Eterno arquivo do que já não interessa
Vazio Infinito

sábado, 30 de abril de 2016

Doce Bipolaridade

Agora deixo o tempo trabalhar como puder
Me colocando um passo a frente do destino
É um desatino, mas aceito o que vier
Reformulei o meu contrato, agora assino

Foi complicado alcançar minha consciência
Que se perdia a cada hora por tão pouco
E se for louco o meu caminho, experiência
Eu grito alto até ficar muito mais rouco

O que é culpa fica ao lado pra lembrar
Que nossos erros constroem os acertos
E certas coisas nunca vão se consertar
Certas pessoas vão embora com o tempo

Mas seja lá o que eu sou permaneceu
E eu aceito a condição de ser melhor
Pra mostrar que quem errava enfim cresceu
Pra mostrar que eu não quero ser pior

terça-feira, 19 de abril de 2016

Amigo

Amigo,

Se me pedes o consolo da minha companhia
Como eu, que sozinho sou nada, negaria?
Eu que sem ti seria cinzas ou apenas levaria a vida cinza
com amargura
Se teus dias são ruins, que sejam nossos
Se tuas noites são longas, que sejam nossas
Se tuas dores apertarem, que sejam minhas também
Pois se diante de todos em minha vida, foste contigo
que escolhi compartilhar minha caminhada
seja intensa ou perisosa, com obstáculos medonhos
com pesadelos e sonhos, para mal ou para bem
É contigo que contei, então contes comigo também
Posso perdoar todo o mal que me causares
Mas como perdoaria se escolhesses se causar o mal?
Este mal que é estar sozinho não compensa
Então para e pensa.

Amigo
Pro que precisar
conte comigo.

domingo, 17 de abril de 2016

17 de Abril de 2016

Querida,

Lhe escrevo hoje porque não há mais nada que eu possa lhe falar, entretanto tenho tanto a dizer. Assim como a vida continuou dia após dia enquanto estive ao seu lado, os dias continuam ao meu lado enquanto a vida ainda pertence um pouco a ti. Não há muito o que dizer sobre esse processo, o tempo passa, porque tem que passar, as coisas passam, porque têm que passar, e você sempre soube de tudo isso muito melhor do que eu. Um momento cria outro, nesse meio tempo apenas podemos tentar guardar o que nos é precioso. Sabendo do que perdemos, eu agora me pergunto se vivemos um momento ou apenas falhamos em guardar o que éramos em um intervalo entre momentos.

Ainda não entendo o que aconteceu. Contei diversas vezes a história das bobagens que eu te disse, procurando em meio a tanta coisa quais foram as bobagens que fizeram diferença pra essa história. Eu sei que alguma coisa se perdeu, mas talvez tenha sido alguma coisa que eu não conheci de fato, portanto jamais poderia encontrá-la. Por diversas noites eu pensei nisso e cada uma dessas noites eu perdi, porque as respostas que eu procuro nunca apareceram. Veja bem, não espero que me explique ao seu modo quais foram as causas do incidente, pois as horas que o destino ainda pode nos reservar devem ser gastas com outras coisas.

Sinto sua falta. Tenho notado sua ausência com frequência, nessas horas respiro fundo e penso que você está ocupando os espaços ideais agora, pois a última coisa que desejaria era me tornar um exercício. Ainda penso no que você me falaria diante de situações diversas, ainda lembro do seu cheiro invadindo a minha cama. Saudade é uma coisa que não dá pra explicar, é algo que nos distancia ainda mais do que as distâncias. Sinto sua falta porque foi só o que sobrou de ti. 

Eu nunca quis que fosse dessa forma. Dou muito valor à vida que tivemos juntos e ao que construímos um no outro. Fomos essenciais um para o outro, de formas diferentes, mas sinceras. Tenho orgulho do que criastes em mim, assim como fico honrado ao reconhecer um pouco de mim em ti. Eu nunca quis que a gente se magoasse, porque merecemos a felicidade e a plenitude, tanto a que tivemos e sempre será só nossa, quanto a que nunca poderíamos viver juntos. Eu entendo que tantas coisas em nós são infinitas e que só pode haver carinho por aquelas coisas que são passado agora, mas confesso que você habita meus sonhos persistentemente, não só aqueles que tenho dormindo. 

