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quarta-feira, 14 de abril de 2021

O Coração Continua

                                                              Ao amigo Ulisses de Carvalho


"Entra no mar, meu doce amigo, entra no mar
Que aqui nós todos temos corações quebrados
E os nossos sonhos também foram naufragados

Entra no mar, meu doce amigo, entra no mar
Que muitos deles vão te relembrar das sombras
Mas nenhum deles sabe que amanhecerá!"

Vistes, meu caro, que o coração continua, não é?
Te deparastes com a inevitável queda neste abismo de si mesmo,
E entrecortado pela angústia que nutrias, silencioso,
Gritou sozinho na esquina de tua vida, 
Ignorante da guinada que lhe vinha logo em frente.

Vistes, meu caro, que o coração continua,
Músculo, sobretudo, ativo e operante,
Até que se mostre incapaz de exercer esta função,
Músculo, sobretudo, o músculo que sustenta o corpo, 
O corpo além corpo, aquele que ignoras,
E despenca débil no abismo.

Vistes, meu caro, que o coração continua,
Teu núcleo metafórico de carne,
Pungente de dores e horrores e amores,
Tua bomba de angústias e sangue que lhe toma as veias
Ele continua, a despeito de ti.

terça-feira, 9 de maio de 2017

Ensaio Sobre o Sofrimento


Me entregar ao sonho cada vez mais abstrato que é essa realidade. Aguço minhas doenças com a mudança das marés, fazendo cada dia ensolarado carregar mais tempestades do que posso combater, assim como diante do derradeiro tornado de minha vida, apresento a leveza de minhas certezas. Como posso expressar o inexpressável? Parece que as noites tem sido cada vez mais longas. Os confidentes se cansaram, nem meu diário me escuta.


Não deve haver razão para tanto sofrimento, não. Arisco como minhas pálpebras, são meus dedos pela noite, escorregando incansavelmente por este teclado salvador. Já não saberia viver sem o poder do descarrego poético que prático diariamente. Sinto que tanto dilema tem me enlouquecido, e pelo mero desespero dessa somatória, me entrego de braços abertos à insanidade final: Nunca distinguir o que devo ou não fazer.


É difícil para mim, como deve ser difícil para qualquer um de vocês, mas a empatia não me alivia de nada atualmente. Eu gritaria se tivesse forças, mas as paredes tem mais ouvidos que as pessoas, e elas tendem a se fechar quando o desespero bate. Fico aqui aprisionado neste ser não sendo, neste papel inútil que é pretender ser alguém. O mundo não tolera tentativas, eu não tenho resultados.


Quisera eu formar o grupo que ouviria minha voz incondicionalmente. Queria tanto viver da arte que transborda minha essência e essencialmente ser parte do algo mais que julgo ideologia. Eu que faço tanto já não sei mais o que faço, me arrasto pela podridão e largo tanto de mim mesmo. É como abrir as mãos e ver os sonhos escaparem, enquanto tudo ao meu redor resplandece completude.


Será que toda a insistência leva a um final feliz? Ou ao menos a um final, pois o cansaço é dominante. Onde em mim eu devo encontrar minhas respostas? Se eu me voltar à minha alma, o divino acena enfim? Eu me repito quando digo que queria ter certezas, mas nesses dias frios eu só queria ter vontade, porque nem me levantar parece justo.


Mas o errado é aquele que espera que o mundo abra os braços e recompense esforços, afinal o que eu construí só vale mesmo é para mim. Seria falso o testemunho de minha fala nesse instante, pois o ego grita coisas que não posso acreditar. Eu não sou alguém que merece mais, eu só desejo ser.


Em vão escrevo ensaios que nunca serão lidos, mas assim limpo a bagunça que tenho deixado para trás, só eu posso sentir os estragos que causei, só meu corpo padece diante dos meus desacertos, só minhas mãos fraquejam quando as lágrimas se secam, só aqui eu sou grande, lá fora eu permaneço dependente e em construção, mas cada vez mais em estado de calamidade.


Você, estranho amigo, que me lê sem um propósito, você é a única pessoa que me traz algum alento. Por favor, continue consumindo a obra, pois carregar o peso das minhas dores precisa ter alguma serventia.

quinta-feira, 6 de abril de 2017

Definitivamente Para Você

Tenho muita coisa pra dizer pra alguém. Não serve se for despejado aqui, pra ser processado e mutilado. Não serve se for pra morrer em mais um verso ou se for pra morrer comigo. Preciso que alguém me olhe nos olhos e entenda de uma vez por toda a verdade dos últimos dias. Eu pago a cerveja.

