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domingo, 6 de julho de 2025

Milagres

Vês, o céu torna a se abrir quando teus olhos reparam
E o sol já não projeta sombras do que tu não és
Passada a tempestade, tu percebes que ficaram
Apenas os vestígios de teu cíclico revés.

Traçastes teus caminhos, em completa oposição,
Ao que o coração sabia ser a única resposta,
Tu fostes resoluto em tua contradição
E vistes que o caminho era a direção oposta.

Quem dera ser possível corrigir o teu engano
Mas tu tivestes sorte, percebendo bem a tempo
Que o teu jeito inquieto não somava ao grande plano
E deu valor sincero a quem lhe trouxe crescimento.

Tu sabes que a fortuna vem de formas diferentes
E a ti foste estendido o mais verdadeiro amor
Atente-se ao que importa, seja grato e coerente
Milagres acontecem pra quem sabe dar valor.


sábado, 13 de maio de 2023

Meu Coração

Descansa em paz, meu coração...
Vê se não vai perder-se em outro recomeço,
Culpar os outros pelo teu próprio tropeço
E acabar-se nesta angustia sem razão.

Tu fostes forte e se propôs ao infinito,
Mas não há amor além da tênue divisória
Onde o afeto torna-se mais um atrito,
Resta carinho e a inércia da memória.

Desprende-se da mágoa, névoa torpe,
Esquiva-se da trégua e, enfim, suporte,
Este caminho há de ser pago com suor.

Esconde-se do vício, vasto abismo,
Entrega-se ao início sem cinismo,
Que o tempo há de provar se foi melhor.

domingo, 6 de março de 2022

Sobre as Sombras

Impropérios foram ditos, verdades não foram à tona

E o silêncio fez morada pelas sombras de teu bosque.

Tu partistes a buscar um outro amor que, enfim, enrosque

E deixou apenas eco das poesias que eres dona.


Vasta é a literatura que o teu nome menciona,

Sobre ela... os românticos tem escrito há tanto tempo,

Tal qual musa enfeitiçada, congelada no momento,

Quanto amor há de se achar nos versos que ela coleciona.


Certa vez, disse-me um mago, que tu havia de voltar

E reocupar os sonhos dos poetas ainda a vir,

Desde então olho as janelas na esperança de surgir

Qualquer sinal que indique que estás prestes a chegar.


Sobram muitas palavras, que são só pra disfarçar 

A ilusão que vou nutrindo na espera de um romance.

Sei que tu ergue-se ao céu e não há sombra que te alcance,

E nós, poetas, somos sombras, sem tua luz pra iluminar.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2021

Salamandras & Serafins

                                                                 Ao Amigo Inácio Arcanjo.


Querido amigo, tenho orado em teu nome,

Que a graça do Senhor desperte teu olhar,

Que tu há muito já não sabe o que é amar

E é só escravo de um vago renome.


Tu, que confundes, forjas e falsificas

Qualquer traço de afeto verdadeiro

Em teus disparos de reles cancioneiro,

Nunca entendeu que amor é pra quem fica.


E sei que vais partir, é do teu tipo,

Apaixonar-se por bem pouco, quase nada,

E dar as costas ao sinal de tempestade.

Mas a ti, meu caro amigo, eu antecipo

Que a solidão é pouco a pouco conquistada,

E tu há muito demonstrou tua vontade.

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Efêmero Encanto

Dizem que tudo que sinto
Escapa-me com facilidade
E sei que, no fundo, é verdade,
De certa maneira consinto.

Por saber que assim sou
Me agarro aos amores intensos,
Tecendo mil planos extensos...
Quando percebo passou.

De cada amor resta a lembrança
Do corpo que dormia ao lado,
Como um retrato inacabado
Que dura ao tempo e a intemperança.