Por vezes eu comecei essa carta e desisti, não sabia o que falar e não queria de forma alguma trazer à tona sensações ruins, porque o nosso fim foi muito amargo e hoje eu desejo que a sua lembrança de nós seja bela. Ainda não tenho certeza das palavras que estou escrevendo, mas não devo faltar com coragem por me faltarem razões. Sendo assim vou ocupar esses espaços com o que houver de bom.

Não foi fácil. Ainda não é. De qualquer forma eu continuei aquelas velhas batalhas, conquistei mais algumas coisas boas. Estou trilhando o meu caminho com foco. Não me destruí, mas não escondo os meus deslizes. Não te fiz promessas, mas ainda me serves de motivação pra ser uma pessoa melhor, pelo respeito ao seu papel na minha vida. Fui feliz quando pude. Não quero compartilhar minhas angústias contigo, vou apenas resumir que tenho passado por alguns problemas, que você já conhece, e tenho encontrado certa dificuldade em alguns momentos. As vezes desejo tanto o seu apoio e o seu colo, que até penso que não conseguirei mais nada sem ti, mas não me entrego e, quando posso, faço o meu melhor.

Não tenho tido notícias suas, o que tem sido uma tristeza calculada e necessária, mas rezo por ti todas as noites e te desejo do fundo do meu coração a felicidade e as realizações que você merece. Extendo esse desejo à sua família também, a cada uma dessas pessoas que foram parte da minha vida e que também me fazem falta, de formas inexpressáveis. Apenas tenho acesso à fragmentos de suas alegrias e me traz satisfação ver que estás rodeada de pessoas que te amam e querem apenas o seu bem.

Sinto necessidade de dizer algumas coisas por mim e por você. Não te culpo por nada do que aconteceu e perdôo cada uma das suas falhas. Reconheço meus erros e te peço perdão. Disse coisas que não eram verdades e expressei sentimentos confusos, porque nem sempre eu soube o que fazer. Tudo o que vivemos foi novo pra mim, hoje eu estou mais preparado pra agir de forma mais madura perante situações adversas. Também quero que não se sinta mal por ler outras coisas que tenho escrito, apenas entenda que nem todos os dias foram fáceis e que em alguns momentos a necessidade de te ter por perto se transformava em desespero. É importante dizer também que te entendo e te amo precisamente da forma como és e não julgo suas escolhas, te quero genuinamente feliz e se isso já não pode me incluir, já me conforta saber que por vezes fui eu quem te trouxe felicidade. Me dói, é claro, não fazer mais parte da sua vida e não saber o que o amanhã reserva para nós, mas me dói mais ainda pensar que as minhas últimas palavras pra você foram as piores que eu podia dizer. Então se nunca mais puder te dizer nada, desta carta poderás sempre tirar as melhoras palavras para o nosso final.

Há sete anos atrás eu conheci a pessoa que mudou a minha vida e isso é pra sempre. As relações são efêmeras, a gente também é, mas você é parte do que sou hoje, está estampada em pele e no coração que ainda bate diferente por você. Obrigado por ter compartilhado tantas histórias boas e ruins, nem todas as pessoas tem a chance de viver um amor tão forte quanto o que nós vivemos e isso já faz da vida um pouco mais valorosa. Não sei o que vamos viver daqui pra frente e se teremos a sorte de nos reencontrarmos, mas eu quero lembrar do nosso tempo com um sorriso e não guardá-lo para uma eventual reviravolta.

Portanto viva plenamente, seja assim desconcertante como és e experimente tudo o que te desperta o interesse. Felizes aqueles que estiverem em teu caminho, porque conhecerão a pessoa mais fantástica que eu tive o prazer de conhecer. Continue se amando e vivendo pela sua melhora, afinal de contas você é capaz e especial, com certeza vai alcançar coisas grandes e acredito que seus sonhos se realizarão. Desejo paz e felicidade, essa palavra que te persegue aonde quer que você vá. E quando as distrações faltarem ou a queda for maior que o vôo, lembra que o meu amor é seu e pode ser pra ti o que for mais conveniente. Não se resguarde por medo de me machucar, se precisar de mim estarei aí, assim como sempre estive, assim como sempre estarei. Eu te amo, do fundo do meu coração.