Preciso que alguém me carregue junto pra outro tipo de amanhã, porque já está muito difícil repetir o dia de hoje. A programação dessa TV vai se repetindo para sempre ou será que eu nunca vivi outro momento que não fosse a última meia hora? Deve ser a décima vez que eu acho graça dessa piada, já está soando como um baixo desespero.

Outro dia a casa estava cheia e eu estava vazio, mas a média bastou pra garantir a diversão. Aí veio outro dia que a casa estava vazia, mas a piscina estava limpa e os meus pensamentos também, até o céu parecia mais baixo e a viagem foi muito mais curta. Então vai chegar um dia que tudo vai ser só vazio, porque eu nunca suportaria estar completamente cheio.

Dia após dia eu venho vivendo essa história, praticamente sem fundamento, porque tem muita inércia em mim. É muito sentimento pra ter mais sentimento agora, por que é que eu me deixo apaixonar? Eu podia apreciar a companhia sem o ensejo de nutrir qualquer desejo, mas gente fascinante é avassaladora pro meu coração, e sendo assim é melhor enfeitar este jardim, porque eu nem tenho me cuidado tanto.

É isso mesmo auditório, nessa madrugada imensa eu estou aqui fazendo cálculos pra ver se justifica dizer que estou encantado por alguém. Eu não tenho coragem e nem idade pra gritar paixões, tem consequências demais na minha mão. Definitivamente eu fui tomado de repente por alguma coisa forte demais, por alguém forte demais. Eu nunca resistiria.

Aí eu relembro tudo o que eu já vivi, dava até pra escrever um livro. Será que vale a pena abrir a quinta-feira de braços abertos? Porque eu não quero riscar outro nome desse caderno e dizer que as baladas foram escritas pra mulher nenhuma. Eu alimento essa vontade, como alimentei várias outras. Eu a quero, como já quis várias outras. Mas dessa vez é forte demais pra só ignorar, eu reconheço não me reconhecer, mas entendo bem do quanto eu sou capaz de amar.

E eu vou me perguntar mais uma vez sobre minha a história, romantizando cada desromance desse passado meio vasto e meio vago, que eu nem sei se me treinou ou me abandonou aqui, onde as coisas são muito mais difíceis, porque os sentimentos foram embora, mais ficaram os calos. Os meus dedos agora estão mais grossos, não dá pra deixar escorrer mais um pouco da minha dedicação por alguém que só devolverá sorrisos, eu preciso de mais apreço por mim mesmo. Preciso de cuidado.

Quando foi que a minha vida se tornou essa maré de sentimentos e tensão?
Alguém há um tempo disse que amor tinha que ser uma coisa boa.
Essa pessoa tinha razão

E quem é que é a dona da poesia?
Que carrega em si o peso de ser inspiração
E sufoca para si toda reclamação
Pra esperar mais versos outro dia

E quem é que é a dona destes sonetos?
E me traz de volta mais cedo pra casa
Já é a sua vez ou é a minha mesmo?
Já é a hora disso ou você ainda atrasa?

Não dá pra usar o mesmo molde pra modelar a gente
Não dá pra vacilar e apertar os passos
Não dá pra me enlaçar e estreitar os laços
Não, dessa vez tudo é pra ser diferente

Eu arrisco, como não arriscaria?
Eu jamais a riscaria tão prematuramente
Se é ela que preenche todo o tempo a minha mente
É só olhar pra mim e ver que eu arriscaria

Mas não dá pra ser assim, preciso de contexto
Eu não sou de me entregar assim tão facilmente
Sendo o fingidor que finge que deveras sente
A dor e o desamor que descreve em qualquer texto

A quem eu vou enganar? Se ela me chama eu devo ir
Já estou me machucando pela antecipação do atrito
Então talvez aceite o impossível e assim limito
Registrar neste caderno tudo o que eu puder sentir

Mas ela já me tem, não dá mais pra negar
Eu deveria estar agora com o pensamento leve
E estou pensando agora que quero que ela me leve
E faça com que todo sentimento possa rimar

São muitas palavras sobre coisas parecidas
E o quão parecidas essas coisas realmente são?
Se eu pareço me repetir talvez eu esteja repetindo a entrega

Mas nunca a mesma sensação.

Parece que eu vivo pra amar outras pessoas, talvez seja um bom motivo pra viver, afinal. Tem muita coisa que me destrói por dentro, mas essa é a única que renova sempre.

