Histórias passadas de coisas não tão passadas assim

quinta-feira, 5 de maio de 2016

Pedaços

Foram muitos pensamentos que me trouxeram a este ofício de hoje. Mais uma vez tenho a sensação de que a obra que deixarei para a posteridade é puramente a obra que tenho vivido. Talvez eu seja apenas uma pessoa que observa os fatos e tenta não tirar o pior deles, mas acabo falhando quando devo enxergar o que há de bom. Isso tudo é o que sou, um ser difícil, mas que tenta constantemente ser melhor do que foi outrora.

Hoje o dia está bonito, da janela do meu quarto eu vejo um horizonte diferenciado dos demais. É fácil me tranquilizar quando as folhas das árvores tremulam calmamente e o céu tem um tom cinza amarelado de mais um pôr do sol que assisto na plenitude solitária de minha atualidade. Muita gente se preocupa comigo ultimamente, mas eu estou bem. Não sei dizer o que mudou, não sei evidenciar qual é a causa da minha paz, também não penso mais com tanta frequência na minha essência melancólica e nos meus olhos cansados, apenas durmo bem e anoto os sonhos pra recordação.

Eu não sei o que a vida me reserva, não sei quando é que vou me provar que estou certo. Não tenho tido muitas necessidades, portanto fica fácil atingir uma completude de corpo, alma e mentalidade. Este não é mais um momento triste em que eu tento inconscientemente eternizar minha amargura. Com o tempo eu notei que o escritor é responsável pela imortalidade das emoção e das vivências que descreve. Eu aceitei a condição de que a gente segue em frente e que nada no mundo vai trazer de volta as coisas que eu queria reviver, sendo assim, escolho não mais tratar minhas dores  nessa escrita autoterapêutica, escolhi tratar daquilo que eu não sei bem se entendo.

Francamente, por que eu me cobro tanto uma compreensão que não significa nada além de momento? Eu conheço as consequências de meus atos há muito tempo, conheço minhas responsabilidades e sei bem que meus estímulos são simplórios, não há razão de me prender a esta fase transitória. Eu tenho me proposto tanta coisa interessante e tenho alcançado igualmente tanta coisa, por que é que eu ainda me sinto tão pouco nesse mundo? As pessoas me chamam em outros cantos, em vão não responderei, porque essas pessoas estão vivendo bem e eu não sei se quero contribuir com estragos. Sozinho a vida é simples, tudo depende apenas de minhas mãos, tudo depende apenas dos meus pés, tudo depende apenas de minha mente, eu estou bem assim. 

Todavia eu não entendo muito bem qual é o propósito dessa felicidade solitária, afinal de contas eu sou só sorrisos quando estou em meio aos meus iguais, aos meus irmãos, aos meus amigos, aqueles que são a razão maior de minha mudança. Várias vezes eu ouvi de várias bocas que eu deveria me amar, deveria ser feliz comigo mesmo, deveria me bastar. Hoje eu entendo um pouco mais o que eles queriam dizer, mas entendo melhor ainda que eles nunca conseguiram enxergar por detrás do véu de minhas dependências e depressões. Eu sempre fui feliz comigo mesmo, eu sempre me bastei, eu sempre me achei muito melhor do que me portava diante dos outros, mas o vício por afeto e carinho e a melancolia me fizeram aceitar que toda tristeza era recompensada com outro belo pôr do sol, que era bonito sentir demais, porque quem sente muita tristeza também pode sentir muito amor. Quanto amor eu sinto? Jamais entenderei. Apenas entendo que isso nunca dependeu da tristeza e do sofrimento que eu aceitei viver. Contudo, sempre me bastei e sempre me senti bem comigo mesmo, quando possível, não vim aqui ser hipócrita defendendo que um homem é feliz consigo mesmo a qualquer instante. Guardo minha hipocrisia para outra situação.

Se eu nunca mais serei aquele que fui nos últimos anos, talvez agora seja a hora de começar a desenhar aquele que serei nos próximos. A automedicação que me proponho é mais um verso, é com isso que irei contribuir. Aqueles que eu amei e aqueles que eu amo nunca irão morrer, pois estarão sempre guardados aqui neste recanto, neste pequeno templo de recordações quentes e lágrimas frias, neste arquivo daquilo que já não interessa mais, mas que interessou o suficiente para se tornar um pedaço de mim. Um pedaço que deixo aqui.

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