Sempre seu,
Merlin

Regressão

Num dia desses, há quase 24 anos atrás, eu tive uma conversa séria com duas pessoas. Eu mal as conhecia, mas sabia exatamente o que falar, porque naquela época eles precisavam me ouvir. Naquele dia eu sugeri uma hipótese, sugeri como seriam os próximos 24 anos.

No começo seria fácil, porque o que é novo ainda tem muito pra se estragar. Eles dariam alguns passos pra frente, mas sem notar precisamente aonda estavam pisando, e construiriam um frágil vínculo. No começo eles se enganariam, porque essa é época em que tudo é sedutor. No começo os acertos viriam, por acaso, mas algo se perderia, algo que passaria despercebido, algo que só viria à tona anos depois.

Os anos seguintes seriam mais baseados em crenças do que em fatos, as perspectivas e planos dariam lugar à necessidade cotidiana. Ainda haveria crença no amor e disso surgiria o primeiro filho. Como se o mundo se criasse de novo eles também se recriariam, amariam essa novidade em detrimento do que havia entre os dois.

De pouco em pouco a crença no amor se tornaria em amor à crença. A promessa do futuro já não seria mais tão sedutora e o filho seria a única coisa que eles teriam em comum. Só então eles conheceriam as facetas que não haviam notado um no outro, percebendo por fim que o súbito amor verdadeiro não passava de uma necessidade de tentar. Os anos passariam rapidamente, mas o erro permaneceria.

Um dia eles se olhariam desejando ser outras pessoas e enxergariam no outro a projeção do quanto haviam se degradado como pessoas. Nesse dia eles decidiriam que não havia mais formas de acreditar naqueles planos iniciais e que o que eles haviam construído deveria pertencer a outras pessoas. O filho se tornaria então o elo que sustentaria a convivência, mas ele jamais cumpriria esse papel.

Na briga final, um culparia o outro por todos os erros e nenhum enxergaria que um dos erros era o filho, evidenciando que os dois queriam manter o que havia de comum entre eles, mesmo sabendo que um dos lados dessa união seria detestável. A briga acabaria com eles. A briga acabaria com tudo, mas aquela pessoa que eles botaram no mundo prosseguiria, carregando o desrespeito que enxergou, sabendo que fora usado apenas como arma nessa guerra.

Anos depois a história já não seria sobre eles e sim sobre o que eles criaram, destruíram e deixaram de resto para que o filho carregasse. Essa pessoa escolheria nunca procurar os dois quando se sentisse inseguro, porque saberia que só aumentaria sua insegurança. Essa pessoas escolheria nunca se aproximar de verdade de nenhum dos dois. Essa pessoa escolheria nunca acolher nenhum dos dois. Até o dia que ele escolhesse que nenhum dos dois seria parte de sua vida.

Nesse momento os erros do passado voltariam e a dor que foi ignorada no calor do momento passado arderia como nunca. Eles se perguntariam o que tinha que ter sido diferente. Eles tentariam de tudo para desfazer o estrago, mas nada se mostraria eficiente.

Chegaria então a notícia de que a única coisa que havia em comum entre eles havia se matado, porque carregar o ódio de um pelo outro o fez odiar e por não ter alento no carinho que ele escolhera não receber, o único caminho que encontrou foi se perder. Não haveria meios para se encontrar.

Ao final da conversa, olhei bem no fundo dos olhos que ainda estavam atentos às possibilidades e ainda se desejavam a despeito do que eu havia contado. Apenas perguntei: é isso que vocês querem, sabendo de tudo que ele nunca vai querer?

