Histórias passadas de coisas não tão passadas assim

sábado, 3 de janeiro de 2015

Sombras dos Amantes

Eu sou o rosto na capa do anuário passado
Aquele que você lembra com carinho quando está sozinha
Mas esquece quando vê os rostos novos
Eu sou o que não está lá
Eu sou o que você talvez queria ter
Mas deixou passar, deixou morrer
Deixou... e só

Eu sou aquele rosto que não foi decifrado tão cedo
Aquele que você tem medo, que nunca deixará de ter medo
Mas não para de olhar
Eu sou o que sorri de lado
Eu sou o que te devora com olhares
Mas que te causa males
Você amou e só

Sou o que queria a tabacaria, mas sou pouco
Sou o que queria ser o motivo, mas sou pouco
Sou o que enlouquece ouvindo ecos
Trago nos meus ombros o mundo, mas sou louco
Trago os provérbios do profeta, mas sou louco
Sou aquele que pedia, mas achou que dava
Aquele que ainda vê seus lobos, mas que os ama
Que tem sede de ti, tão longe, que te chama
Que mesmo distante te preserva em pensamento

Eu, Pessoa, Drummond e Whitman
Sentados à mesa posta
Cada um em seu lugar, tempo e imensidão
Cada um sentado à mesa puramente por paixão
Florbela tão sozinha, senta e chora por Cecília
Clarice finalmente escuta seu nome (Já É Sabido, Solitários Imaginam Coisas Além)
Baudelaire se embriagou
Gregório apenas ri
Você continua sentada tão longe, que de ti só vejo a sombra em todas as letras

Eu me entrego a todas as chagas
E males
E dores
E drogas
E torpores
Por ti sofri de amores, mas o amor é bem maior

Porque eu sou o rosto na capa dos teus discos
Aqueles discos que tem o nome de outras pessoas
Mas que você olha pra lembrar de mim
Eu sou o que você mais amou
Eu sou o que mais te amou também
Mas o que mais sofreu
Feliz, mas só

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