Histórias passadas de coisas não tão passadas assim

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Reticências


Doce vagar de lembranças
De tudo aquilo que poderia ser
Mas não foi.

Apenas em minha mente as cenas são reais
Uma felicidade conquistada em penosas mentiras
Ilusões que neblinam meus olhos

Mas não há tempo que volte, amor
E o meu presente já faz parte de mim
Espero que ainda me aceites assim,
Com algumas rugas a mais 

Laços


Contínuo amanhecer
E mais uma vez você deixa seus rastros
No travesseiro, nos lençóis, nos meus sonhos
Sinto sua presença na xícara vazia de café
Sim, vou enlouquecendo aos poucos

Vejo-me sendo apagada de seus pensamentos
Com um sofrido esforço em vão
Permaneço viva no seu olhar
Essa imagem te persegue em todos os becos
Com tentativas fracassadas de afogá-la
Confesse, ela é o que mantém o brilho
Que em lágrimas desaparece

Passado em entrelaço
Presente em descaso
Futuro à espera de um abraço

Devaneios


Cálida noite que me desalenta nesta profunda insônia
Deixando em meus olhos as marcas de sua represália
Não, não me arranques lágrimas que acusam minha culpa
Minha presença já é uma denúncia.

A vida que ainda vaga o seu corpo
Se esgarceia em busca do calor que emana da minha boca

Busque no amor que transbordava
Um alimento para sua alma desesperançosa
Pois minha estrada ainda está em curvas.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Despertar de Domingo

E do nosso sonho sobrou só o despertar
Abrir os olhos de manhã e ver você sorrindo
Você diz que sou louco por não querer mais sonhar
Mas não quero gastar o nosso tempo dormindo

E essa cama aqui é nossa, meu armário já é seu
Lá embaixo a mesa posta, chá pra quem adoeceu
Cura a gripe e alergia, só pra saudade não da fim
Pra resolver isso eu espero que você volte pra mim

Traga dores e dilemas, o que, em seu coração, couber
Traga retratos e problemas, traga tudo o que puder
Espero que só venhas e nunca tenha que voltar

Traga os quadros das paredes e os filmes que não viu
Traga as alegrias velhas e os medos que já sentiu
Só não traga o seu relógio, pro nosso tempo não passar

terça-feira, 24 de abril de 2012

Auto Abstrato

Já era tarde no meu mundo particular. Parecia que a única luz que eu ainda podia usar como guia, era a luz da tela do meu computador.... E nessas horas tudo é muito grande, tudo é muito pesado. Nunca vou saber ao certo o que me motivou durante todos aqueles meses ruins, que pareciam nunca acabar. Eu nunca soube ao certo o que você queria... eu nunca sei ao certo o que você quer.

 Qual é a graça de uma carta que nunca chega ao destinatário? Pois essa é a utilidade de cada uma de minhas palavras... Palavras que escorrem dos meus dedos até os teus olhos. De que vale o mais sincero descarrego em forma poético, se no final das contas a prosa sempre vai tratar dos mesmos assuntos? Era assim que eu via a gente, pois nada do que eu dizia parecia chegar a você. Se porventura chegasse, não chegaria a mente, cristalizaria nos seus olhos fortes.

 Mas nessas horas tudo é muito grande, mal cabe dentro de mim. É difícil segurar sentimentos que não parecem mais ser seus. Toda essa desconfiança que veio contigo de brinde, isso não era pra ser meu. Essa descrença em palavras tão belas. Poderia ser mais triste? Eu esperei anos para conhecer o que você guardava dentro dessa fortaleza que trazes no peito e de repente, as certezas mais bonitas da minha juventude parecem lendas. Companheirismo, lealdade... De onde veio esse amor tão vago?

  Eu fechei meus olhos e esperei que tudo ao meu redor sumisse. Eu queria poder queimar cidades só para reconstruí-las ao meu modo... Eu queria pintar um quadro, escrever um livro, cantar uma música que você não ouvisse. Eu só queria que você pudesse sentir tudo o que eu sinto. Eu queria desconstruir um mito e ver se há amor em algum lugar fora de mim.

sábado, 14 de abril de 2012

Caravelas

"Cheguei a meio da vida já cansada
De tanto caminhar! Já me perdi!
De um estranho país que nunca vi
Sou neste mundo imenso a exilada.

Tanto tenho aprendido e não sei nada.
E as torres de marfim que construí
Em trágica loucura as destruí
Por minhas próprias mãos de malfadada!

Se eu sempre fui assim este Mar morto:
Mar sem marés, sem vagas e sem porto
Onde velas de sonhos se rasgaram!

Caravelas doiradas a bailar...
Ai quem me dera as que eu deitei ao Mar!
As que eu lancei à vida, e não voltaram!..."

Florbela Espanca