Eterno arquivo do que já não interessa
Vazio Infinito

domingo, 27 de março de 2016

Breve

Um dia as coisas ficam mais fáceis
Os fardos ficam mais leves
E a gente se pega fazendo planos
Para futuros mais breves

sexta-feira, 25 de março de 2016

Fantasmas

E então do nada todos os fantasmas se reúnem. Todos os monstros que eu guardo nas gavetas e nas sombras de minha vida surgem, como se precisassem me dizer alguma coisa, mas nunca dizem, nunca tenho uma resposta. São só os mesmos fantasmas de todas as noites, são só as mesmas angústias de todas as noites. Parece que isso nunca vai terminar.

Todos os seres se agrupam, apontam para a minha fraqueza e me condenam, todos eles se divertem com a minha dor, ou será que eles são a dor em si? Já é tão difícil ter qualquer certeza. As noites tem sido mais longas, as manhãs tem sido mais frias. O sol parece mais fraco, será que a cor de tudo foi embora junto com as suas cores?

Eu só queria a tua proteção, me deitar contigo e saber que nada poderia me acontecer, pois com você as coisas fazem sentido. Hoje em dia nada parece ter porquê, nada parece ter final, é sempre tudo a mesma coisa, é sempre tudo a mesma cópia. Cadê você na minha vida quando eu preciso tanto? Mais uma vez é quando a dificuldade grita que eu perco o teu auxílio. Quando é que eu vou me acostumar?

De onde é que eu tirava forças pra sustentar-me até o fim da noite? No que mesmo eu me segurava quando os dias perdiam o propósito? Eu perdi tudo isso de repente, agora só tenho esses fantasmas, que nem mesmo oferecem companhia, apenas aumentam essa maldita solidão. É tão difícil sentir algum prazer, gozar da escolha que eu me impus, me alegrar pela coragem que eu pretendo... Nem sei ao certo se fui eu quem tomei uma atitude, só sei que o peso desses anos ficou aqui e eu tenho os arrastado para onde quer que eu vá.

E outra vez eu vou te culpar por tudo isso, outra vez eu te transformo no monstro que me assombra, porque eu já não consigo te encaixar em outro aspecto de minha vida. Outra vez eu vou fingir que nada disso é necessário, que é apenas outra falha que tu teimas cometer. Outra vez eu vou mentir para os fantasmas no meu quarto, porque tudo no espelho é um pouco vulnerável e eu já nem consigo garantir a minha própria sanidade.

Os fantasmas se reúnem, eles sempre estão aqui.

segunda-feira, 21 de março de 2016

Vertigens e Torturas

Proponho-me vôos mais altos e caminhos mais vastos
Mil maneiras para observar a plenitude da queda
Mantendo ciência na mente de tudo o que peito hospeda
E os punhos contidos em espaços que não foram gastos

Tecendo centenas de versos, criando milhares de prosas
Sentindo a vertigem que bate quando o vôo decola
Não dá mais pra olhar trás, não dá pra voltar agora
Transformo meus versos em verbos e as prosas em provas

Torturo o meu coração, adoeço dia após dia
Mas há de chegar outro tempo, em que tudo pareça mais justo
Esse é o cotidiano de quem vive apenas do susto
Ter horas de tranquilidade, horas de pura agonia

Haverão mais vertigens e torturas, é claro que sim
Por enquanto eu apenas risco alguns nomes da lista
Por enquanto eu apenas tiro alguns rostos de vista
Por enquanto eu apenas prefiro assim

sexta-feira, 18 de março de 2016

Libertação

Eu tenho pensado muito na morte e em como todas as coisas devem acabar. Tenho virado noites calculando qual dor é mais suportável e pareço estar cada vez mais perto de qualquer resposta. As coisas ao meu redor seguem com naturalidade e eu ainda estou preso em tantos sentimentos passados. será que eu realmente sou um fardo? Será que eu realmente quero tudo isso?

