Ao amigo Matheus Oliveira
Passo, sutilmente, as mãos por sob as teclas deste velho piano,
Tu recordas, caro amigo, que tudo isso era tão teu?
Que por noites reuníamos, eu, tu e nossos amigos,
Penaforte e Cruz de Sá cantavam, aos teus acordes dissonantes,
Não por qualquer estratégia ou almejo de jazz, que tua
Imensa petulância adoraria propor como um intento,
E aqui, em segredo público, afirmo tratar-se de preguiça
Afinal a ti sempre faltou um certo afinco.
Disciplinas a menos, ímpetos a mais,
E os anos foram esculpindo a tua obra,
Como um triste memorial a tudo que tens perdido.
Já nem lembro quando é que nos perdemos também.
E tu, mestre de tudo aquilo que cai,
Há de convir que tua queda doeu muito — e ainda dói em ti,
Como se a chuva de nosso encontro nunca houvesse passado.
Tu se lembra?
Chovia muito na esquina de Guajajaras e Bahia,
E nosso encontro deve-se, em grande parte,
À existência de uma escada que subia ao céu,
Ou a qualquer boteco,
Onde, por não mais que alguns trocados,
Era possível desfrutar de cervejas, canções e amizades,
Das procedências mais incertas desta cinza capital.
Talvez por isso busquemos no outro uma mão insólita,
Que ergue aquilo que nos soa tão medíocre,
Medíocre como nós.
Há de se exibir um certo orgulho, meu amigo,
Afinal tu fostes sempre o mais difícil de lidar,
E se isso não causa em ti um certo espanto,
Certamente causa em nós um breve senso de sucesso,
De manter em rédeas curtas tua personalidade tão...
Afinal, tu és cria das províncias mais selvagens,
Druida autodidata, feiticeiro elevado pelo fracasso do espírito,
Haveria de querer provar-se.
Por anos quisera ser apenas grande,
Depois quisera ser imenso,
E hoje, com sorte, talvez ainda queira ser você.
E tu, meu nobre mentiroso, tens mentido até sobre teus nomes.
De Caeiro aprendeu as lições com primazia,
Mas de Fernando Pessoa, tiraste apenas a vontade de ser outra pessoa...
Perdido nessa farsa de ser qualquer pessoa é que
Esquecestes
Da pessoa que tu és.
Por que buscas sofrer, meu velho amigo?
Ao que recordo das palavras do mestre,
O fingidor finge, mesmo que deveras sinta,
E tu, que tens fingido sorrisos às beiras de mar,
Que tens escavado teu rosto de pedra
Buscando devolver a quem lhe ama
Algum traço de riso, só tens sofrido.
Teu fingimento não engana ninguém,
Nem mesmo este ser tão limitado,
Não mais que essência de tudo aquilo
Que fostes outrora.
Devemos buscar novamente as raízes, tu e eu,
De Carvalhos e Oliveiras,
Dois jovens abandonados pela sucessão dos fatos
De um passado desastroso.
Devemos buscar aquilo que nos orgulhava sonhar,
Afinal, de tanta dor sempre nasceu arte,
De tanta solidão sempre ressoou teu canto.
Terras onde nos aventuramos, por fragmentos de sonhos,
Por ilusões, traços de delírio, talvez alguma realidade...
Tu és o centro disso,
E sem tua mão e tua escrita, que é que seria de nós?
Por isso clamo que retornes às tuas práticas, feiticeiro,
Quero ver tua tinta sobre o papel desta vida novamente,
Quero sentir o pulso de tua magia, seja ela qual for,
Desejo me enraivecer com teu sucesso
E preterir tua escrita à minha, pelo doce despeito
Que resta neste senso de orgulho,
Culpa sua, que criou em mim esta vã antipatia.
Pois teu nome ainda soa bem melhor.
Mas nós não nos esqueceremos,
E cada obra serve de fundação à próxima,
Neste universo que montastes peça a peça
De teu fútil quebra-cabeças,
Passatempo de nossos iguais,
Da mediocridade ainda emana algum mistério
Dessa vez resguarda o que tu és a ti,
E não ofereça pérolas aos porcos
Ou provérbios aos loucos.
As profecias já nos revelaram que a grandeza está sempre a uma
Esquina de distância,
E, assim, aguardo-lhe
Na próxima curva.