Eterno arquivo do que já não interessa
Vazio Infinito

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 3

Terceiro Capítulo - A Covardia do Insone

O insone atendeu o telefone e escutou um montes de palavras gaguejadas. Seu irmão. Nossa, a quanto tempo não recebia uma ligação dele... "Tudo bem, estou indo aí te fazer uma visita breve", disse o insone e desligou. Fez o retorno, a casa de seu irmão era do outro lado da cidade. Mas onde era mesmo? Havia anos que eles não se encontravam um na casa do outro.

Já estava quase de noite. Ele deu graças a Deus por ter arranjado algum passatempo, por menor que fosse, para essa noite. Se dependesse dele, prolongaria essa conversa até amanhã de manhã, mas sabia que seu irmão não passava tanto tempo sem dormir. Como o invejava. Ele não conseguia dormir nem com remédios, enquanto seu irmão só precisava fechar os olhos e se virar para o lado.

Chegou e tocou a campainha. "Tá aberto, entra" seu irmão gritou lá de dentro. Havia se esquecido que ele tinha medo do sol, da lua, do céu, da rua... do mundo. Entrou. Foi até o quarto onde seu irmão costumava ficar e lá estava ele, naquele estado deplorável deitado na cama. A meia luz ele enxergou papéis amassados e jogados no chão e roupas espalhadas. "Levanta. Vamos conversar lá fora", disse ele. "Por que lá fora? temos tudo que precisamos aqui", respondeu o irmão. "Lá fora, você precisa sair". O irmão finalmente cedeu, após muita discussão. Sairam.

Ele sabia o que devia falar ao irmão, mas tudo o que saiu foi um "como vai?". O irmão estava bem, aliás, julgava estar bem, mas o insone olhou pra ele e não concluiu o mesmo. Magro como sempre...branco demais como sempre...Covarde demais como sempre. Ele devia dizer isso, mas não conseguiu, não sabia se era certo. Quis falar que sentia saudades, mas não conseguiu. Não conseguiu conversar com o irmão. Não conseguiu nada, só se arrepender de ter ido até lá.

Levantou, entrou no carro e foi embora. Chegou em casa e começou a chorar. Sabia que devia ter falado tudo aquilo a ele, mas tinha medo de machuca-lo. O insone sempre fora o exemplo do covarde, e ele não podia magoar o irmão. Teve medo de fazer o certo. Teve medo de errar. Teve medo de falar. Medo de pensar. Medo de estar alí. Medo. Medo. Medo!

Ele sabia, essa noite seria longa...

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