Por esse motivo que canto
Pra dar justiça ao coração
E eternizar a sensação
Do mais efêmero encanto.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Guarda-me

Guarde-me dentro de teu peito, amada minha, 

Guarda-me inteiro em seu sonho mais bonito, 

Se não restam esperanças, eu ainda acredito, 

Guarda-me contigo e nunca estarás sozinha. 


Guarda-me, assim, nas lembranças mais ternas, 

Guarda-me, enfim, como o que restou 

Do amor mais sincero, que o tempo tomou, 

Bem antes do tempo das juras eternas. 


Guarda meus olhos, meus beijos, minha voz 

A memória mais quente da vida que negas, 

E o caminho de volta, pra quando quiseres. 


Guarda-me, agora, que o tempo é feroz, 

Preserva este tolo, que ao teus pés se entrega, 

E, mesmo que louco, ainda te queres.

sábado, 4 de julho de 2020

Valioso

Que o Senhor revigore meus olhos, conceda-nos tempo de sobra
E caso questionem sua obra, que nosso amor sirva de exemplo.
O mundo se acaba lá fora, enquanto apenas a contemplo
Ergo em meu peito teu templo, imune a passagem das horas.

Sonhos da vida real, teus olhos que fitam meus versos
Tantos lamentos dispersos à força de tua presença
Sei que isso não é normal, mas será que faz diferença?
Nós nos encontraríamos, mesmo em caminhos diversos.

Pousa tua mão na minha, aquilo que nos falta agora
É tão pouco diante da imensa cumplicidade,
Tu cessa a tormenta que envolve este coração ansioso.
Vês, não estás mais sozinha. Esquece as dores de outrora,
Que agora tu conhecerás o que é amor de verdade.
Buscava o brilho e a glória, mas achei algo mais valioso.

sexta-feira, 26 de junho de 2020

A Criança e o Mar

O mar logo será natural aos teus olhos, criança,
Não se assuste com a imensidão a frente,
Tua vida veio como um sopro de esperança
Que renova um mundo indiferente.

Virão vários dias de luta e algumas noites de sonho,
E as vezes a força parece falhar, é verdade,
Mas saibas que tu terás sempre o tamanho
Das tuas ideias, somadas à força de tua vontade.

Tua história não acaba na praia, entre a areia
E o sol que te banha, nãoprenda-se ao medo latente
Que emana das feras do fundo do mar.
Escuta somente aquilo que teu próprio peito anseia,
E faz tua história como vier-lhe à mente,
Tu tens um mundo a conquistar.



terça-feira, 16 de junho de 2020

Formol

Ampulhetas, ampulhetas de um tempo errado,
Das luzes mais brilhantes que cegaram os vagalumes,
Arte que já não se nota em um mundo fragmentado
E só vai desafogar devido a força do costume.

São questões obsoletas, mas é tudo o que eu tenho,
As perguntas que não calam tem que ter encerramento...
A glória que nunca veio, em detrimento deste empenho
De manter-me vivo a noite, condensando o pensamento.

Ah, estas pobres borboletas vão morrer com a luz do sol
O bater das asas move, mas o sonho não se sustenta,
Só lhes restarão as cores, conservadas no formol,
E a imposição do belo, da forma mais violenta.

Nem poetas, nem cometas, nem qualquer revolução,
As frases de maior efeito hoje estampam camisetas,
Românticos, modernos, pós-modernos, tudo em vão,
Todos estão condenados a morrer nas baionetas.

terça-feira, 12 de maio de 2020

Jovens Tristes

Caiu, imperceptível, teu pranto no passado,
Doce fantasma dos dias mais cinzas que vieram,
Descansa o peito desse mal que lhe fizeram,
Eu sei tão bem o quanto a teria amado.

Duras as penas dessa via que se estende
Atravessando pelos mares e oceanos...
Como o destino, tão irônico, pretende
Conectar o que não existe há tantos anos?

