Eterno arquivo do que já não interessa
Vazio Infinito

quinta-feira, 30 de junho de 2011

Recordação

Eu sei que não mereço nada
Não quero pena ou compaixão
Se minha escolha foi errada
Foi errada de coração

Sei que já não somos nada
Além do peso da recordação
Talvez nessa página virada
Haja enfim pontuação

Eu sento só, de frente à porta
E espero o que não vem
Sei bem que não lhe importa
Mas sem você não há nada bem

E eu me guardo, tranco a porta
Nego o poder que o tempo tem
Sei o quanto isso me importa
E que sem isso eu sou ninguém

domingo, 26 de junho de 2011

Epifania

Olha só... Amanheceu de novo e você não está aqui, mas eu estou. O tempo da tristeza não acabou, eu sei, mas dessa vez eu não vou olhar pro teto lembrando o quanto você me faz falta. Não. Já chega dessa tragédia grega que eu criei pra mim. Já chega de me esconder da tempestade embaixo das suas fotos, você não vai me proteger de nada.

Só eu sei o quanto dói e, acredite, dói muito, mas tudo o que eu fiz durante esse tempo foi piorar as coisas. Enquanto eu lamentava pelo tanto que eu tinha perdido, nunca lembrei de agradecer pelo quanto eu ganhei. Enquanto eu chorava pela sua partida, nunca percebi que algumas pessoas se entristeciam pela minha ausência. Hoje eu percebi que não vou ganhar nada se ficar sentado esperando que você se arrependa e volte pra mim correndo. Percebi que a dor não vai passar se eu me conformar com ela.

Talvez eu goste muito de tudo isso. Talvez eu adore sentir toda essa angústia e melancolia, só pra depois poder falar que sofri por sua causa. Não, isso não mostra que eu te amo, só mostra o quanto eu dependo de você. Eu não preciso estar deprimido só pra que a poesia pareça mais sincera.

Tudo o que aconteceu me marcou muito, e isso é pra sempre, mas tudo que vem tem sua razão e agora eu já sei o que vale a pena viver e quando vale a pena parar.

Mas agora chega de lamentações. Eu sei que não posso fazer mais nada em relação a nós, além de me sentir triste pelo fim, mas o mundo é grande e espera pelo meu recomeço... E eu não estou sozinho, em momento algum.

sábado, 18 de junho de 2011

Desmoronado

Hoje eu morri duas vezes... ainda assim, não foi o suficiente. Eu gosto é de sentir na carne as tuas garras, de sentir na pele toda a dor que isso pode me causar. Eu gosto é de gravar as tuas palavras pra motivar as minhas tragédias. Eu gosto é de saborear a dor, sabendo que é só isso que você pode me dar. Eu gosto de viver cada uma das tuas torturas, pra no final saber que sem você eu me torturo sozinho.

Hoje eu morri duas vezes. A primeira foi acordar, sem nem ao menos ter dormido, sozinho na cama que também era sua e lembrar que você foi embora por escolha, levando cada pedaço de mim, até mesmo os que eu nem mesmo sabia que tinha. Me cortei inteiro ouvindo as palavras que eram pra mim sendo ditas pra qualquer pessoa. Eu me joguei de um precipício e só o que enxerguei foi o seu rosto no chão. Não há escapatória de você, pois não há fuga de mim mesmo.

Hoje eu morri duas vezes. A segunda foi ir embora sem um toque, um beijo, um desejo de boa noite. Sentir o soco que foi a tua despedida tão singela, tão incerta que eu nem mesmo sei se foi pra mim. Me sentir sozinho numa estrada sem retorno e sem sentido e não poder nem ao menos te ligar pra sentir qualquer traço de segurança que existe na sua voz. Sentir o conforto que só as suas palavras causam. Sentir qualquer coisa que não seja essa culpa pelo que eu nem fiz. Sentir o peso de voltar a simplesmente existir no mundo, qualquer mundo que você não está.

Te amar dói, muito. Muito mais do que qualquer coisa que eu já tenha sentido. Jurei pra mim mesmo que nada poderia ser maior do que meu amor, mas me enganei da pior maneira possível ao sentir tudo isso, como um tiro que vem, me rasga e ao sair, ainda me deixa sangrando até a morte, porque foi a isso que você me condenou, sentir toda a dor que você poderia me causar e ainda me deixar sem ti, nem mesmo dentro do meu corpo.

Você infestou minha mente com tantas lembranças boas, só pra ir embora e não me deixar te esquecer nunca? Você me fez alimentar esse monstro que era esse maldito sentimento, só pra que no final a minha própria criação me devorasse? E agora, me pede pra ficar, só pra lhe desejar bons sonhos, como um escravo sem coração, cabeça ou destino.

Hoje eu te amo com tudo o que não posso, com tudo o que não tenho. Eu te amo com tudo o que não sou (e talvez nunca tenha sido). Hoje eu te odeio por não conseguir nutrir nada por ti além de amor, nem mesmo esse falso ódio. Hoje eu me odeio por te desejar tanto e de tantas formas, mas nunca poder te ter de um jeito que me faça feliz ou ao menos bem. Eu me culpo por ser quem sou. Detesto esse coração que teima em continuar. Detesto esses olhos que secaram. Detesto essas mãos que não sentem nada além da sua pele. Detesto esse homem que deixou de existir longe de você. Detesto esse homem que começa a surgir dentro de mim, apenas pra ocupar espaços... o espaço que eu deixei em mim e o vazio que você criou.