Eles se separaram
E essa conversa nunca existiu

Contribuição

Hoje eu queria fazer diferente
Não expressar de forma clara o que pesa no meu peito
Não usar as palavras pra causar conforto ou alívio
Apenas usá-las

E dar valor à simples prática da escrita
Não porque eu preciso
Não pra me salvar
Apenas pra contribuir

Quem sabe eu levo isso pra minha vida
E nos dias mais difíceis, aceito
Levo o momento como prática
Nem tudo precisa ser sobre sentir

Concebo como um exercício
Que nem sempre é favorável
Mas que é tudo que existe
E apenas contribuo

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ensaio Sobre a Felicidade

Acordei outro dia sem perspectiva de colaboração, quero apenas que o universo me conceda uma saída rápida nessa linha reta da funcionabilidade. Levantei-me, porque deitado eu penso muito, preparei-me e então deitei de novo, agora sim era a hora de pensar. Arquitetei minha armadilha: me prendo nisso e vou buscando as chaves que sempre estiveram no meu bolso, porque o desafio é se convencer de sair do conforto e da segurança dessa melancolia. Como os velhos que já não fazem parte da vida, apenas se enquadram naquele momento que pode durar um dia ou 15 anos, aquele momento que tudo termina. Feito isso, me sentei diante da estante do desinteressante, agora vou contar a história sublime do que apropriei das histórias medíocres.


Aqui de dentro a vida parece mais tranquila. Não assumo compromissos, não me presto à reforma ou revolução, não me apego ao desenrolar do que é natural. Naturalidade para mim é enxergar de fora, porque eu vivo em um futuro calculado nesses horários tortos que me cabem. Por volta das 20 eu já sei o que fizeram, mas meu dia começou, minhas possibilidades são maiores porque as informações são frescas e eu acabo de concentrar minhas energias. Agora é só buscar a chave e sair do refúgio do escafandro. Vejo que ficou tarde, já não há o que fazer depois das 22h.


Como dá pra ser feliz com essa modalidade restrita de vida? Eu fui privado das vivências e enxergo com desconforto os passos dados que eu nunca poderia dar. Mas a escolha é minha, por que é que eu não a tomo?

Pause aqui pra entender o que você não entende. Já parou pra pensar que o que te fazem consumir consome você? Em um milhão de livros eu li mil finais felizes. A literatura morre assim que a última página vem, assim como aquela sensação de fazer parte do irreal. Vamos fazer o seguinte, escreve seu livro com atitudes.


Antes do final do dia, acordo em bares e percebo que há entusiasmo, há um papo sobre qualquer que seja a novidade da semana, talvez da semana passada, eu me confundo nessas linhas cronológicas. Eu tenho um copo, eu tenho um maço, eu tenho voz e os outros tem ouvidos, agora sim posso contar a minha história mais sublime.


O que é a felicidade pros senhores? Devo perguntar isso em voz alta ou esperar as respostas das entrelinhas? Vou abrir a porta, porque tudo isso só funciona se o acesso é liberado. Felicidade é subjetivo, mas não deveria ser. Felicidade é convencionado. Culturalmente, por centenas de anos, a gente vem aceitando que uma única função cumprida é o suficiente pra dormir bem nas várias noites. Comprar seu carro, pagar suas contas, chegar no fim do mês com o sorriso do alívio, por que você confunde isso com felicidade? Trabalhar duro por tantos anos, construir a sua família com essa mesma ideologia. Diversas gerações de homens mecânicos, cumprindo o preestabelecido acordo que você assinou quando assinou seus documentos. Você é só um número, rapaz, e já que gosta de número, vamos conversar sobre a sua conta bancária. Ela compra o que mesmo? Ah é, compra seu carro, paga suas contas e quando chega o fim do mês você é feliz ou aliviado?


A gente tem perdido momentos únicos de 9 às 18, pra ter apenas momentos corriqueiros. Ficar feliz com o novo computador, achar o máximo essa impressora que é scanner, o ar condicionado, o novo software que vai facilitar a sua vida. Faz o seguinte, pega esse conhecimento prático, cria o software que vai mudar sua vida. Das 18 às 22 o que é que você realmente é? Já não é funcionário do expediente, mas será que o expediente saiu? Não, querido, você agora é funcionário de um expediente mais complexo, eu chamo ele de existência, mas você que trabalha tanto, pode só chamar de tédio, a gente vai compreender.


