Histórias passadas de coisas não tão passadas assim

terça-feira, 2 de março de 2010

A Primeira Carta

Essa carta é citada no quinto e último capítulo da história do Insone e do Covarde. É a primeira de duas cartas, sendo essa escrita pelo covarde e destinada ao insone e a segunda escrita pelo Insone para o mundo.

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Já está ficando tarde, mas mesmo assim eu não conheci a vida. Tive medo. Devia ter gritado ao mundo sobre os meus desejos. Devia ter feito dos fantasmas os meus companheiros fiéis, meus amigos. Eu devia ter vivido o medo como uma fase única da minha vida, sombria e perigosa, mas única. Eu devia ter dado ouvidos a quem me disse que eu devia viver e não existir.

Me desculpe, meu irmão. Já anuncio aqui a hora de minha partida, mas diferentemente da música que tanto gostei, eu sei que rumo irei tomar. Não sei se vai se lembrar dessa música, nunca foi do seu agrado, como tudo o que eu fazia. As vezes lembro daquele tempo distante em que eu chamava a sua atenção pra cada um dos meus pequenos feitos e você nunca prestava atenção. Me desculpe pela insistência, mas aquilo era a única coisa que eu sabia fazer.

Você não. Você sempre foi forte, corajoso. Sempre encarou seus problemas com dignidade de homem. Sempre me senti um peso em suas costas meu irmão. Não posso mais esperar que as coisas se resolvam. Não posso esperar que venhas até aqui e que lhe diga tudo isso pessoalmente e você não atendeu meus telefonemas, deve estar ocupado. Queria poder dormir e esperar até o dia em que você me acordaria, embora eu saiba que nenhum problema se resolve com uma boa noite de sono, o sono só mascara as bruxas e os monstros e os deixa amigáveis pro nosso constante baile, a vida.

As vezes sinto que você tenta me esquecer, me ignorar. Devo ser um atraso em sua vida. Continuo a pensar na noite de ontem, quando você se levantou. Não consegui encontrar a minha falha, não consegui achar meus erros, minhas inconveniências. Se te magoei com minha fraqueza, meu silêncio sem nexo, minhas palavras vazias, me perdoe, sempre quis ser bom o suficiente pra você, mas nunca consegui. Sei que nada disso é surpresa pra você. Como queria ser alguém forte...

Tentei te ligar de novo agora. Você não atendeu. Será que você não se importa com minhas tentativas de conversar? Vou tentar de novo, se você atender jogarei essa carta e todas as outras no fogo. Nada. Acho que você está com raiva de mim. Me desculpe irmão.

Imagino agora que me falta pouco tempo. Será que você conseguirá encontrar o que restar de mim? Será que alguém na rua lhe dirá que saí? Será que ira procurar nosso velho conhecido no bar? Se por algum acaso voltar a me procurar em casa, achará muito estranho ver que não estarei no quarto. Será que tentará me ligar? Acho que não, se quisesse me falar atenderia algum de meus telefonemas.

Depois de quatro meses sem pisar fora de casa, o sol e a lua parecem diferentes meu irmão. O Mundo parece maior, mais medonho. Esse grande moinho já triturou os meus sonhos que eram tão mesquinhos, já reduziu minhas ilusões a pó... ao pó que eu tanto recorri pra criar novas ilusões. O mesmo pó que iria acabar com a maior de todas as ilusões, a vida...

Me desculpe por nunca ter lhe contado irmão, mas aquele seu velho conhecido do bar era também meu velho conhecido. Desde que soube dos seus vícios secretos eles se tornaram os meus vícios também. Sabia do efeito que aquilo lhe causava e queria sentir o mesmo, queria me sentir forte, me sentir bom. Me sentia um homem toda vez que usava a cocaína. Hoje, precisei de tudo que tinha para uma dose grande o suficiente pra escrever essa carta. Espero que entenda.

Começo agora a sentir o efeito da reviravolta em meu corpo. A morte está chegando para me buscar, meu irmão, e dessa vez eu não tenho medo. Sei que estou pronto para alcançar um novo plano, um novo horizonte. Queria ter sentido isso em vida, queria ter tido coragem de enfrentar os problemas que sempre me afugentaram.

Se por acaso tiver acesso a essas palavras, meu irmão, peço que não chores, não fique triste. Não fui homem durante a vida, não tive coragem pra enfrentar nem mesmo o sol e a lua, e agora morrendo, pela primeira vez sinto que posso atravessar o vale sombrio do medo. A culpa é minha por ter sido sempre a sua sombra, sempre ter sido o seu protegido e não ter te protegido quando você precisou. A paz está aos poucos tomando meu corpo, em pouco tempo não serei mais o que sou. Lembre-se que a vida foi um moinho pra mim, mas você é forte e vai superar tudo isso. Viva, meu irmão. Sua vida lhe reserva grandes feitos. Você já é grande e será muito maior.

"Preste atenção querida, em cada amor tu herdarás só o cinismo. Quando notáres estás a beira do abismo, abismo que cavaste com teus pés."


Adeus, olharei por ti quando deixar de ser só um covarde.

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Trecho em itálico da música "O Mundo é um Moinho" de Cartola

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