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quarta-feira, 3 de março de 2010

A Segunda Carta

A Segunda Carta foi escrita pelo Insone.


Tempo. Eu nunca soube lidar com ele. Não soube administra-lo e perde parte da minha vida lutando contra ele. Não soube viver cada um dos momentos, sempre fiquei preocupado com o tempo que eles durariam e não com o quanto ele me marcariam. Tempo. Minha vida acabou se tornando uma linha de tempo nada cronológica. Sempre baseada em indas e vindas, nunca soube terminar o que já havia começado. Nunca consegui começar algo novo pois não me desligava do que já havia começado. Tempo, meu maior inimigo.

Insistência. Nunca notei os apelos das pessoas que estavam próximas de mim, sempre fui egoísta e cego, só eu importava. Nunca notei os desejos das pessoas que amava e que me amavam, perdi partes de mim por isso. A única mulher que amei hoje não me quer, meu egoísta foi aos poucos destruindo ela por dentro e ela enfim desistiu de se machucar. Insistência. Perdi meu único eterno amigo, meu irmão. Ele que sempre foi o melhor pra mim, sempre fez tudo o que podia. Nunca reparei nos seus desejos, suas VONTADES! Não conheci meu melhor amigo por egoísmo. Insistência, meu erro.

Força. Sempre me escondi atrás de uma suposta força. Nunca fui eu pela falsa necessidade de ser forte. Me tornei arrogante e misterioso para inspirar força e afastei mais ainda as pessoas de mim. Queria ser admirado e consegui, por pessoas que só queriam um pouco da minhas força e não queriam saber de mim. Força. Nunca tive a força necessária para me livrar das mentiras, dos jogos, dos teatros e de toda essa rede de falsidade que me envolve. Força, minha máscara.

Silêncio. Sempre evitei o silêncio, a solidão. Preferi estar próximo de pessoas que não faziam questão da minha presença, para evitar a falta de música, de vozes, de palavras. Falei absurdos para gerar polêmica. Sempre gostei de discussões, adorei me expor, aliás, expor o personagem que criei pra mim mesmo. Silêncio. Nunca reparei como o silêncio da mulher que eu amo dizia tudo que eu precisava ouvir. Nunca reparei que o silêncio de meu irmão era composto de uma melodia triste, nunca soube contornar o silêncio e conversar da forma que deveria. Silêncio, meu maior medo.

Consideração. Essa palavra não existia em meu dicionário. Nunca levei em conta os esforços alheios, nunca dei valor as pessoas que me davam valor. Queria sempre mais, busquei o novo. Queria o risco, a emoção. Ignorei que a maior emoção que podia sentir era aquele beijo, aquela conversa no bar. Consideração. Perdi as pessoas que me importavam por não saber demonstrar essa importância. Perdi meus amores, minha vida. Demonstrei consideração algumas vezes, por medo de ser deixado de lado, mas eram tentativas falsas, baseadas unicamente no medo de perder pelos meus erros. Perdi da mesma forma. Consideração, o grande nó em minha garganta.

Dúvidas. Nunca tive. Nunca me arrependi, nunca senti remorso, só pelo que eu não fiz. Hoje aprendi que tomando decisões deixei de trilhar outros caminhos que talvez me fizessem mais feliz. Me arrependo de não ter ficado ao seu lado quando deveria, meu amor, de não ter lhe dado ouvidos, de não ter lutado mais por você. Me arrependo de não ter permanecido ao seu lado, meu irmão, você sempre foi minha companhia e hoje estou realmente só. Dúvidas. Duvidei dos sentimentos e das palavras, mas sempre julguei. Julguei a tudo e a todos, hoje estou sendo julgado, por mim mesmo. Dúvidas, a minha sentença.

Vícios. Me escondi atrás deles. Busquei nele a força e as respostas que tanto precisava. Vi minha vida escorrer de minhas mãos aos poucos por causa desses vícios. Mas eles me davam emoção, risco. Eles me proporcionavam loucuras, que hoje talvez sejam os momentos mais felizes que me recordo, mas não pelos vícios e sim pelas companhias. Vícios. Os meus maiores eram a bajulação, o ego, a mentira. As pessoas me rodeando para me ouvir. Vícios, minha vida adulterada.

