Cegava-me o sol, às onze horas, de frente à linha
Onde tomaria, por mais uma vez, o trem
Que leva à instância de teu novo recomeço.
Há anos busco a paz que tu me prometeras,
Enquanto viajo pelos vales e depressões de nossa vida.
Por tantas vezes desdenhamos do futuro, enquanto descíamos
Os andares escuros do Edifício Raposo Tavares, em busca
De serras e pecados.
Haveria de chegar um tempo em que tu subistes só,
E quando chegasses, essa impensável hora, anunciaria
Um ano sombrio, peste, guerra,
O fim de nossa sintonia.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
A Impensável Hora
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
A Chave do Feitiço
Ergue-se o sol e não dura mais que um dia
E minha triste melodia, aqui chega em seu final.
Há de haver algum sinal que marque o cerne da memória
Ou transforme em bela história o que já não é real.
Clamo sutilezas mil, translúcidas de ensejo,
E condenso algum desejo, que é a chave do feitiço,
Então, dito tudo isso, são dez giros de ampulheta
E o passado, que se enfeita, abre as portas de um início.
Há perigo além da curva, disso tu já sabes bem,
Seja neste ou em outro conto, o canto pode silenciar,
A distância, a bruma, o tempo, são questões subjetivas...
Há perigo além da curva, outra curva sempre vem
E em uma destas curvas tu bem podes se lembrar
Desta marca na memória, desta história ainda viva.
sexta-feira, 3 de outubro de 2025
Outro Eu
Quantos desertos ainda devo conhecer
Antes que o frio da noite me cale
E o sol me sussurre em resposta:
Agora que te calas, lhe ouço.
Quantas ladeiras ainda devo subir
Pra encontrar horizonte azul e azul e azul
Que renova e perpetua
A despeito de teus olhos tristes na janela.
Quantos caminhos ainda devo trilhar
Até encontrar qualquer caminho
Que me sirva, sem servir aos propósitos
Do tédio e angústia, tiranos das rédeas.
Quantas vezes eu, e eu somente,
Um ser e um sonho, a que se ergue os braços
Quantas vezes devo repousar quem sou aos traços
E ser um outro eu, sempre um outro eu.
domingo, 28 de setembro de 2025
Calvário de Shiva
Devo minha vida à poesia.
A alma é dos Deuses, que estendem a mão em cobrança.
O pagamento, obra tão simples, reparte-se entre meus iguais.
Devo
E pretendo pagar o valor integral,
Em franco apreço à palavra
Ou juventude desvairada,
Que me fez a negligência.
Devo e isso desfaz-me.
Ao contraste, esta dívida velha
Renova-se em mim,
Cresce em minhas entranhas
A urgência
E já não posso continuar.
Devo encerrar este capítulo.
Pontuadas as causas,
Detalhadas as contas,
Agora me abro às demandas
De Caronte.
Devo seccionar-me.
Em punhos a lâmina fria,
Passageira e condutora
Do milagre reverso,
Que já não deseja estancar qualquer
Sangria.
Devo aceitar toda vazão.
Devo alçar voos mais longos,
Sem prever os resultados.
O concreto me aguarda,
A despeito da certeza
De todas as quedas.
Devo aceitar que o impossível
Está sempre do outro lado
Da janela.
Devo amordaçar-me.
Estrangular o cínico lamento,
Cessar qualquer vestígio
De palpitação desesperada,
Até restar o nada,
Profusão lírica de todo vazio.
Devo suprimir o pulso
Da angústia.
Devo intoxicar-me.
Tragar o ácido,
Amar os venenos que me corroem.
Então encerro a dúvida,
Pois o futuro cabe a quem ainda não veio.
Devo ingerir esta cicuta,
Assassina de temores.
Devo buscar o fundo.
Deitar-me seguro em leito de rio,
Fundir-me à naturalidade das coisas,
E, de corrente em corrente,
A rotina transforma o hábito,
E a vida floresce às margens.
Devo afogar as mágoas.
Devo despedaçar-me.
Moer, triturar, misturar,
E eu, alimento de vermes,
Conhecerei as raízes,
Só assim me encontro
Frente ao palácio da origem
E questiono o verbo
Sobre o começo.
Mas o caminho das coisas permanece inalterado,
E ao contraste, esta dívida velha
Renovando-se em mim, já em outros planos,
Paga-se em carne e sangue.
Devo matar o que sou
Para viver o novo.
quarta-feira, 3 de setembro de 2025
Predador e Presa
No começo fez-se o laço de armadilha simples
Pra quando teus olhos cruzassem os meus.
E assim, tu, presa de arcanjo torto,
Vistes dois desastres se anunciarem:
O desgosto e o delírio.
Já não percebíamos mais a ironia detrás,
E logo já não era possível dizer
E onde terminava o eu.
Há de caber um certo drama.
O outono acabaria em um inverno seco,
E mesmo em meio a tanto frio
Depois, em tons de uma falsa sinceridade,
Um refinamento agressivo de nossas vontades:
Tu defendias a emancipação de tua vida
Passou o inverno, a tempestade, a fúria,
Nada em mim teria acontecido.
É por isso que venho rogar pragas,
Pra que tu entendas que sinto asco
Não de ti, mas de mim mesmo,
Por ser eu quem devo ser culpado
Então faça, faça agora tua denúncia,
Resoluto em não te abandonar, minha presa.