Histórias passadas de coisas não tão passadas assim

quarta-feira, 31 de março de 2010

Equilibristas

"A paixão aumenta em função dos obstáculos que se lhe opõe."
Shakespeare

Existe uma porta que eles sempre quiseram reabrir, com certa falta de jeito - Aquela daqueles que acreditam que um raio pode cair duas vezes no mesmo lugar e que os homens podem errar duas vezes o mesmo passo.

Ele já tinha estrada, ela apenas pés dispostos, mas despreparados.
A tal porta, como que por crueldade rangia para os dois lados, mas sempre parava no mesmo lugar, alinhada ao seu eixo. Perfeitamente fechada.
Só para aumentar o desespero dos dois e a impaciencia dele

Ele não negava já ter dado as costas a porta, mas não sempre, também havia se atirado a porta tentando arromba-la. Falta de paciência. Ela tentava da mesma forma, mas não sempre, algumas vezes havia se distraido por alguma janela ou outra voz dentro do cômodo.
Quando o sangue dos dois acabou a porta se abriu.

Agora os dois estavam no chão, mas não estavam mortos, e a porta aberta.
Chegaram no ponto que queriam e lá estava ele de pé, mas ele não podia invadir o quarto dela, a vida dela.
O caminho estava livre, mas eles só podiam se encontrar na porta, um não podia ultrapassar o limite do outro, nem o seu próprio.

Mas agora ela não tinha forças para continuar e ele só podia olhar.
Ele não podia se atrever a ajuda-la, não podia quebrar as regras da casa.
E agora ele estava lá, de peito aberto, sangrando descontroladamente e ela já não tinha o que sangrar.

Em seu instante de maior desespero ele entendeu que mesmo que as portas se abram de nada valhe se os dois não se postarem nos seus limites para se encontrar. A porta só se abriria no momento em que os dois tentassem juntos ou falhassem juntos, mas essa sincronia jamais existira.

Faltou a harmonia que faria com que os dois se fantasiassem de equilibristas e andassem pela tênue linha que os dividia, um de encontro ao outro. Faltou a vontade mútua e verdadeira, pois só haviam momentos de cada um, nada dos dois.

"As palavras são como os patifes desde o momento em que as promessas os desonraram. Elas tornaram-se de tal maneira impostoras que me repugna servir-me delas para provar que tenho razão."
Shakespeare

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