Insônia. Hoje sei que tudo aconteceu porque eu não tinha a coragem necessária de enfrentar o mundo. Bater no peito e deixar que a bala venha, deixar me rasgar aos poucos. Isso é a vida, lutar pelo que se deve e nem sempre pelo que se quer. Sei que as noites de sono que não tive foram proporcionadas pelos erros que cometi e ignorei. E então quando meu irmão fraquejou pela última vez me senti livre, não dele, mas do problema que não tinha coragem de resolver. Me repúdio por isso, me sinto bem por um problema sumir. Insônia. Só poderei voltar a dormir depois de estar em paz e essa paz não me cabe mais nesse mundo. Na morte a gente esquece, no amor a gente fica em paz. Não tenho mais o amor, só poss então esquecer. Insônia, meu castigo.

Pânico. Foi o meu carrasco durante toda a vida, e hoje sem apoio e força perdi a luta. Me entrego ao medo do novo, mas esse medo é bom. O pânico não me impedirá mais, serei livre daqui pra frente. Pânico. Esse é o motivo de tudo que fiz, não tinha coragem pra lidar com os problemas. Me desculpe meu amor, minha Lua. Me desculpe meu irmão, meu Sol. Não fui homem o suficiente de lutar por vocês e não quero que lutem por mim, não mais. Não mereço vocês, não mereço o mundo, não mereço a vida. Pânico, a luz que gerou a sombra, sombra que sou eu.

Morte. É a solução. Me despeço do mundo, pois a cada esquina minha vida caiu mais e mais, hoje não a tenho mais e não posso continuar de pé nesse mundo. Morte. Venha e me leve, a vida me deixou em duas etapas, um amor e um irmão. Morte, minha amiga fiel.

Morte. Adeus.

terça-feira, 2 de março de 2010

A Primeira Carta

Essa carta é citada no quinto e último capítulo da história do Insone e do Covarde. É a primeira de duas cartas, sendo essa escrita pelo covarde e destinada ao insone e a segunda escrita pelo Insone para o mundo.

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Já está ficando tarde, mas mesmo assim eu não conheci a vida. Tive medo. Devia ter gritado ao mundo sobre os meus desejos. Devia ter feito dos fantasmas os meus companheiros fiéis, meus amigos. Eu devia ter vivido o medo como uma fase única da minha vida, sombria e perigosa, mas única. Eu devia ter dado ouvidos a quem me disse que eu devia viver e não existir.

Me desculpe, meu irmão. Já anuncio aqui a hora de minha partida, mas diferentemente da música que tanto gostei, eu sei que rumo irei tomar. Não sei se vai se lembrar dessa música, nunca foi do seu agrado, como tudo o que eu fazia. As vezes lembro daquele tempo distante em que eu chamava a sua atenção pra cada um dos meus pequenos feitos e você nunca prestava atenção. Me desculpe pela insistência, mas aquilo era a única coisa que eu sabia fazer.

Você não. Você sempre foi forte, corajoso. Sempre encarou seus problemas com dignidade de homem. Sempre me senti um peso em suas costas meu irmão. Não posso mais esperar que as coisas se resolvam. Não posso esperar que venhas até aqui e que lhe diga tudo isso pessoalmente e você não atendeu meus telefonemas, deve estar ocupado. Queria poder dormir e esperar até o dia em que você me acordaria, embora eu saiba que nenhum problema se resolve com uma boa noite de sono, o sono só mascara as bruxas e os monstros e os deixa amigáveis pro nosso constante baile, a vida.

As vezes sinto que você tenta me esquecer, me ignorar. Devo ser um atraso em sua vida. Continuo a pensar na noite de ontem, quando você se levantou. Não consegui encontrar a minha falha, não consegui achar meus erros, minhas inconveniências. Se te magoei com minha fraqueza, meu silêncio sem nexo, minhas palavras vazias, me perdoe, sempre quis ser bom o suficiente pra você, mas nunca consegui. Sei que nada disso é surpresa pra você. Como queria ser alguém forte...