Venho escrevendo notas suicidas imaginárias há muito tempo, guardando o pouco de coragem que me sobra para tomar uma decisão. Eu só queria não estar mais aqui, eu só queria não ter que continuar com nenhuma dessas coisas que me machucam tanto. As minhas escolhas de toda a vida se voltaram contra mim e eu realmente já não tenho forças para travar essa batalha comigo mesmo. Veja bem, a vida acaba hora ou outra, não há tranquilidade nessa passagem, é sempre o fim pra um e o luto para os outros, mas na minha vida parece que o luto já vem sendo sentido, devido ao peso que eu imponho nas minhas próprias relações.

Não tenho mais vontade de me levantar da cama, não tenho mais vontade de sair à luz do sol. Eu me deito e puxo as cobertas com a sensação de derrota: abri mão da única coisa que me fazia feliz, por mais que já não me fizesse bem. Irônico, não? Se eu continuar, enlouqueço, se eu desistir, me mato. Os dois caminhos levam ao fim, tudo está claro então.

E a dor nesses momentos chega a ser física, a solidão parece que dói nos ossos. Lembrar do que foi bom e desejar tudo isso de novo me consome. Eu tenho lutado como nunca pela minha própria sanidade, eu tenho levantado todos os dias e tentado ter um dia agradável até o fim de tudo. Mas também tenho carregado no peito uma culpa imensa, de não ter mais forças para tentar ser o melhor que eu podia ser por você, porque você já não quer isso, você só quer que eu cumpra o meu papel, silenciosamente, com a calma com que você pisa nos meus sonhos.

No mais, de quem mais poderia ser a culpa? Muita gente esteve do meu lado durante esses anos, muita gente quis ajudar. Eu infelizmente não consigo dar valor para essas coisas, porque o meu desprezo pelo que se vive aqui é muito grande e eu nunca consegui ser eu mesmo diante dessas pessoas. A culpa não é de ninguém, todo mundo está correndo atrás da sua própria felicidade, desesperadamente, e em algum momento desse processo eu soltei a mão do grupo e fiquei pra trás. Em algum momento eu me perdi nisso e não sei mais se posso ser encontrado.

Estou sofrendo demais, não só pelas novidades, não só pelos rompimentos. Tenho sofrido demais por não ter mais forças para continuar, por nem mesmo querer ter forças para isso. Tenho sofrido demais pela consciência de que sou uma pessoa horrível e que até neste momento sente uma pontada de prazer em pensar no sofrimento dos outros. Tenho sofrido muito porque tantas chances me foram dadas e quantas delas eu quis agarrar? Agora, na última chance que tive, eu simplesmente virei as costas e pedi o esquecimento.

No esquecimento estou.

quinta-feira, 17 de março de 2016

Liberdade

Nenhum sinal de fumaça para essa noite. Nenhum alerta distante, nada vem de lugar nenhum. Apenas eu e as palavras que me acompanham há muito tempo. É assim que eu sou, me prendo às coisas e aos lugares, esperando que outras coisas e lugares me libertem posteriormente. Mas nada veio nessa noite, apenas as palavras que eu insisto em guardar, como companheiras ou carcereiras da minha própria solidão.

Eu construí coisas inabaláveis que caíram rápido demais e não soube desistir rápido demais das coisas frágeis. Eu me deixei levar e fui sendo levado por sentimentos que eu não deveria sentir, eu nunca quis ser tão vulverável e estar tão próximo da desistência. O fato é que nesse momento, eu apenas colho os frutos do que eu plantei, e o que eu plantei foram inúmeras ervas daninhas no meu próprio coração, que no momento não funciona como deveria, mas logo logo vai estar disposto e procurando a nova perdição. Mas dessa vez que seja nova.

Quantas vezes eu sustentei as coisas? Quantas vezes eu fui mais do que podia? Quantas vezes eu abri mão do que eu queria para ter o que meu coração desejava? Não, chega, dessa vez eu não posso mais ficar aqui assistindo minhas frustrações aumentarem. Eu não quero mais, eu não quero mais nada que remeta a isso. Não sinto mais nada, não desejo mais nada. Pela primeira vez a consciência do fim é tranquila e espero que ela me leve.