Não há destino mais incerto do que esse.
Não há futuro que pareça mais triste.
Não há passado que marque mais do que esse.
Não há presente. Agora nada mais existe...
Além de dor e você, longe, mas infelizmente presente

domingo, 12 de junho de 2011

Considerações Finais

Eu sigo só, daqui pra frente
Sem saber pra onde, sem saber por quê
Já que o que quero se esconde em você
Já que só queres o que não sente...

A gente se repete, é sempre assim
Tanto amor é muito pouco, é quase nada
Eu sempre louco e você sempre errada
Essa é a conclusão de todo fim...

E a gente se machuca até cansar
E a gente sempre sofre sem cessar
Mas é certo que amanhã é outro dia

Nosso tempo era curto e já passou
Você foi embora e minha dor ficou
E o amor está repleto de agonia

segunda-feira, 6 de junho de 2011

As Mesmas Rimas

Esse é o outono mais frio que eu já vivi
Lá fora as coisas parecem tão mortas, tão secas


Eu não sei se minha janela se transformou em um espelho
Eu olho pra fora do meu quarto, tentando sair de mim mesmo
E só vejo a minha tristeza
Estampada em cada rosto que se aproxima.

Talvez não consiga ver além de mim, talvez seja meu desejo
Ou talvez queira mesmo fugir disso tudo, pra caminhando a esmo
Chegar sempre àquela certeza
De que você vai estar em cada rima...

Tabacaria

"Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.
Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
E não tivesse mais irmandade com as coisas
Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
De dentro da minha cabeça,
E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.
Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.
Falhei em tudo.
Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
A aprendizagem que me deram,
Desci dela pela janela das traseiras da casa.
Fui até ao campo com grandes propósitos.
Mas lá encontrei só ervas e árvores,
E quando havia gente era igual à outra.
Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?
Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
Gênio? Neste momento
Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
Não, não creio em mim.
Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
Não, nem em mim...
Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
E quem sabe se realizáveis,
Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
Ainda que não more nela;
Serei sempre o que não nasceu para isso;
Serei sempre só o que tinha qualidades;
Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
Crer em mim? Não, nem em nada.
Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
Escravos cardíacos das estrelas,
Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
Mas acordamos e ele é opaco,
Levantamo-nos e ele é alheio,
Saímos de casa e ele é a terra inteira,
Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.
(Come chocolates, pequena;
Come chocolates!
Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
Come, pequena suja, come!
Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)
Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
A caligrafia rápida destes versos,
Pórtico partido para o Impossível.
Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
E fico em casa sem camisa.
(Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
Meu coração é um balde despejado.
Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
A mim mesmo e não encontro nada.
Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
Vejo os cães que também existem,
E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)
Vivi, estudei, amei e até cri,
E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
(Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente
Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.
Essência musical dos meus versos inúteis,
Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
Como um tapete em que um bêbado tropeça
Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.
Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
E com o desconforto da alma mal-entendendo.
Ele morrerá e eu morrerei.
Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
E a língua em que foram escritos os versos.
Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,
Sempre uma coisa defronte da outra,
Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
Sempre o impossível tão estúpido como o real,
Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.
Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.
Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
Sigo o fumo como uma rota própria,
E gozo, num momento sensitivo e competente,
A libertação de todas as especulações
E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.
Depois deito-me para trás na cadeira
E continuo fumando.
Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.
(Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
Talvez fosse feliz.)
Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
(O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu."

Fernando Pessoa

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Epitáfio

Eu já não entendo mais nada.
Não vejo sentido nenhum nessa tristeza toda que me caracteriza. Eu olho no espelho e vejo um olhar vazio e o resto é a pura falta de expressão. Só sei que sinto... tristeza, amargura, frustração, decepção. Não sei mais como resolver tudo isso. Não sei mais o que tenho que resolver.

Sabe, não tem nada mais triste do que se deitar de noite e não ver sentido nenhum em nada do que aconteceu durante o dia. Não tem nada mais doloroso do que ver que seus próprios amigos não entendem a tua dor e, contraditoriamente, ter que concordar com todas as palavras que julgam tudo como drama e exagero. Não há nada mais frustrante do que acordar todos os dias esperando uma ligação que nunca vem, uma mensagem que nunca chega... algum traço de vontade, que a cada dia impõe-se mais e mais inexistente. Não existe decepção maior do que não se reconhecer nas próprias atitudes. Eu não me vejo mais aqui. Não há amargura maior do que ver tantos retratos onde tudo o que se percebe é um espaço ao meu lado. Eu não te vejo mais ao meu lado, meu amor.

Eu não sei mais se quero e espero, pois querer sozinho é muito pouco pra mim.

Não posso invadir a tua vida da forma como, obsessivamente, eu quero. Não posso controlar essa vontade doentia de te ter todos os dias. Não vejo mais solução pra o que eu costumava chamar de "nós dois", pois hoje é muito claro que não há nem mesmo solução pra mim.

Eu queria muito poder acreditar em todas as suas palavras, mas não posso.
Eu queria poder apagar do seu passado tudo o que me faz terrivelmente mal, mas não posso... E se pudesse não teria o direito. Eu não tenho o direito de mudá-la pra que me queira da forma como lhe quero e não tenho o poder de aguentar a forma como me queres.

É terrível ver como isso impregnou a minha rotina. Não há frase sem sentido ou sorriso passageiro que não me lembre você. Não há nenhuma dura pena ou cruel sentença que não pareça pequena perto do que me pedes. Não há eternidade que não pareça minutos perto dessa espera incerta. Não há beleza alguma em qualquer coisa que exista se não houver a minha única alegria imensurável, que é o teu simples toque ou qualquer palavra dirigida a mim, que venha para bem ou para mal.

Agora eu apelo pro papel, pois não há ser que não tenha ouvido estes lamentos.
Talvez tudo isso passe em branco, mas uma carta não entregue tem muito mais significado do que uma carta nunca escrita.