, a alma doente
Dalguém que quis amar e nunca amou!

Toda noite choraste...e eu chorei!
Talvez porque, ao ouvir-te, adivinhei
Que ninguém é mais triste do que nós!

Contaste tanta coisa à noite calma,
Que eu pensei que tu eras a minh'alma
Que chorasse perdida em tua voz!..."

Florbela Espanca

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Só existe você

"Pensei morrer, senti de perto o frio,
e de quanto vivi só a ti eu deixava:
tua boca era o meu dia e a minha noite terrestres
e a tua pele a república fundada por meus beijos.

Nesse instante acabaram os livros
a amizade, os tesouros sem trégua acumulados
a casa transparente que tu e eu construímos:
tudo deixou de ser menos os teus olhos

Porque o amor, enquanto a vida nos acossa
é simplesmente uma onda alta sobre as ondas
mas ai quando a morte nos vem tocar á porta

Só existe o teu olhar para tanto vazio,
só a tua claridade para não seguir sendo,
somente o teu amor para encerrar a sombra."


Pablo Neruda
soneto XC, do livro 100 sonetos de amor

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Pra Amanhã

Vai passar, eu sei que vai.
Toda essa dor que nos mantém prisioneiros,
Essa angústia de acordar sozinho todo dia
Tudo isso vai passar.

Nossas incertezas são importantes
E nossas certezas inconstantes...
Não sabíamos o que queríamos,
Mas é passado.

Olha, olha a foto que guardei
De tantos anos atrás.
Olha teu sorriso nela,
É o mesmo de hoje, embora nada mais seja igual

Nossa mudança é evolução
Nossa distância é elementar
Nossos problemas, adaptação
Ao teu lado, o meu lugar

Pra Ontem

A gente já se machucou demais
Muito mais do que devíamos
Talvez por termos vivido mais
Bons momentos do que merecíamos
A gente já deixou pra trás
Muitas datas relevantes,
Descasos importantes
E outros tantos problemas marcantes
Mas saiba, tanto faz

Estranho esse meu egoísmo
Que quase nunca me faz bem
Que me leva a querer tanto
A tanto tempo um só alguém
Estranho e ter todo esse amor
E as vezes ver que não nos basta.
E ainda assim saber tão bem
Que o tempo não o gasta.
Não

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Sangue Quente

Eu tentei ficar de pé e me mostrar valente
Pretendi ter outra fé e sangue ainda quente

Pois então, cansei da solidão acompanhada
Cansei dessa emoção desajustada
Dessa sensação de não ser nada, não ter nada
Talvez não seja nada... não valha
Talvez seja só falha, não sei. Não!
Talvez só compreensão... incompreensível
E a gente se retalha assim, só pela diversão
Só por um domingo que não chega e passa rápido
Inatingível.

Rápido demais. A gente foi longe, muito longe
Muito rápido.
Você não sabe o que é sentir e eu nem sei mais não sofrer
E agora enquanto vais dormir eu viro a noite a lhe escrever
Sobre como nunca lhe ter é pesado
Sobre como meus dias estão...
Vagos.

Há espaços por aqui. Lugares vagos (coração?)
Jamais estarão, você os dominou
Seu nome se gravou, feito tatuagem
Que nem sei mais se tens a coragem (de gravar)
Que tinhas quando falava no futuro
E eu cego e no escuro, que é o que você chama de amar...
Pois bem, querida, deixe estar.
Espero a noite acabar e vou embora
Já tem sol lá fora e gente que me inspira
Você é única pra mim, mas acredite, o mundo gira
E seu tempo vai passar.

Espero que mais coisa passe.
Espero no fundo um desenlace: se me queres, vem
Se não sabes, tudo bem... me acostumei a viver sem
Sem amor e sem resposta, sem defesa, cara exposta
Sem você e nem ninguém.
Por sorte guardei a mim mesmo. Minto
Vaguei a esmo até aqui, só pra lhe dizer que sinto
Amor, ódio, alívio
Dor. E ainda guardo o teu sabor
Doce amargo (triste fardo).

Anote aí meu telefone, me ligue quando puder
Quando quiser, mas só se der e tiver tempo
Pois é certo que um momento não há de bastar
Eu tenho fome do teu nome, amor, tenho sede da tua voz
(Pena que não posso falar por nós) Quero você a noite inteira
De segunda a sexta-feira, mesmo sem vontade (verdadeira)
Mesmo que em outra cidade.