Dorme, tua sombra não pesa mais nada,
O sol do Senhor ilumina a tua glória,
Meus versos de amor estavam errados...
De certo a resposta já foi encontrada:
Faltava era eu, junto a ti, em tua história,
Dois jovens tristes e apaixonados.

sexta-feira, 17 de abril de 2020

Martírio

Tenho as mãos fracas e o espírito abatido
Já não há nada de forte no que sai da pena
Não resta nem um dia de vigília e quarentena
Agora eu sou a sombra do que poderia ter sido

Semimorto neste leito do hospital de campanha
Tenciono a derradeira tentativa de escrever-lhe
Oro pra que anjos que te guardem e o Senhor te aconselhe
Posso não estar presente, mas minha alma lhe acompanha

Silenciosamente, cedo à febre e ao delírio
Serei só estatística, da morte e da paixão
Sonho, mas acordo, e é real minha solidão...
Foi tudo por amor ou por loucura ou por martírio
Foi tudo o que havia de melhor em Penaforte
Se não tenho o beijo teu, ao menos tenho o da morte

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Não posso afirmar que esta não é a mesma tempestade que caía no dia em que nos conhecemos,

Monelle,

Não posso afirmar que esta não é a mesma tempestade que caía no dia em que nos conhecemos, mas garanto que meus sentimentos são os mesmos, este coração tempestuoso segue relampeando ao ouvir teu nome e desaguando por tua ausência. Não posso afirmar que todas essas madrugadas não foram a mesma madrugada, mas posso garantir que todas elas foram tuas e reconhecer, serenamente, que foram estes os únicos momentos em que vivi, e não apenas existi como um coitado, que se lamenta enquanto assiste o movimento do alto das casas vizinhas.

Sei como é difícil sofrer em solidão. Passo os dias prometendo calar-me e, mesmo diante da revolta, não sair desesperado à tua procura. Sei que é difícil, pois é difícil para mim também. Dói-me não habitar, conscientemente, os mesmos sonhos que sonhas à noite, mas hei de amansar as tempestades de meus olhos, pra seguir minha vigília... Na última noite as sombras chegaram mais perto.

Pelas noites tenho visto cada coisa, meu amor, as vezes penso que seria melhor orar para que o Senhor nos leve, pois não sei se existe proteção contra a perversão humana. Os fanáticos seguem festejando, agora mesmo posso ouvir o som de suas vozes pelas ruas. Enquanto escrevo estas palavras febris, sinto calor e medo. Será que o mundo realmente merece ser salvo? Apenas agradeço por ter encontrado a ti, antes que a morte me encontrasse, mesmo que apenas nossas almas saboreiem o romance. Meu corpo trêmulo se encolhe debilmente, as criaturas da noite estão aqui...

Rezarei, mais uma vez, ao pé da cama. Meu terço velho de tão usado está quente ou talvez seja o meu desejo ou talvez seja só a febre...  Não sei. Gritei seu nome bem forte em minha mente, que é pra espantar todos os males que me acossam e ver se assim eu durmo, em paz, só dessa vez. Todo delírio vai passar amanhã, Monelle, só preciso dormir.

Penaforte

domingo, 29 de março de 2020

Cânticos

I

O dia do Senhor amanheceu em cinza claro
Pelas esquinas os rumores antecipam o estopim...
Eles vão andando em bandos, os fanáticos do fim,
Tão seguros e tranquilos, mesmo sem nenhum amparo.

Lá de longe, em outro bairro, eu assisto o movimento
Desses carros funerários que carregam os defuntos
Mortos de vala comum, não se fala outros assuntos,
Todos assistindo a vida se encerrar em tom cinzento.

Para além do muro e rua, existe a praça de defronte
Proclamando disparates, os fanáticos comungam,
Os que passam por aqui, por trás das máscaras, resmungam
Todos eles, tristes corpos, irão aumentar o monte...

A revolução aguarda, silenciosa, nos porões
Eu espero a minha ordem e o sinal de meu Senhor
Oro pra que os anjos a guardem, imaculada, meu amor,
Pois logo estarei pela rua, entre os rifles e canhões.

