quinta-feira, 28 de maio de 2026

De Carvalhos e Oliveiras

                                                    Ao amigo Matheus Oliveira


Passo, sutilmente, as mãos por sob as teclas deste velho piano,
Tu recordas, caro amigo, que tudo isso era tão teu?
Que por noites reuníamos, eu, tu e nossos amigos,
Penaforte e Cruz de Sá cantavam, aos teus acordes dissonantes,
Não por qualquer estratégia ou almejo de jazz, que tua
Imensa petulância adoraria propor como um intento,
E aqui, em segredo público, afirmo tratar-se de preguiça
Afinal a ti sempre faltou um certo afinco.
Disciplinas a menos, ímpetos a mais,
E os anos foram esculpindo a tua obra,
Como um triste memorial a tudo que tens perdido.
Já nem lembro quando é que nos perdemos também.

Naturalmente, tempestade e ventania não resultam em tranquilidade,
E tu, mestre de tudo aquilo que cai, 
Há de convir que tua queda doeu muito — e ainda dói em ti,
Como se a chuva de nosso encontro nunca houvesse passado.
Tu se lembra? 
Chovia muito na esquina de Guajajaras e Bahia,
E nosso encontro deve-se, em grande parte,
À existência de uma escada que subia ao céu,
Ou a qualquer boteco,
Onde, por não mais que alguns trocados,
Era possível desfrutar de cervejas, canções e amizades,
Das procedências mais incertas desta cinza capital.

Nunca fomos grandes, tu e eu, por mais que gostemos da ilusão...
Talvez por isso busquemos no outro uma mão insólita,
Que ergue aquilo que nos soa tão medíocre,
Medíocre como nós.
Há de se exibir um certo orgulho, meu amigo,
Afinal tu fostes sempre o mais difícil de lidar,
E se isso não causa em ti um certo espanto,
Certamente causa em nós um breve senso de sucesso,
De manter em rédeas curtas tua personalidade tão...
Selvagem?

Afinal, tu és cria das províncias mais selvagens,
Druida autodidata, feiticeiro elevado pelo fracasso do espírito,
E então, um jovem mago, de poder desconhecido,
Haveria de querer provar-se.
Por anos quisera ser apenas grande,
Depois quisera ser imenso,
E hoje, com sorte, talvez ainda queira ser você.

Afinal, quem busca ser quem é, há de buscar sinceridade,
E tu, meu nobre mentiroso, tens mentido até sobre teus nomes.
De Caeiro aprendeu as lições com primazia,
Mas de Fernando Pessoa, tiraste apenas a vontade de ser outra pessoa...
Perdido nessa farsa de ser qualquer pessoa é que 
Esquecestes
Da pessoa que tu és.

Por que buscas sofrer, meu velho amigo?
Ao que recordo das palavras do mestre,
O fingidor finge, mesmo que deveras sinta,
E tu, que tens fingido sorrisos às beiras de mar,
Que tens escavado teu rosto de pedra
Buscando devolver a quem lhe ama
Algum traço de riso, só tens sofrido.
Teu fingimento não engana ninguém,
Nem mesmo este ser tão limitado,
Não mais que essência de tudo aquilo
Que fostes outrora.

Devemos buscar novamente as raízes, tu e eu,
Buscar o que há de comum nas sombras
De Carvalhos e Oliveiras,
Dois jovens abandonados pela sucessão dos fatos
De um passado desastroso.
Devemos buscar aquilo que nos orgulhava sonhar,
Afinal, de tanta dor sempre nasceu arte,
De tanta solidão sempre ressoou teu canto.

E um universo inteiro se desenha ao teu redor,
Terras onde nos aventuramos, por fragmentos de sonhos,
Por ilusões, traços de delírio, talvez alguma realidade...
Tu és o centro disso,
E sem tua mão e tua escrita, que é que seria de nós?

Por isso clamo que retornes às tuas práticas, feiticeiro,
Quero ver tua tinta sobre o papel desta vida novamente,
Quero sentir o pulso de tua magia, seja ela qual for,
Desejo me enraivecer com teu sucesso
E preterir minha escrita à tua, pelo doce despeito
Que resta neste senso de orgulho,
Culpa sua, que criou em mim esta vã antipatia.
Em teu próximo ritual, esqueça que eras Merlin,
Pois teu nome ainda soa bem melhor.

Matheus, outrora esquecestes das promessas que fizestes,
Mas nós não nos esqueceremos,
E cada obra serve de fundação à próxima,
Neste universo que montastes peça a peça
De teu fútil quebra-cabeças,
Passatempo de nossos iguais,
Da mediocridade ainda emana algum mistério
E desta queda, fez-se vasta literatura.
Dessa vez resguarda o que tu és a ti,
E não ofereça pérolas aos porcos
Ou provérbios aos loucos.
As profecias já nos revelaram que a grandeza está sempre a uma
Esquina de distância,
E, assim, aguardo-lhe

Na próxima curva.


Um não-lugar

E assim, diante às portas que me levariam
Novamente à fantasia de um amor perdido
Devo tomar, em súbito choque de qualquer realidade,
A direção oposta?
E ao buscar, de mãos postas em ferragens 
Deste encontro, qualquer vislumbre de um futuro,
Encontraria senão ruína,
Senão aquilo que não foi e nunca será?
Frente a instância de teu novo recomeço,
Em uma impensável hora, de temor e lucidez,
O fim acusa um recomeço,
Em que eu não posso estar.

Das Sentenças

Nosso crime sempre fora nutrir qualquer tristeza
E assim, compartilhamos, além de ausências e silêncios,
Esta sentença de penosa solidão,
Mesmo quando acompanhados.
Resta ainda a dúvida, os mistérios sujeitos apenas
A teus tristes olhos, tuas mãos de garras felinas.
Tuas mazelas anunciadas friamente, no vestido negro que trajavas,
Teus cortes de tecido, tuas alegorias mórbidas expressas em tela,
Tuas palavras, lâminas lançadas a meu corpo,
E eu, alçado na loucura de tuas apresentações,
Servo de tuas indisposições e amarguras,
Já não sei mais como servir.

Considerações Acerca do Retorno

Por fim, me encontro em meios de trajeto,
De um lado o despenhadeiro cavado por tuas mãos,
Do outro, o muro que edifiquei com as pedras que jogastes,
E eu, que já não me recordo o que era,
Me pego a pensar no que serei ao fim desta viagem.
Considero o retorno, considero a noite tenra,
Considero as hospedarias que se erguem, luzes frágeis como eu.
Se te busco, perco-me, amor,
E ainda que me venha algum sorriso nessas horas,
Me lembro do silêncio que se abate sobre a angústia
E das paradas obscuras que fizestes no caminho,
Tu e eu, tão condenáveis...

A Impensável Hora

Cegava-me o sol, às onze horas, de frente à linha
Onde tomaria, por mais uma vez, o trem
Que leva à instância de teu novo recomeço.
Há anos busco a paz que tu me prometeras,
Enquanto viajo pelos vales e depressões de nossa vida.
Por tantas vezes desdenhamos do futuro, enquanto descíamos
Os andares escuros do Edifício Raposo Tavares, em busca
De serras e pecados.
Haveria de chegar um tempo em que tu subistes só,
E quando chegasses, essa impensável hora, anunciaria
Um ano sombrio, peste, guerra,
O fim de nossa sintonia.