Enquanto isso, eu acordo as quatro, infeliz e livre, talvez a leitura correta seja incompleto e só, mas quem vai me dar essa resposta. Os dias bons vão me dizer que a felicidade está exatamente no copo, no maço, na voz e nos ouvidos, os dias ruins vão me dizer que a felicidade está nos travesseiros, os outros dias dizem nada, mas por que? A gente não precisa se desesperar na busca do futuro, não, a gente precisa se centrar no futuro do passado. Sem clichês, por favor. Claro que é clichê, mas as melhores frases não são? Me diz os seus objetivos e lemas, você acha que tudo isso é só seu?


Tudo isso é corriqueiro, sabe? Se você trabalhasse menos e se afastasse do que a sociedade te oferece, escolheria o meio fio em frente à praça à qualquer televisão de plasma de um milhão de polegadas, até porque em nenhum canal eles vão transmitir o meio fio, mas em todos eles a televisão de plasma estará bem visível. Tudo isso é o que a gente não aceita, porque a sociedade não aceita, o outro, aquele outro bem próximo de ti, vai pedir sua companhia no boteco e eu ainda não conheci nenhum meio fio que pagasse um salário. A gente tem que arcar com as contas, porque se não elas vão arcar com a gente, companheiro.


Então o que é felicidade? Nada
Felicidade é saber que nada disso faz sentido, porque não precisa fazer. Vamos transferir o significado das coisas pras gavetas e buscar o significante, tem que ter algum motivo pra isso funcionar tão bem, não é? Isso não é um texto político, não quero incitar revoltas e nem apontar o sistema como o nêmesis da vida plena, não. Só quero entender porque é que a gente se prende ao alívio como felicidade recorrente.

São só momentos, no final das contas, a vida tá cheia deles. É possível ser feliz em alguns, mas só se de cada um deles, você conseguir elaborar um verso.

Cartas Marcadas

Fiz um apanhado de tudo o que eu pensava que era, transformei isso em um espelho, pra que eu pudesse refletir por todos os ângulos. Ainda assim eu não consigo imaginar onde estou em tudo isso.

Perceba o que eu venho percebendo: A tinta nas paredes tem algum propósito, talvez elas estejam lá pra te mostrar que sua vida só pode ter um punhado de cores. Eu escolhi viver isso de forma diferente. Usei outras tintas pra tingir os meus limites e deixei claro para minha insubordinação inconsciente de que o que as tintas dizem nada ao meu respeito. O que está aqui escrito nas paredes é só um grito que as paredes precisavam dar, porque os meus não seriam ouvidos.

Ainda assim eu as escuto, ainda assim eu as concebo como companheiras nos momentos abstratos. Estou rindo e chorando, porque os meus sentimentos pertencem a outras dimensões agora, isso significa pouco mais que nada pra quem lê e quase tudo que é possível para quem escreve.

Essa é a minha droga, esse é o meu vício, essa a minha fraqueza. As palavras na parede são o sinal de onde eu queria estar, em um momento congelado no espaço tempo, visível apenas para quem tem alma pra compreender a magnitude do que optei por silenciar. Meu silêncio raro é a manifestação de que o surto tomou conta.

Meias palavras me causam atitudes reais, meias verdades me propõe verdades reais, meias promessas me geram expectativas concretas. Nada disso é paupável, eu sei. Do vasto campo insólito da feira de sensações, eu gastei tudo o que tinha em uma única cartada, será que devia ter distribuído melhor as experiências? Eu não sei do que eu não vivi, eu não sou o que eu não pude ser, eu não meço os passos que deixei de dar, mas tudo isso está aqui em alguma parte da minha estrutura.

Mecanicamente eu ainda uso das tintas pra enfeitar minha penitência, cada uma delas é a redenção de algum pecado.