Não me culpe se te quero e faço tudo por você.

domingo, 24 de abril de 2011

Do tempo ao tempo

Tudo são relações de tempo
Esse par... sempre presente, mesmo que nunca paciente

--
Talvez o simples ressoar de cada uma das palavras ditas. Eu e você.
Talvez seu toque, seu ritmo. Não sei o que me causas.
Ignoro...
Talvez não saber seja minha fuga
Uma forma de não ver
E não ser
Basta se pudermos viver
Tudo questão de tempo.
--
Como as tintas uma vez disseram
Invisíveis.
Inconsciente e inconseqüente eu
O mundo é o eterno
A vida é o efêmero
O tempo eterno efêmero
--
II
Que não mais tenhamos nada
Que não mais queiramos nada
Só estrada inalterada
Só a passagem esperada
No meio essa vida
Médio estádio em que estamos
Que então vivamos... se nada mais presta
Se nada nos resta
Não há dor
E nem festa.

terça-feira, 19 de abril de 2011

É Tarde

Já era tarde, muito tarde, mas ainda assim ele continuava imóvel... sentado naquela cadeira como se pudesse impedir o tempo de correr. Apenas suas mãos se moviam, escrevendo rapidamente sobre um papel já muito manchado de várias tentativas frustradas de se expressar de uma maneira no mínimo coerente.

"Pois bem, hoje eu resolvi me desculpar por todos os meus erros. Talvez seja apenas o efeito do silêncio da madrugada no meu cérebro discretamente cansado, mas ainda assim não vou deixar passar essa "sensibilidade" estúpida que me toma.
Eu queria poder assumir pra cada pessoa cada um de meus pecados, mas isso levaria tempo demais e o meu tempo escasso raramente se encaixa com o tempo dos outros, então vou fazer desse papel meu confessionário.
A todas as vítimas da minha arrogância, eu peço paciência (mesmo aos que já são por natureza pacientes demais). Detesto essa rotina de julgamentos que me envolve, enquanto julgo a todos pelas costas, todos me julgam da mesma maneira. Já estou cansado de ser assunto e não companheiro, mas não tenho o direito de tirar isso de ninguém, quando nem ao menos consigo tira-lo de mim mesmo.
Aos que sofreram com minha inconstância, peço que deixem de lado. Sei que é difícil separar o que sou do que eu "estou sendo", mas é injusto sofrer por algo que nem mesmo eu controlo, da mesma forma que é injusto pedir que esqueçam algo que eu me lembro a cada dia.
Quanto aos que se machucam com a minha intolerância, peço compreensão. Já é difícil demais tolerar a mim mesmo, convivendo diariamente com tudo o que eu citei nessa "análise", imaginem então tolerar o resto do mundo. Entretanto, não me julgo indispensável e entendo perfeitamente o fato de que não sou o único que lida diariamente com a luta entre consciente e inconsciente e, portanto, não julgarei que não puder me tolerar também.
Aos que sofrem por qualquer outra característica que foge ao meu controle, peço tudo o que já pedi e que saibam perdoar. Nenhum homem é perfeito, mesmo que alguns (como eu) sejam completamente imperfeitos."

Ele dobrou o papel e guardou a caneta. Isso não deveria ser entregue nunca, pois se confessar pelos pecados de hoje é apenas mascarar os pecados de amanhã. Pois ele sabia que já era tarde, mas nunca era tarde demais.
(Pra errar ou acertar, no final tanto faz
Pois tentar consertar é apenas estragar mais
Nenhuma tentativa basta, é esquecida, apagada
Só o resultado vale... querer muito é fazer nada)

sábado, 2 de abril de 2011

Amar

"Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!

Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!

Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!

E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar..."