Tentei te ligar de novo agora. Você não atendeu. Será que você não se importa com minhas tentativas de conversar? Vou tentar de novo, se você atender jogarei essa carta e todas as outras no fogo. Nada. Acho que você está com raiva de mim. Me desculpe irmão.

Imagino agora que me falta pouco tempo. Será que você conseguirá encontrar o que restar de mim? Será que alguém na rua lhe dirá que saí? Será que ira procurar nosso velho conhecido no bar? Se por algum acaso voltar a me procurar em casa, achará muito estranho ver que não estarei no quarto. Será que tentará me ligar? Acho que não, se quisesse me falar atenderia algum de meus telefonemas.

Depois de quatro meses sem pisar fora de casa, o sol e a lua parecem diferentes meu irmão. O Mundo parece maior, mais medonho. Esse grande moinho já triturou os meus sonhos que eram tão mesquinhos, já reduziu minhas ilusões a pó... ao pó que eu tanto recorri pra criar novas ilusões. O mesmo pó que iria acabar com a maior de todas as ilusões, a vida...

Me desculpe por nunca ter lhe contado irmão, mas aquele seu velho conhecido do bar era também meu velho conhecido. Desde que soube dos seus vícios secretos eles se tornaram os meus vícios também. Sabia do efeito que aquilo lhe causava e queria sentir o mesmo, queria me sentir forte, me sentir bom. Me sentia um homem toda vez que usava a cocaína. Hoje, precisei de tudo que tinha para uma dose grande o suficiente pra escrever essa carta. Espero que entenda.

Começo agora a sentir o efeito da reviravolta em meu corpo. A morte está chegando para me buscar, meu irmão, e dessa vez eu não tenho medo. Sei que estou pronto para alcançar um novo plano, um novo horizonte. Queria ter sentido isso em vida, queria ter tido coragem de enfrentar os problemas que sempre me afugentaram.

Se por acaso tiver acesso a essas palavras, meu irmão, peço que não chores, não fique triste. Não fui homem durante a vida, não tive coragem pra enfrentar nem mesmo o sol e a lua, e agora morrendo, pela primeira vez sinto que posso atravessar o vale sombrio do medo. A culpa é minha por ter sido sempre a sua sombra, sempre ter sido o seu protegido e não ter te protegido quando você precisou. A paz está aos poucos tomando meu corpo, em pouco tempo não serei mais o que sou. Lembre-se que a vida foi um moinho pra mim, mas você é forte e vai superar tudo isso. Viva, meu irmão. Sua vida lhe reserva grandes feitos. Você já é grande e será muito maior.

"Preste atenção querida, em cada amor tu herdarás só o cinismo. Quando notáres estás a beira do abismo, abismo que cavaste com teus pés."


Adeus, olharei por ti quando deixar de ser só um covarde.

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Trecho em itálico da música "O Mundo é um Moinho" de Cartola

segunda-feira, 1 de março de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 5

Último Capítulo - A Insônia e a Covardia

O covarde se levantou da cama após horas perdidas na tentativa de adormecer. Sentia-se fraco. Sentia-se pior do que fraco, aliás, sempre fora fraco. Ele se sentia derrotado. Tinha perdido a guerra contra seu pior inimigo, ele mesmo. Sucumbiu pelo pânico. Ajoelhou-se e pediu misericórdia diante do seu assassino, o tempo. Já não havia volta para ele. Já não havia meios de sair do abismo que ele mesmo criara. Ele estava sozinho e a beira da queda. E caiu.


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O insone acordou com o telefone tocando. Já se passava das 11:00 da manhã! Como estava feliz por ter adormecido por tanto tempo. Se lembrava apenas de ter se cansado após chorar horas a fio. O telefone continuava tocando, mas ele ignorou, quem quer que fosse poderia esperar. Ele devia gritar ao mundo sobre sua alegria de ter dormido toda aquela noite. Sabia o que fazer, visitaria o irmão.

Foi tomar banho e ligou o rádio, que tocava um bocado de músicas que ele não conhecia, há muito não acompanhava o cotidiano. Desligou o chuveiro e se secou. Cantarolava uma música que seu irmão gostava muito..." Ainda é cedo amor... mal começastes a conhecer a vida..." nãnãnã e qualquer coisa. Nuna prestara muita atenção no que o irmão de fato fazia.