Atualizo aqui o meu escrito, pra assinar seu nome.
Que vergonha de escrever essas coisas pra você
Então não se assuste se eu desaparecer
Mas pode ter certeza que isso aqui não some.

sábado, 6 de agosto de 2016

Ensaio Sobre a Coragem

Esse é mais um dia no cotidiano de quem busca por respostas. As coisas as vezes se nublam por aqui, nem sempre é fácil viver um dia após o outro, mas optamos por continuar, porque no fundo acreditamos que isso aqui vai dar em algo, ou talvez acreditemos que no fim valerá a pena, ou na pior das hipóteses, esperamos que o mundo se baste em uma enorme brincadeira de mau gosto, aí a gente ri e se perdoa pelas crenças infundadas. Um sorriso a menos nesse dia, um sorriso a mais no fim de tudo, o que é que realmente importa?

Tomar café pela manhã e refletir durante a tarde. As demandas de hoje em dia devem nos absorver, porque assim a gente não consegue refletir sobre o que estamos criando e o que eles querem que você acredite estar criando. Sem conspirações, aqui tudo é muito mais tangível, olhe pro lado e analise os resultados de quem está ao seu lado. Você faz parte da solução ou do problema?

Tudo tem solução. Qualquer que seja o problema, só é problema enquanto a gente deixa acontecer. A gente se dá bem com as coisas que fingimos padecer, é natural pra nossa vida aceitar a dor como necessária e parte de um crescimento abstrato, mas digno. Parte disso se deve à convenção do que é maturidade, parte disso se deve às histórias de heróis, e eu sempre gostei dos heróis. Uma hora a gente enxerga que vem encarando o mundo como inimigo, por alguns instantes até acreditamos que podemos vencer, porque essa é a lógica básica dos heróis, eles vencem no final, passando por cima de todas as mazelas do mundo.

Se você já leu qualquer história que se preze, então sabes que nada disso vale a pena no final das contas, que toda força que é despendida causa reações em outras partes dessa cadeia e nem sempre a gente consegue calcular os estragos que causamos. Em um dado momento a gente busca a fuga da obviedade do herói, porque passamos a entender que morreremos no final, e os romances nunca chegam a tal ponto. O que vem depois daí? A gente nunca sabe.

O mundo não está aqui pra ser combatido e nem mudado, ele está aqui porque ele veio antes, nós somos as consequências de outras forças que já repercutiram em todos os cantos dessa existência e que morreram no silêncio quando o centro de tudo já não era mais alcançável. Talvez esse seja o nosso vindouro fim, não mais encontrar a raiz do que nos move e cedermos as agitações externas, pouco a pouco nos deixando derrotar por qualquer abalo que vier, afinal já não conseguimos mais depender de nós mesmos.

O laço disso tudo é pensar que a gente romantiza coisas pequenas, porque essa é a nossa única chance de felicidade. A peça que falta é a visão de que tudo isso é ensaiado por gerações pra parecer perfeito, a gente luta guerras invisíveis porque não existe mais um inimigo próximo, a gente se move a passos curtos porque não conseguimos mais enxergar futuro em nada disso. Vão te dar a chance de ser bom e a chance de ser útil, por qual delas você vai optar?

Se a luta que se trava hoje é internalizada, quantos de nós vão se perder apenas por não conseguirem mais olhar pra dentro? Se o mal que nos causamos hoje é a única coisa que podemos sentir, quando é que o mal que causamos a nós mesmos será perceptível e combatido?

Quando os heróis se aposentarem por cansaço.

quinta-feira, 14 de abril de 2016

Ensaio Sobre a Felicidade

Acordei outro dia sem perspectiva de colaboração, quero apenas que o universo me conceda uma saída rápida nessa linha reta da funcionabilidade. Levantei-me, porque deitado eu penso muito, preparei-me e então deitei de novo, agora sim era a hora de pensar. Arquitetei minha armadilha: me prendo nisso e vou buscando as chaves que sempre estiveram no meu bolso, porque o desafio é se convencer de sair do conforto e da segurança dessa melancolia. Como os velhos que já não fazem parte da vida, apenas se enquadram naquele momento que pode durar um dia ou 15 anos, aquele momento que tudo termina. Feito isso, me sentei diante da estante do desinteressante, agora vou contar a história sublime do que apropriei das histórias medíocres.


Aqui de dentro a vida parece mais tranquila. Não assumo compromissos, não me presto à reforma ou revolução, não me apego ao desenrolar do que é natural. Naturalidade para mim é enxergar de fora, porque eu vivo em um futuro calculado nesses horários tortos que me cabem. Por volta das 20 eu já sei o que fizeram, mas meu dia começou, minhas possibilidades são maiores porque as informações são frescas e eu acabo de concentrar minhas energias. Agora é só buscar a chave e sair do refúgio do escafandro. Vejo que ficou tarde, já não há o que fazer depois das 22h.


