E assim, diante às portas que me levariam
Novamente à fantasia de um amor perdido
Devo tomar, em súbito choque de qualquer realidade,
A direção oposta?
E ao buscar, de mãos postas em ferragens
Deste encontro, qualquer vislumbre de um futuro,
Encontraria senão ruína,
Senão aquilo que não foi e nunca será?
Frente a instância de deu novo recomeço,
Em uma impensável hora, de temor e lucidez,
O fim acusa um recomeço,
Em que eu não posso estar.
quinta-feira, 28 de maio de 2026
Um não-lugar
Das Sentenças
Nosso crime sempre fora nutrir qualquer tristeza
E assim, compartilhamos, além de ausências e silêncios,
Esta sentença de penosa solidão,
Mesmo quando acompanhados.
Resta ainda a dúvida, os mistérios sujeitos apenas
A teus tristes olhos, tuas mãos de garras felinas.
Tuas mazelas anunciadas friamente, no vestido negro que trajavas,
Teus cortes de tecido, tuas alegorias mórbidas expressas em tela,
Tuas palavras, lâminas lançadas a meu corpo,
E eu, alçado na loucura de tuas apresentações,
Servo de tuas indisposições e amarguras,
Já não sei mais como servir.
Considerações Acerca do Retorno
Por fim, me encontro em meios de trajeto,
De um lado o despenhadeiro cavado por tuas mãos,
Do outro, o muro que edifiquei com as pedras que jogastes,
E eu, que já não me recordo o que era,
Me pego a pensar no que serei ao fim desta viagem.
Considero o retorno, considero a noite tenra,
Considero as hospedarias que se erguem, luzes frágeis como eu.
Se te busco, perco-me, amor,
E ainda que me venha algum sorriso nessas horas,
Me lembro do silêncio que se abate sobre a angústia
E das paradas obscuras que fizestes no caminho,
Tu e eu, tão condenáveis...
A Impensável Hora
Cegava-me o sol, às onze horas, de frente à linha
Onde tomaria, por mais uma vez, o trem
Que leva à instância de teu novo recomeço.
Há anos busco a paz que tu me prometeras,
Enquanto viajo pelos vales e depressões de nossa vida.
Por tantas vezes desdenhamos do futuro, enquanto descíamos
Os andares escuros do Edifício Raposo Tavares, em busca
De serras e pecados.
Haveria de chegar um tempo em que tu subistes só,
E quando chegasses, essa impensável hora, anunciaria
Um ano sombrio, peste, guerra,
O fim de nossa sintonia.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2026
A Chave do Feitiço
Ergue-se o sol e não dura mais que um dia
E minha triste melodia, aqui chega em seu final.
Há de haver algum sinal que marque o cerne da memória
Ou transforme em bela história o que já não é real.
Clamo sutilezas mil, translúcidas de ensejo,
E condenso algum desejo, que é a chave do feitiço,
Então, dito tudo isso, são dez giros de ampulheta
E o passado, que se enfeita, abre as portas de um início.
Há perigo além da curva, disso tu já sabes bem,
Seja neste ou em outro conto, o canto pode silenciar,
A distância, a bruma, o tempo, são questões subjetivas...
Há perigo além da curva, outra curva sempre vem
E em uma destas curvas tu bem podes se lembrar
Desta marca na memória, desta história ainda viva.