II

O cavaleiro branco já nos reina absoluto
Nos governa, bem do alto, sob a mira de sua seta
Faz deitar ao chão a chuva, sua purificação direta,
Vendo a angústia dos doentes, permanece resoluto.

Vêm, trajando preto, os antigos latifundiários
Que se negam a dividir os frutos de tua bonança
Assistem o desespero, enquanto pesam na balança
O quanto irão negar a teus famintos funcionários

Rubro, ao brilho de tua espada, chega o novo cavaleiro
Para incentivar o atrito que nos ceifará da terra
Especializado em tudo que é pequeno e causa guerra
E cumpre, lealmente, cada horror desse roteiro

Por fim chega a criatura, com os seus olhos dourados
Trazendo nas mãos a mortalha e no riso o próprio inferno
Já assistiu a tanta coisa, o cavaleiro sempiterno,
Mas ainda não havia visto o fim de tantos condenados

III

Sob a luz do sol, não há terror que tome conta
Seguimos adiante, enfeitiçados na ilusão,
A morte tão distante não nos toca na razão
E a pilha de cadáveres no jornal não amedronta.

Os demônios se esgueiram nas sombras e nos cantos
Sussurrando as tentações que só a rua nos concede,
Mal dizendo a opinião pública, que do lucro nos impede:
"Do que nos serve ter dinheiro e não viver os teus encantos?

Iremos ocupar as praças, avenidas, prefeituras
A câmara dos deputados, o senado, os sindicatos,
As escolas, faculdades, os liceus e os internatos
E todo espaço em que ressoam os disparates e as loucuras"

Mas sob a luz do sol, não há terror na realidade
Por detrás do céu azul, há um paraíso inalcançável
Só nos resta construir o nosso Éden comerciável
E viver, aqui nos trópicos, o sonho que é verdade

IV

Vês, sou apenas mais um que sofre na tribulação
Como se assistisse a hera tomar conta do jardim
E somente esperasse pela surpresa no fim
Me escondendo, tão covarde, em minha própria criação

Logo mais virá a noite, a paranoia, a intensidade
E as sombras que se agrupam nos telhados vizinhos
Horrores de outro mundo construindo aqui seus ninhos,
Que aguardam o pesadelo para destilar maldade

Eu te busco, minha amada, te insiro na minha rima
A ti crio um mundo inteiro, em que tudo está melhor
E nós dois nos deitaremos, sem ninguém ao redor
E concretizaremos esse amor que é nossa sina

Estou febril, entristecido, talvez não me reste tanto
Não sei se a antologia de meus versos sobrevive
Ou se, dessas batalhas, qualquer êxito obtive
Mas o meu coração se rende, para sempre, ao teu encanto



sábado, 28 de março de 2020

Monelle #4

Monelle,

Por aqui as janelas já não se abrem, e por detrás delas um mundo inteiro morre a cada hora. Do alto das casas vizinhas tenho percebido o movimento constante dos transportes funerários, mas tudo é só o silêncio das máscaras. Já não sei o que pensar... Alguns ciclos se fecham e talvez um dos próximos seja o nosso. Restam poucos que sujeitam-se à sorte, esse ferozes fanáticos do fim, erguendo as vozes nas filas de farmácia e o estandarte da contra-revolução. Eu peço apenas pra que o Senhor nos ilumine e guarde, pois a piada só me deixou um gosto amargo.

As manhãs já saem do horizonte cinzas e só tuas cores fazem o dia valer a pena. Me dizes cego, mas não vês que enxergo além? Mesmo imerso na mesmice, eu te distinguo dos demais, Monelle, pois até os seus perigos me seduzem. Quisera ter algum vislumbre do futuro, qualquer coisa que nos garantisse o acerto, mas estamos presos por debaixo do escafandro e eu só sinto a falta de ar... Acordo, febril, mais uma vez diante da mesa e penso em ti. Acendo o cigarro sigo pensando em como seria bom se acordássemos de um sonho coletivo e nos encontrássemos novamente, apenas pelo instinto de que o amor está em ti. Mas ainda acordaremos separados, em incontáveis manhãs e tardes, tateando o vazio e suspirando.