Se eu olhar por sobre os ombros e enxergar você na rua, apenas sigo em frente, porque tudo isso tem mesmo é que ficar pra trás. Eu amo ser livre, amo ser completo e amo ter minha vida pela frente, isso deve bastar de amor para o momento. Quanto a todas as outras coisas que ficaram, a gente queima. Essa é a única forma de me aquecer com alguma dessas lembranças.

Marco desse dia a ausência de sinais de fumaça. Não houve alertas e nem nada que viesse de lugar nenhum. As correntes se abriram porque eu forcei, o peso foi embora porque eu soltei e eu agora sigo para qualquer outro lugar. Qualquer outro lugar é melhor do que esse. Porque lá eu sou livre, porque lá eu sou inteiro, porque lá eu sou completo. Porque aqui eu me anulava e isso teve que acabar.

Obrigado, Matheus, por ter tido a força que você sempre quis ter

17/03/2016 - O último dia que sofri por isto. 

domingo, 13 de março de 2016

A Sala de Jantar

Na mesa posta, os pratos e talheres e pessoas
E a comida repousada a mesa que aguarda o agradecimento final para traçar seu destino
Cadeiras largas de qualquer coisa que não faz diferença
Porque poucas coisas realmente fazem diferença

O primeiro escolhe o centro da mesa, o segundo se sentaria a sua esquerda e assim por diante até o último.
O último não se senta, rouba os talheres e foge
E todos fogem
Porque poucas coisas realmente fazem diferença

sábado, 12 de março de 2016

Muros, Postes, Luzes, Praças e Avenidas

Já não há mais no mundo o aspecto humano da caligrafia
Não há mais a possibilidade de encaixar nos versos rápidos a vontade pura que as mãos transparecem
E assim como não existe mais o estudo não existe mais a essência.
Tudo há de se perder.

Devo ser um ser tão prepotente
Ao ver em mim a dor que aflinge os que admiro
Ler tantas frases e me ver nos intervalos
Mas o que mais resta de mim?
Eu falhei como exemplo, falhei como modelo, falhei como autor
Estou criando a recriação do que já existe
Repetindo aqui por tantas vezes o sofrimento e a metafísica e a indisposição
O fardo de carregar por tantas noites a falta da Tabacaria de defronte

Parado nesta janela para observar a vida eu me deparei com o muro
E no muro me deparei com meu limite
E no meu limite eu me deparei com tudo aquilo que já não é mais vida, tudo aquilo que já é mais nada
Saber de mim o que? Sou a cópia do que eu queria ser, me rendi à influência, me doei à dor dos outros para carregar ao meu próprio peito hipotético mais humanidade do que eu mesmo conheço.
Não quero mais pensar além da minha calvice e do peso da existência que sustento, há em mim tão poucos sonhos e quantos deles eu já abri mão há muito tempo?
Eu releio e folheio tanta obra, encosto os olhos nos pedaços de minha alma
Da personagem que criei para mim mesmo e que me criou sucessivamente
Como a metafísica das pedras em meu calçamento eu hoje sou duro, seco, morto, estático
Não estou conectado com nada superior, nem mesmo sei se existe o superior a tudo isso
Mas resumi minha vida na intenção de ser sublime

Eu entendo.

O que há de real por fora? O que pode haver de real por fora? Onde mesmo que isso começa?
Não, eu não quero a compreensão das entropias, sei que o rabiscar dos papéis antigos guardam mais de mim do que as teclas da modernidade. Eu me perdi antes mesmo de ter começado.
Não há resposta, não, não há. Há apenas um ser que queria ser outro e que entende a visão passada de que qualquer outra pessoa deve ser melhor do que a pessoa que sou. Tenho irmandade com coisas que não tem irmandade. Falhei

Talvez em tudo, talvez nem mesmo entenda o que tenha feito.
Sei que atravessei a rua e comprei outro cigarro, olhei pros lados e vi que as pessoas estavam lá, mas onde é que eu estava nisso tudo?
As vezes o mundo se fecha em coisas muito além do mundo e a gente tenta se lembrar dele de uma forma melhor do que a real
Enquanto o Destino me conceder, continuarei me enganando.