Florbela Espanca

quinta-feira, 24 de março de 2011

Sonhos Envelhecem

Eu não te criei, não te fiz assim
Não te pretendo cura pra minha solidão
Não te idealizei, nem quis ouvir um sim
Mas não entendo teus motivos pra um não

Eu não te busquei, não voltei pra ti
E agora não espero que venhas correndo
Nem mesmo mudei, te esperei sempre aqui
E agora eu sei, o quanto estava perdendo

De ti fiz o que pude, te guardei em sonho antigo
E te escrevi mil versos, te imaginei aqui comigo
Uma forma de nunca te perder
Mas sonhos envelhecem e tuas certezas permanecem
Papéis se perdem e as palavras nos esquecem
E eu volto a nunca lhe ter

segunda-feira, 14 de março de 2011

Mil Desejos Pra Uma Eternidade

Eu era vago, vão, limpo. Uma página em branco, uma caixa vazia, uma ferramenta sem uso conhecido. Mas havia em mim um impulso. Havia em mim uma queda pelo verbo "desejar". Eu era vago, vão, limpo. Um livro em branco, um cofre vazio, um violão sem cordas. Mas havia em mim a possibilidade. Havia um movimento, um dinamismo, uma mudança.
Eis que eu quis algo. Quis ter vontade. Quis ter um desejo por dia, pra permanecer sempre insaciavelmente inconstante. Não saber o que querer, mas sempre tê-lo no final.
Mas a inconstância não me bastava, afinal era insaciável, rabiscava frases irracionais no caderno que era eu.
Logo quis ter menos sangue em minhas veias, menos coração no meu peito. Joguei fora o prazer bruto que devia ser lapidado de cada relação. Quis a frieza.
Mas a frieza não me bastava, pois era sempre a mesma indiferença. Pontuava mil frases que nem sequer tinham tempo de se construir no meu universo a lápis.

Quis ter o conhecimento, sem nem conhecer o que havia por trás disto. Quis conhecer um mundo que não era real por trás de toda a matéria. Quis enxergar os caminhos pra ter cada vez mais coisas. Ganância.
Mas todo o conhecimento do mundo insólito que eu criei me consumia. Cheio de mim mesmo não havia espaço pro mundo lá fora. A janela do mundo desenhada em meu caderno é um auto-retrato.
Também quis não saber nada. Quis ignorar tudo sem nenhuma maldade. Quis lembrar apenas de mim e do que meu corpo, cada vez mais fraco, me pedia. Quis nem saber de mim, deixar de lado tanta rotina.
Mas a ignorância é uma dádiva dos merecedores. Requer um esforço que nunca me pareceu digno. Além do fato de que o “não saber” não curaria minha dor de não ter tudo que queria. Apaguei as linhas do meu caderno, não quis mais ser certo.

Quis gostar da imperfeição. Mas cabia a mim criar algo perfeito. Quis gostar do belo, mas o que pode haver de belo nesse mundo que sou eu? Quis o glamour e o decadente. Um tango em qualquer botequim de qualquer esquina.

Quis poder lembrar de tudo que já quis, apenas pra não querer algo duas vezes. Também quis esquecer tudo o que já quis, mas descobri que não sirvo pra arrependimentos. Quis me corrigir em tantos aspectos... mas descobri que meus pilares são o que há de mais errado na humanidade. Minha vontade é lei e só eu posso ser juiz e jurado, para garantir que a lei seja cumprida.

Quis cantar em cabarés, dançar em velhos teatros, tocar em esquinas vazias. Quis queimar um cabaré, despedaçar um velho teatro, me embebedar em um esquina vazia. Mas pequenas coisas não fazem grandes poemas quando a genialidade é pouca.

Quis ter uma mulher amada e que me amasse, mas vi que a utopia ainda não veio. Contentaria-me, talvez, com uma mulher que me amasse, mas foi pouco demais pra minha vontade orgulhosa. Quis um amor grande demais e ele acabou cedo demais. Quis um amor incerto demais e me entediei com tantas certezas.
Quis tatuar um rosto, mas só pensava na lua. Única mulher que me acompanhou durante toda a vida. Quis ter alguém em minha pele, mas era pouca pele pra tantos ‘ninguéns’.
Quis sentir felicidade, tristeza, euforia, decepção, alívio, pressão, medo. Quis sentir medo da madrugada que só me inspirou em vida. Quis sentir medo da multidão que afogava minha mágoa em futilidade. Mas nem assim escapei do medo da solidão.

Depois quis parar de escrever, mas expressei isso em poesia. Quis não ter escrito tudo isso, mas descobri ser inútil depois da terceira versão escrita queimar na mesma fogueira das outras duas. Com as cinzas escrevi a quarta versão.