Vestiu-se e foi até a sala, ligou a televisão e um repórter falava sobre o congestionamento no centro. Seu irmão podia esperar mais algum tempo, afinal não valia a pena sair agora. Foi até a cozinha preparar um sanduíche e tomar um café. Acendeu um cigarro. Ah, sentia-se vivo novamente, como se não houvesse mais pesos em suas costas. Uma boa noite de sono livra qualquer um dos problemas do dia anterior. Estava errado.

O telefone tocou denovo. Pouco lhe importava, não atenderia ninguém naquele dia especial, nem mesmo seu chefe...talvez só o seu chefe. Lembrou-se do irmão, pensou em ligar e avisar sobre a visita. Não, é melhor ser uma surpresa. Será que seu irmão tinha ficado magoado com a sua atitude na noite passada? Esperava que não.

Passou algum tempo e ele resolveu sair. Entrou no carro e dirigiu por aquele caminho que ainda lhe era estranho. O celular tocou. Algum número desconhecido, não iria atender. Ligou o rádio do carro. Continuou o percurso. Pegou um pouco de transito intenso e pensou que iria se atrasar. O celular tocou mais uma vez, mas ele nem se importou.

Chegou a casa de seu irmão e reparou que havia um número incomum de pessoas naquela rua. Ah, deve ser festa em algum lugar da vizinhança. Tocou a campainha. Ninguém atendeu. Tocou de novo...nada...nada. Nada. Girou a maçaneta, a porta estava aberta. Foi até o quarto onde seu irmão costumava ficar. Vazio. Achou estranho. Onde o covarde poderia ter ido? Pegou o seu celular, iria ligar para o irmão. Não tinha o número, nem mesmo o de casa.

Saiu, voltou para o carro. Sentiu-se mais feliz, afinal seu irmão havia saido de casa após quase quatro meses de prisão domiciliar. O rádio contava sobre um rapaz que fora encontrado morto em uma rua perto dalí. "Isso explica essas pessoas aqui", pensou. O radialista contava que o rapaz havia morrido após usar uma altissima dose de cocaína e ter uma overdose. O celular tocou denovo, dessa vez um número diferente, mas desconhecido também. Resolveu atender podia ser seu irmão.

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O covarde sabia onde ir e o que fazer. Pegou todo o dinheiro que tinha e foi até o velho conhecido, em um bar próximo a rua de sua casa. Lá comprou toda a cocaína que podia e a usou alí mesmo. Sentiu que era capaz de tudo. Sentiu que era um super homem, ou ao menos um homem. Pegou o papel e a caneta que guardava pra ocasiões como esta e escreveu tudo o que queria dizer ao irmão. Sabia que não aguentaria muito mais tempo então não podia demorar. "Aqui estão as respostas" escreveu no verso "Me desculpe".

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O médico disse que seu irmão não havia aguentado a dose tão alta de cocaína e teve uma overdose fulminante. Entregou-lhe o bilhete que ele havia escrito e foi embora. O insone não conseguia falar, nem andar e quase não respirava. Foi pra casa tentar entender o que tinha acontecido com seu irmão.

Leu tudo três vezes e não conseguiu parar de chorar. Sabia que a culpa havia sido sua. Sabia que quem merecia tudo aquilo era ele e não seu irmão. Sabia o que tinha que fazer, embora fosse contra o último pedido do irmão. Escreveu tudo o que queria ter dito ao mundo em papéis manchados e sujos, colocou-os em cima da mesa, junto com tudo o que tinha de valor. Não haveriam mais noites intermináveis, nem medo, nem pânico, só o silêncio. A paz tomaria conta dele, a paz de espírito. Disparou. Mais um corpo caiu no chão aquele dia.

domingo, 28 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 4

Quarto Capítulo - A Insônia do Covarde

O covarde achou as chaves. Seu irmão já estava vindo e ele não fazia idéia do que fazer... Devia abrir a porta e esperar do lado de fora? Não, ainda havia o sol e logo após dele viria a lua. Ele não estava pronto pra sair. Ele foi até a sala e abriu a porta, depois voltou ao quarto e esperou.