Na teoria eu devia estar tentando atingir alguém com esse lirismo, mas de tudo sobrou cinismo e eu nunca soube me conter. Quero me atingir, quero me mostrar que dói mesmo, quero me fazer lembrar todos os dias desses fragmentos de realidade que eu deveria ter desmantelado em possibilidades boas, era tudo tão propício, mas era tudo duvidoso. Eu optei por ter conteúdo pra construção, disso venho construindo epopéias frágeis em castelos de cartas, todas elas me deixam ser coringa, todas elas me deixam ser quem quer que eu possa ser... nenhuma delas aceitou minha marcação. Acho que de cartas marcadas basta essas do destino, né?

O branco não é mais branco agora, ele foi manchado por azul e preto
O branco não é mais branco agora, ele foi manchado por mim.

domingo, 10 de abril de 2016

Teoria

Eu tenho uma teoria
A gente vem buscando as respostas pras perguntas erradas
Vem se encontrando em tanta estrada que já nem sabe onde ir
E as conversas pelos bares e os amigos e as risadas?
Quanta diferença damos ao que nos pode diferir?

Se busco apenas minha glória, quanto eu deixo passar?
E se buscar felicidade, quando compreendo o acerto?
Quanta alegria vai embora, o que iremos vivenciar
Enquanto nos degradamos na procura de um conceito?

Eu vivi por muitos anos aceitando o sofrimento
Achando que o melhor de mim era o melhor que eu conseguia
Hoje sei que o meu melhor é o que me traz melhora
Perdi muito de mim apenas por não estar atento
Fui formulando minhas propostas, deixei tudo em teoria
Enfim eu me entendi, felicidade eu quero agora

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Presença

Outro dia a gente a gente começou uma história incerta, senhorita. Há pouco mais que nada que descreva o que a gente representa, toda sorte de obstáculo se coloca entre a gente e pra nós resta o azar de sermos apenas o que somos, não é mesmo? Dentre todas as palavras que eu conheço e as frases que posso formular, talvez nenhuma diga exatamente o que eu quero descrever, das sensações que a gente se causa. Mas há algo além.

É engraçado saber das tuas angústias, é curioso adentrar a sua vida, porque em tudo isso eu vejo muito de mim mesmo. Eu sei que foi difícil para você, você sabe que é difícil para mim. Eu sei que você se fecha ao mesmo tempo que eu me abro e que quando as palavras me sobram as reações te faltam, mas os olhos fixos dessa fotografia em nossa conversa ainda me dizem muito, quase tanto quanto o teu silêncio. 

Pois bem, como em qualquer outra noite eu procuro o teu conforto. Sei bem que você me causa um bem inconveniente, mas por que é que a gente se distancia quando pode se aproximar? Eu te peço paciência, pois sei que vale a pena gastar algum tempo com estas palavras, porque somando e dividindo esforços, quem está gastando o tempo na verdade sou eu. 

Do que vale o charme e o sexo? Muito menos do que a empatia, eu tenho em tua companhia a impressão de que vem mais. Eu queria explicar exatamente o que me causas, o que me move a ser ouvinte das tristezas de outrora. Eu te entendo, minha querida, eu estive onde estivestes e sei bem que na verdade tu és muito mais que mostras. 

Eu só queria a tua presença, porque tudo intensifica. Se é só usar do clima e me atrever a ser mais, então me deixa aproximar e aceita que a vida é feita disso, De um bocado de tristezas e um punhado de alegrias, permeada exatamente pelas vidas e mortes que você descreve sem descrição, característica mais comum desse teu lado de poucas palavras.

Poucas e suficientes, pra eu saber que é isso mesmo, você já está aqui.

domingo, 3 de abril de 2016

Soneto Sobre Qualquer Coisa

O que está acontecendo comigo?
Onde foi que eu estraguei tudo?
Quando é que isso vai fazer sentido?
Quando é que eu realmente mudo?

Quando é que os dias prosseguem normalmente?
Como faço pra acabar com o que acaba comigo?
O que foi que eu consegui com meu jeito persistente?
Como transformar esse presente em caso antigo?

Mil sonetos não conseguem me tirar desse soneto
Mil poemas não irão resolver o que há de errado
Se eu escrevo outra carta pra quem é que a destino?
Tudo isso é tão errado, mas no fundo não tem jeito
Vou vivendo no presente me afundando no passado
Porque só o que eu entendo é que não sei pra onde estou indo