Há tantos gênios e tantos modos de ser genial. Talvez eu me conceba grande demais para tentar, porque é tudo fácil, é tudo tão pouco desafiador. O grande desafio é me manter de pé e assistir o muro defronte a janela que tem mais muro de defronte e mais janela por detrás, pensando que depois dessas fronteiras deve haver gente feliz.
Vocês precisam da felicidade, eu preciso compreendê-la.
Mas há mais assinaturas de gênios contidos em meu armário em meio aos livros que eu queria ter escrito do que palavras para expressar minha desolação.
O mundo é frio, cinza e errado.
Tanta gente se deteve esperando ao pé da porta de uma parede sem porta e eu aqui ainda grito para que abaixem a ponte
Talvez se eu tivesse olhado para o outro lado eu fosse feliz, mas aquilo que se esconde no que está a vista é muito mais grandioso e eu quis ser rei desse universo.
O universo me devolveu em responsabilidade e eu fui criança correndo de volta para a indisposição das coisas mundanas.

Se há no mundo um ser como Pessoa, se há na história uma verdade como a de Whitman, se há na terra o rastro de um Saramago, como posso eu esperar que a ponte baixe e os aflitos do outro lado vejam em mim uma resposta?
Eu nem me entendo, como posso guiar alguém à compreensão?
Temerário de meus objetivos eu redigito algumas palavras, por saber que das palavras pouco sobrarão, assim como a tabuleta se foi, assim como a tabacaria se foi, assim como a janela defronte se fechou, assim como o cigarro de quem observava se queimou e os olhos se fecharam,
Eu não preciso ter em mim todos os sonhos do mundo, porque assim eu deixaria o mundo sem sonhos
Eu só preciso guardar os meus sonhos em algum lugar mais rígido do que meu peito e mais protegido do que a minha mente.
Porque quando levantamos a metafísica vem, trazendo a consciência de que o pouco é quase nada e nós somos a migalha do que resta desse nada.
Veja bem, o que eu poderia ser então?

Vou correr os olhos na prosa de outrora
Vou passar meus dedos pelas capas desgastadas
E desejar mais uma vez ter morrido há mais de um século
Porque lá o significado pouco importaria, seria passado e do passado a gente só guarda o que quer.

Ouso mencionar a arte que me preenche em meio à minha própria sujeira
Como poderia ser mais arrogante o jovem que lê as frustações de qualquer velhice como as suas?
Num instante eu acordei e quis correr atrás do tempo perdido e quando vi o tempo estava bem em frente, apresentando um caminho que eu nunca havia notado
Mas era simples e eu desdenhei
Era fácil e eu gargalhei da sorte
Onde foi que eu perdi a fé que sou maior do que tudo isso?

Quanto altruísmo eu gerei, quantos ideais nobres e belos eu construi com o olhar frio como mármore
Quanta genialidade eu desperdicei querendo ser melhor
Quanto de mim eu deixei pra trás nessa imensidão de versos e mais versos que nem mesmo eu consigo ler, porque aqui a minha verdade grita e aponta para mim, aqui os julgamentos são reais e eu venho sendo condenado há mais tempo do que posso recordar.

Sigo pedindo para que os terceiros se lembrem de mim como alguém melhor do que sou, assim como fazemos com o mundo para manter a esperança.
Mas há tanto chocolate no mundo que a modernidade poupou da folha de estanho, as distrações estão no ar, são paupáveis, são tangíveis e os terceiros já não tem mais tempo para nada além da auto-confissão da confeitaria e a completa ignorância à tabuleta e à tabacaria e à prosa e ao que quer que tenha acontecido com a poesia.
Não há mais tempo para a metafísica, todos entenderam que é só uma questão de indisposição
Mas eu resisto bravamento como um guerreiro, travando a guerra imaginária no meu peito para atropelar meus próprios moínhos de vento.