Mas haverá o nosso amor, como já existe, como já nasceu e vive. Vive em mim, poeta de olhos calmos, e em ti, minha tempestuosa artista. Não se assuste com as perspectivas e as matérias de jornais, aceita em teu coração o expurgo que se aproxima, o Senhor lhe guarda, lealmente. Usas de teus olhos lúcidos e de tuas mãos habilidosas, pinta o nosso amor de fim de mundo. Tenho vivido apenas pra ser teu amante, seguirei sendo pelo tempo que me concederes ou até que o golpe do carrasco venha.

Entretanto, preciso pedir-lhe que redobre seus cuidados, meu amor, pois coisas terríveis nos espreitam lá fora e eu jamais prosseguiria sem você.. Ouvi pelos mercados que o pior está por vir.

Orarei por nós esta noite,
Penaforte

quarta-feira, 25 de março de 2020

Só conheço o dissabor e a intemperança, como se o crepúsculo durasse para sempre

Só conheço o dissabor e a intemperança, como se o crepúsculo durasse para sempre. Nesta fria madrugada, tuas palavras são como todas as estrelas, brilham, mesmo que distantes, guiando a nave que carrega meu destino, como se tudo que eu conhecesse fosse o teu norte. Mas o Senhor nos concedeu a quarta-feira, como outra chance de viver um amor - esse amor de serafins - gravado em fogo da tua pele, fruto de ardores e desejos.

Somos como duas sombras, vivendo apenas quando nossos corpos se encontram sob o sol, espectros tristes das pessoas que somos. Mas ainda resta a cria amada: o doce amor de uma semana, que parece não ser parte desse mundo. Me sento à calçada, o que hei de fazer? Sou poeta apenas por ofício, mas, aos olhos de nosso Senhor, sou só mais um amante, seguindo só pela estrada da saudade, essa estrada que, não obstante as direções que escolhamos, só me leva pra mais longe de ti, Monelle. Não se derrames em vão, sou tudo o que quiser que seja, mas não posso ser o mar, que sorveria as tuas lágrimas de sal e solidão.

Não ceda à angústia, não entregue a tua doçura por desalento e desespero. Somos dois desajustados que aos poucos têm se ajustado melhor, dois estrangeiros na terra dos simplórios, ainda nos resta o objetivo derradeiro: ser somente amor. Ofélia nenhuma saberias dizer-lhe como é ser objeto de tamanho sentimento. Se guarde na torre, o mundo lá fora jamais te mereceu.

Atravessando a cerração e violência, logo nos encontraremos.

Ernesto Penaforte


terça-feira, 24 de março de 2020

Anjo Caído

O Senhor doirou os céus pros olhos teus,
Fez nascer sol onde só havia angústia,
Torço somente pra que a dor jamais assuste-a,
Tu és, Monelle, essência destes sonhos meus.

Vivemos tensos pelo alarde a rua afora,
Assistindo ao desespero e o eclipse.
Sigo orando pra que o Senhor certifique-se
E faça desse tempo a nossa aurora

São dias frios, solitários e distantes,
Pra estas mãos, que só desejam teu calor,
Mas pendem fracas desse corpo. Anjo caído...
A redenção não está nas luzes mais brilhantes,
Ela somente vem a mim por teu amor,
E cura todo horror que o mundo tem sofrido.

domingo, 22 de março de 2020

Alguma Solução Profética

Às cinco horas eu acordo, tateando à tua procura
E me perco no silêncio desta insone madrugada
Me proponho tanta coisa, me afogo na ternura
E na imensa sintonia da paixão tão prematura
Como se minha própria alma estivesse embriagada 