Eu quis muita coisa em minha vida. Quis organizar um caderno com tudo que passa dentro de mim. Quis arrancar meu coração e transformá-lo em tinta. Mas seria impossível. Por fim, hoje eu quis dizer que tanta vontade passageira só serviu pra me mostrar o que é o eterno, o infinito. E com isso, eu descobri que a única coisa que quero pra mim é você.

sábado, 5 de março de 2011

Um Conto do Deserto

Não tenho muito tempo
E que as palavras sobrem
Frases intermináveis sobre mil segredos
Que eu nunca lhe escondi
Incontáveis narrativas sobre meus medos
Dos momentos longe de ti

Talvez em arrependimento
Tantas lembranças voltem
Do falso moralismo que lhe impus
Dessa minha falta de respeito
Ajustar tua realidade a minha cruz
Desejando moldar algo imperfeito

Não nos sobre muita escolha
Vendo como o mundo roda
Se ao menos eu soubesse de mim...
Do real dano que lhe infrinjo
Todo esse teatro teria um fim
Dizendo o que sinto e o que finjo

Talvez outra tristeza te acolha
Pois a minha não mais lhe acomoda
E algum deserto vai me servir de exílio
Onde não posso machucar ninguém
A cicatriz que deixo em ti será teu utensílio
Na busca por um outro alguém

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Aceitação

Sentei pra recontar o tempo
Pra ver o quanto estou perdendo
E o tanto que estou lhe devendo
Tudo que nos afasta e nos faz um
O que ainda vou levar de ti
O que ainda vou mudar aqui
O que ainda vai sair de mim
E tudo o que começar e não tiver fim

domingo, 20 de fevereiro de 2011

6 de Maio

Meus pés doem
É tanta estrada, tanto chão
Do meu descanso eu abri mão
E ando enquanto ainda agüentar

Segui seu rastro em pensamento
E guardei teu endereço
Só lhe peço o que mereço
Pra apagar o teu pesar

Sonhos se constroem
Das várias chances de perdão
De cada beijo e abraço em vão
São todo o meu pensar

Fiz do teu nome mil poemas
Mas palavras se distorcem
Desdobram-se em meio ao vento

Gestos se desfazem
São restos de outros momentos
Talvez só meros contratempos
É tudo aquilo que restar
É tudo que já cansei de te falar

Já não há espaço só pra mim
Eu fiz a casa pra nós dois
Deixei tudo pra depois
Não cabe a minha solidão

Eu te segui até aqui
Só pra segurar sua mão
E destruindo minha razão
Dizer pra ti tudo que sou

Guardei pra ti o que restou
Do que chamavam coração
Guardei pra ti o que ficou:
Meus olhos sem nenhuma cor
E suas molduras já profundas
Escondem dores absurdas
Escondem amores e o que for
Que quiser levar de mim

Seja eterno ou passageiro
Ou apenas veraneio
Se for incerto
É certo que te buscarei
Nem que apenas em algum sonho antigo
Mesmo com toda a certeza do perigo
Vale a pena por você

domingo, 30 de janeiro de 2011

O Muro

"Tinha toda a vida diante de mim, fechada como um saco, e entretanto tudo quanto havia lá dentro continuava inacabado.
Tentei, num momento, julgá-la. Quisera dizer: foi uma bela vida.
Mas não se podia fazer um julgamento, pois ela era apenas um esboço; havia passado o tempo todo fazendo castelos para a eternidade, não compreendera nada.
Não tinha saudades de nada; havia uma porção de coisas das quais poderia sentir saudades, (...); a morte, porém, roubara o encanto de tudo."

Jean-Paul Sartre . O Muro

segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Aos Capricornianos em Minha Vida

Do tempo se fez toda a certeza
E com o tempo se desfez
A pressa e a ansiedade
No signo da objetividade

Conscientes dos limites
Limitados a própria vida
Pacientes jogadores
Responsáveis protetores

Naturalmente ambiciosos
Humanamente receosos
A busca de toda plenitude
Em sua própria atitude

Capricórnio, Pã dos homens
Autores do seu próprio tempo
Senhores da capacidade
Tem em si a qualidade
Pra alcançar tudo que almejam
Lutar pelo que desejam
No seu tempo, sua vida
Faz o tempo, faz a vida