(Talvez eu não seja tão ruim quanto imagino, talvez haja glória em mim, talvez eu tenha aberto os olhos dos outros pra realidade)

Mas a própria realidade vem fechando os meus olhos, porque eu não posso fazer parte disso aqui, eu não sou nada além da janela por detrás da janela que está, por sua vez, por detrás do muro. Eu sou a janela coberta pela cortina translucida, deitando ao chão espectros do que se passa em minha antivida, minha anticomplexidade, minha antiserventia para um mundo que já não precisa de serventia

E eu também tenho vivido, tenho estudado, tenho criado, amado e acreditado
Apenas para desejar que tudo se dissolva no que existe de mais sublime na Criação, a capacidade de sublimar e perder a forma para se unir ao ar, preencher o vazio com a própria ausência de forma e encontrar a resposta na falta de resposta.

Presunçosamente eu entalhei meu rosto em uma máscara, coloquei por cima de minha face e entalhei de novo e por cima disso esculpi minha marca.
Prendi o ar, tossi forte e quis fumar outro cigarro, mas quando vi a máscara já não mais saía, estava pegada à outra máscara que estava pegada à outra máscara que talvez seja meu rosto
Com esperança nada mais cairá pelo caminho
Eu envelheci em espírito, me embebedei em ignorância, me vesti nas armaduras invisíveis de minha pele
E quando vi estava aqui, no mesmo lugar, formando versos sobre os limites que o muro impõe

(Pausa aqui para a retratação devida, pois o tempo passa, mas a irmandade com as coisas sem irmandade permanece. Não há inutilidade em nada que seja passado, o errado é manter as qualidades encobertas pelas peles da vaidade, lidar com a rejeição dos outros é ruim, mas quando seu próprio corpo te rejeita as possibilidades são mais dolorosas)

Talvez contrate alguém para reformar o muro
Talvez contrate alguém para consertar a máscara
Talvez eu mesmo seja o alguém que irá fazer as tarefas que são sempre delegadas, porque assim a metafísica fica do lado de fora e quem sabe quando a noite deitar na terra, seja outro aflito que escreva versos como este, apenas para morrer na indiferença do primeiro sol.
Mas de que serve? Pois o muro cairá, assim como as máscaras caíram, assim como a rua perde a forma, assim como a casa se enche de mofo e umidade de quem há muito morreu aqui dentro.
As luzes aqui dentro se apagaram há muito tempo, mas as pessoas ainda transitam, cegamente procurando portas e escadas e salas de jantares
Eu só quero gritar que não há toalhas de mesa e panos de prato o suficiente para cobrir o vazio ridículo dessa cena e derrubar a cozinha para que ali surja algo a mais
A resposta talvez seja outra cozinha e outro jantar e outros talheres e outras bocas, famintas, assim como as primeiras, caladas, assim como as primeiras, me olhando fundo nos olhos sem enxergar nada do que eu posso expressar

Sinestesia morta dos meus versos inúteis.

De qualquer forma os passarinhos vão cantar, assim como eles devem fazer até o fim de suas curtas vidas
Eu devo escrever, porque é essa a contribuição que deixo ao mundo da metafísica indisposta dos carros com filtros em seus canos de descarga e das janelas que silenciam os gritos de agonia por todas as noites,
E vou apertar em qualquer que seja o peito hipotético que criei a monstruosidade humana dos sentimentos que venho alimentando, porque é isso que eu sou, é isso que eu posso ser.
Quando tudo acabar eu só espero que ainda hajam cigarros

Enquanto o Destino conceder, continuarei fumando
E sendo prepotente por julgar que entendo a dor dos que sentiram dor muito antes da minha vida
Desse desperdício de teclas e espaço em branco em frente a tela que brilha sozinha na casa apagada das pessoas que se apagaram e que trabalham para apagar outras pessoas no mundo burocrático das luzes elétricas nas avenidas que fazem as pessoas enxergar a escuridão que estão criando.