Somos dois desajustados, loucamente procurando
Por motivos adequados pra justificar a entrega
E de tanto procurar, acabamos encontrando 
Esse súbito romance vai aos poucos se ajustando,
E, de longe, sinto tudo aquilo que você não nega

Mas com tantos artifícios pra render esta poética
Sei que acabo lhe causando, fatalmente, confusão
Entendo teus anseios, tua postura, que é tão cética,
E não tento lhe vender alguma solução profética
Você diz que não entende, mas até me dá razão

E seguimos construindo esta doce fantasia
Aos olhos de nosso Senhor, que nos deu a permissão
De criar um novo amor, colocado em primazia
Mesmo que o resultado só nos venha em outro dia
Já te guardo, bem segura, dentro de meu coração

Monelle #3

Monelle,

O próprio Hades haveria de me conceder passagem, caso o beijo frio da morte lhe alcançasse antes do meu, mas estás segura, protegida pelos anjos do Senhor, que intercede gentilmente em minhas várias orações. Se tu és minha Eurídice, saibas que este Orfeu não olha para trás, mirando somente o que está disposto a nossa frente e, assim, planejando cuidadoso um futuro nosso. Nesses versos apolíneos que te escrevo, a carruagem ensolarada é, tão somente, a sua luz. Não se aflijas nem mais um segundo, pois teço a ti os mais solenes juramentos. 

Que venha a guerra, a peste e a morte. Se há espaço no teu seio, edificarei aí nosso recanto com as mais belas palavras que encontrar no vasto léxico. Nossos muros serão altos e robustos, pra impedir que a vida avance para dentro de nossa paz. As janelas serão claras e alinhadas. Com varandas altas, colunas brancas e um aconchegante jardim, de onde colherei as flores que enfeitarão a poesia de todos os dias que passarmos juntos. É belo o desatino... Causa dor imaginar.

Hoje veio a nova tempestade. Sinto que estás se distanciando cada vez mais de mim, mas deve ser somente o tédio, que mina lentamente os ânimos desses corações apaixonados. Não desista do romance, o Senhor nos reserva o encontro em sonho quente. O outono chegou, Monelle, deixe que as folhas caiam e o vento passe taciturno, mas não deixe ressecar o que há de amor em ti.

Aguardo-lhe na morada de Morfeu,
E.P.

sábado, 21 de março de 2020

Emboscada

Não há em mim esse bom senso, que todos dizem ter,
Me nego a ter limites, pois me sobra tanto instinto.
Tenho este tolo coração, tão incerto do que sinto,
Mas que bate em sintonia com o que tenho pra dizer

Ansioso e exagerado, aceito estes adjetivos,
Mas não sou dissimulado e nem pretendo a ilusão.
Sei que escrevo poemas, mas não vivo a ficção,
E nem tento controlar os meus impulsos criativos.

Tenho apenas garantia de que os versos são honestos.
Canto, sem nenhum remorso, todo esse confessionismo
Planejando, unicamente, conquistar tua atenção.
Como o vilão que, displicente, conta seus planos funestos
E termina derrotado em algum ato de heroísmo,
Eu afirmo a ti, Monelle: roubarei teu coração.

sexta-feira, 20 de março de 2020

A ânsia, o sonho e a insônia de um rapaz chamado Ernesto

Aguardo o enlace, o verdadeiro enlace
Aquele tal qual nó, mas nunca cego
Dest'ânsia que eu, sôfrego, não nego
Quisera apenas que a tua mão me acalmasse 

Mas tu és sonho, ou no mínimo miragem
És o ideal tão puro e romantizado
A musa deste cavaleiro desmontado
Para te escrever ainda falta-me linguagem

Já não durmo, pois falta aqui teu corpo quente
O terço gasto pelas várias orações
Pra que o Senhor aproxime os corações
Proporcionando um amanhã tão diferente

Aquele que combate abismos incontáveis
Ernesto Penaforte és teu criado
Diante de teus pés, ajoelhado
Pronto para os nossos dias memoráveis