Como dá pra ser feliz com essa modalidade restrita de vida? Eu fui privado das vivências e enxergo com desconforto os passos dados que eu nunca poderia dar. Mas a escolha é minha, por que é que eu não a tomo?

Pause aqui pra entender o que você não entende. Já parou pra pensar que o que te fazem consumir consome você? Em um milhão de livros eu li mil finais felizes. A literatura morre assim que a última página vem, assim como aquela sensação de fazer parte do irreal. Vamos fazer o seguinte, escreve seu livro com atitudes.


Antes do final do dia, acordo em bares e percebo que há entusiasmo, há um papo sobre qualquer que seja a novidade da semana, talvez da semana passada, eu me confundo nessas linhas cronológicas. Eu tenho um copo, eu tenho um maço, eu tenho voz e os outros tem ouvidos, agora sim posso contar a minha história mais sublime.


O que é a felicidade pros senhores? Devo perguntar isso em voz alta ou esperar as respostas das entrelinhas? Vou abrir a porta, porque tudo isso só funciona se o acesso é liberado. Felicidade é subjetivo, mas não deveria ser. Felicidade é convencionado. Culturalmente, por centenas de anos, a gente vem aceitando que uma única função cumprida é o suficiente pra dormir bem nas várias noites. Comprar seu carro, pagar suas contas, chegar no fim do mês com o sorriso do alívio, por que você confunde isso com felicidade? Trabalhar duro por tantos anos, construir a sua família com essa mesma ideologia. Diversas gerações de homens mecânicos, cumprindo o preestabelecido acordo que você assinou quando assinou seus documentos. Você é só um número, rapaz, e já que gosta de número, vamos conversar sobre a sua conta bancária. Ela compra o que mesmo? Ah é, compra seu carro, paga suas contas e quando chega o fim do mês você é feliz ou aliviado?


A gente tem perdido momentos únicos de 9 às 18, pra ter apenas momentos corriqueiros. Ficar feliz com o novo computador, achar o máximo essa impressora que é scanner, o ar condicionado, o novo software que vai facilitar a sua vida. Faz o seguinte, pega esse conhecimento prático, cria o software que vai mudar sua vida. Das 18 às 22 o que é que você realmente é? Já não é funcionário do expediente, mas será que o expediente saiu? Não, querido, você agora é funcionário de um expediente mais complexo, eu chamo ele de existência, mas você que trabalha tanto, pode só chamar de tédio, a gente vai compreender.


Enquanto isso, eu acordo as quatro, infeliz e livre, talvez a leitura correta seja incompleto e só, mas quem vai me dar essa resposta. Os dias bons vão me dizer que a felicidade está exatamente no copo, no maço, na voz e nos ouvidos, os dias ruins vão me dizer que a felicidade está nos travesseiros, os outros dias dizem nada, mas por que? A gente não precisa se desesperar na busca do futuro, não, a gente precisa se centrar no futuro do passado. Sem clichês, por favor. Claro que é clichê, mas as melhores frases não são? Me diz os seus objetivos e lemas, você acha que tudo isso é só seu?


Tudo isso é corriqueiro, sabe? Se você trabalhasse menos e se afastasse do que a sociedade te oferece, escolheria o meio fio em frente à praça à qualquer televisão de plasma de um milhão de polegadas, até porque em nenhum canal eles vão transmitir o meio fio, mas em todos eles a televisão de plasma estará bem visível. Tudo isso é o que a gente não aceita, porque a sociedade não aceita, o outro, aquele outro bem próximo de ti, vai pedir sua companhia no boteco e eu ainda não conheci nenhum meio fio que pagasse um salário. A gente tem que arcar com as contas, porque se não elas vão arcar com a gente, companheiro.


Então o que é felicidade? Nada
Felicidade é saber que nada disso faz sentido, porque não precisa fazer. Vamos transferir o significado das coisas pras gavetas e buscar o significante, tem que ter algum motivo pra isso funcionar tão bem, não é? Isso não é um texto político, não quero incitar revoltas e nem apontar o sistema como o nêmesis da vida plena, não. Só quero entender porque é que a gente se prende ao alívio como felicidade recorrente.

São só momentos, no final das contas, a vida tá cheia deles. É possível ser feliz em alguns, mas só se de cada um deles, você conseguir elaborar um verso.