E quando eu repousar minha cabeça nos travesseiros duros, talvez crie a resistência que minha alma precisa
Talvez eu seja melhor quando o lençol for confortável, talvez eu seja melhor se não estiver tanto calor
E quando eu acordar amanhã eu abro a janela e agradeço ao muro por estar ali, dou bom dia ao pintor que veio remendar os descascados, renovo-me pela terapia de enxugar as lágrimas com coisas insólitas
Me apaixone mais uma ou duas vezes por pessoas que são mais felizes que eu e poderiam me proporcionar a vida mediocremente feliz e completa que tenho desejado
Desde que entendi que o medíocre é sublime.

Mas a luz dos postes das avenidas se apagaram, as pessoas se perderam, a metafísica atuou
E aqui eu permaneço sozinho com os fantasmas das pessoas que amo sem nem ter conhecido
Compreendendo perfeitamente a necessidade de uma tabacaria defronte a janela, para que os cigarros fiquem cada vez mais acessíveis.
Levarei mais chocolates em meus bolsos daqui em diante, para dopar a sensação de estar preso em uma conspiração milenar, onde os que sofrem são escolhidos a dedo

(Filtros vermelhos e olhos vermelhos
Cansaço das coisas cansadas que andam nas calçadas
Conheço tanta gente feliz e ignóbil e por isso ridiculamente completa
Talvez se eu entregasse as teclas ao próximo aflito a própria aflição me devolvesse a essência das coisas que se perderam)

Não, dessa vez eu só quero dormir

Nota #3

Só não entenda meu lamento com agonia
Só não me julgue como um fraco ou perdedor
Já não há graça em continuar a ironia
E nem chamar o desengano de amor

Eu mantive a sanidade por uns anos
Talvez agarre algum resquício de um chão
Sobre a intenção por trás de todos os planos
Levo comigo, vocês nunca saberão

Há no fim uma certa serenidade
E algum cheiro doce amargo de nós dois
Pra confundir o instante frágil e derradeiro
Revendo o tempo enxerguei tanta maldade
Só peço não ter que me repetir depois
Que do meu corpo reste apenas um canteiro

Nota #2

Já do outro lado não há ninguém que me receba
Não há um abraço que conforte a solidão
Deixei mensagens para que você perceba
Que aventurei-me pra buscar o teu perdão

Há tantos mortos que queriam outro destino
Há tantos loucos que se entendem mais que eu
Há tanta gente nesse mundo indo e vindo
E por acaso foi meu céu que escureceu

Notei que a tinta nas paredes descascou
Notei que a foto no retrato esvaeceu
Notei que a dor que a gente sente me tomou
Notei que o tempo só conserta o que ficou
Notei que o eterno que havia padeceu
E que a luz que havia aqui já se apagou

Nota #1

Abrir o peito para o que vier agora
Sangrar sem fim até que o fim ocorra
Aplacar o sofrimento de quem chora
Silenciar-me mesmo que pra isso morra

Olhos abertos para a mente estraçalhada
E pela boca escorrerão mais mil soluços
Trancar-me em mim ou me dispôr, não muda nada
Cortar o espírito ou até cortar os pulsos

E a madrugada nunca é tão passageira
Todos os dias são detalhes pra quem fica
Entardeceu mais uma vez nesse horizonte
Deixei meu verso, não havia outra maneira
Deixei meu canto pra manter sua alma rica
E então agora devo atravessar a ponte

quinta-feira, 10 de março de 2016

Retrato Olhando Pro Nada

Emoldura-me como presente do passado
Faz de mim a foto mais saudosa
Repara bem que fui amado
Faz de mim a lembrança valiosa

Recorta tudo, deixa tudo de lado
Trata da imagem com vontade rigorosa
Olha só meu rosto aliviado
Guarda como lembrança nossa

Agora nas fotos olho pro nada
Agora a natureza anda morta
Agora de mim não tem mais nada
Agora lembrar disso corta

Agora o retrato é em branco e preto
Agora já não faz sentido
Agora a recordação é medo
Agora nada mais importa.

quarta-feira, 9 de março de 2016

A Arte das Coisas Pequenas

Ninguém veio acompanhar o último ato desta peça
Eu escorri sozinho o drama no tablado frio e duro
Olhei pra fora e nada, aqui dentro estava escuro
No fim de tudo não há mais ninguém que se despeça

E quando eu vi estava só, quando vi não era ninguém
Quando eu vi não havia nada em mim que valesse a pena
Eu queria ser melhor, atuar enfim em outra cena
Mas agora eu quero mesmo é que tudo termine bem

Toda dança tem um fim, toda história acaba um dia
E as obras mais brilhantes não devem recomeçar
O final tem que ser bom e deixar tudo esmiuçado
Eu fui tudo no roteiro e nesta coreografia
Eu fiz tudo o que podia e conseguia pra atuar
E quando entrar nesta cochia, tudo estará acabado

Tulipas

Devo aceitar
É o tempo.

Por incontáveis caminhos a gente já se perdeu e deixou tanto para trás, por quantos desses caminhos a gente nunca mais se encontrou? Agora, depois de tudo o que já não é mais nosso, eu olho pro papel e penso que não pode haver alívio. Eu só vou ficar aqui e assistir a minha melhor metade indo embora de repente. Eu causei isso, eu mostrei os passos certos, agora eu assumo minha fraqueza e volto pelo mesmo caminho.

Tem tanta coisa que eu queria ter feito, tem tanta coisa que eu queria ter dito, tantos dias que eu queria ter vivido, mas dentre tudo isso, definitivamente eu queria mesmo era ter vivido a nossa felicidade, ter conhecido a sua paz e me encantado por ela, assim como eu me encantei por cada detalhe em ti. Eu queria muito ter sido a pessoa que te levaria pra um passeio tranquilo e retornaria para casa com a certeza de que havia acertado. Será que existe algo de bom nessa consciência? Será que existe alguma resposta no mundo futuro? Eu só sei que agora, nessa fração de segundo em que eu te dei adeus, o peso de minha alma subitamente diminuiu, acho que é porque você levou contigo tudo o que eu podia ser e deixou pra mim apenas o que eu não fui.

Mas há alguma esperança agora, há algum alento na verdade que eu não segurei desta vez. Eu não sou o amor da sua vida, eu não sou o homem da sua vida, eu nem mesmo sou a pessoa que te faz feliz. Eu deveria ter aceitado essa premissa quando ainda era uma hipótese, teria poupado tanto sofrimento e tanta lágrima. Certamente eu não seria o homem que sou, mas provavelmente você seria uma mulher radiante e leve, sem as amarguras que eu plantei nos teus sonhos, sem as divergências que eu criei em tua psique. Essa provavelmente seria a melhor chance de te fazer feliz.

Se eu tivesse a chance de nunca ter te conhecido, provavelmente optaria por viver tudo de novo e aprender com a sua dedicação quais eram os acertos no caminho. Entretanto, eu queria muito poder me apagar da sua vida, deixar apenas pra mim o sofrimento de carregar o fardo da impotência que sinto agora. Eu falhei, devo lidar com isso como um adulto. Você foi incrível, por favor leve isso como a única certeza que eu posso assegurar.

Dos presentes e das promessas, manterei tudo para mim. Das certezas e das histórias boas, vou guardá-las como o tesouro que a vida me proporcionou. Para você deixo apenas as palavras doces que eu repeti inúmeras vezes ao teu ouvido, nas noites quentes que a gente há muito destruiu. Essa é a carta que acompanha as tulipas

Aquelas que eu nunca mais poderei te dar.