A noite caiu e com ela veio o pânico. Para variar... Se dependesse dele iria encurtar a conversa o máximo possível, já passava da hora do sono definitivo do dia. Sentiu-se triste pelo seu irmão. Sabia que ele já não dormia há muito tempo, nem mesmo usando remédios. Se pudesse, e tivesse coragem, trocaria de lugar com ele.

A campainha tocou, o insone havia chegado. "Tá aberto, entra", o covarde gritou. O pânico como sempre o impediu de se levantar e ir receber o seu irmão da forma como devia, mas ele já havia se acostumado. Seu irmão foi até seu quarto e olhou ao redor, deve ter percebido aquelas cartas pra todas as pessoas que o covarde tinha machucado...pedidos de desculpas nunca entregues pelo medo."Levanta. Vamos conversar lá fora", o insone disse."Por que lá fora? Temos tudo que precisamos aqui", ele respondeu. "Lá fora, você precisa sair". A discussão se alongou, mas o covarde tinha medo de contestar seu irmão tão amado. Sairam.

Um silêncio aterrorizante se abateu sobre os dois. Ele teve medo de ter decepcionado o irmão com aquela fraqueza e por isso o mesmo não queria lhe falar nada."Como vai?" saiu da boca do insone. Bem. Bom, ele não iria dizer ao irmão que estava mal, tinha medo de que ele se preocupasse demais, mesmo estando magro demais, branco demais... fraco demais como sempre. Ele não tinha coragem de falar nada. Se arrependeu de ter ligado e feito o irmão se deslocar tanto até lá. Ficou calado.

O insone se levantou e foi embora em seu carro. O covarde só pode olhar atordoado toda aquela cena. Quis ser forte e ir atrás, mas tinha medo de incomodar seu irmão. Entrou em casa e se trancou novamente. Começou a chorar. Será que tinha deixado seu irmão decepcionado? É claro, quem não se decepcionaria com um irmão como ele? O insone sempre fora seu exemplo, seu herói, sempre fora alguém pra o proteger. Deitou na cama e se virou. Fechou os olhos. Mentalizou as palavras que o faziam dormir. Nada. Não conseguiu esquecer o irmão indo embora. Suou frio de medo. Pela primeira vez percebeu que teria de enfrentar o seu medo.

Sabia, essa noite seria longa...

sábado, 27 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 3

Terceiro Capítulo - A Covardia do Insone

O insone atendeu o telefone e escutou um montes de palavras gaguejadas. Seu irmão. Nossa, a quanto tempo não recebia uma ligação dele... "Tudo bem, estou indo aí te fazer uma visita breve", disse o insone e desligou. Fez o retorno, a casa de seu irmão era do outro lado da cidade. Mas onde era mesmo? Havia anos que eles não se encontravam um na casa do outro.

Já estava quase de noite. Ele deu graças a Deus por ter arranjado algum passatempo, por menor que fosse, para essa noite. Se dependesse dele, prolongaria essa conversa até amanhã de manhã, mas sabia que seu irmão não passava tanto tempo sem dormir. Como o invejava. Ele não conseguia dormir nem com remédios, enquanto seu irmão só precisava fechar os olhos e se virar para o lado.

Chegou e tocou a campainha. "Tá aberto, entra" seu irmão gritou lá de dentro. Havia se esquecido que ele tinha medo do sol, da lua, do céu, da rua... do mundo. Entrou. Foi até o quarto onde seu irmão costumava ficar e lá estava ele, naquele estado deplorável deitado na cama. A meia luz ele enxergou papéis amassados e jogados no chão e roupas espalhadas. "Levanta. Vamos conversar lá fora", disse ele. "Por que lá fora? temos tudo que precisamos aqui", respondeu o irmão. "Lá fora, você precisa sair". O irmão finalmente cedeu, após muita discussão. Sairam.

Ele sabia o que devia falar ao irmão, mas tudo o que saiu foi um "como vai?". O irmão estava bem, aliás, julgava estar bem, mas o insone olhou pra ele e não concluiu o mesmo. Magro como sempre...branco demais como sempre...Covarde demais como sempre. Ele devia dizer isso, mas não conseguiu, não sabia se era certo. Quis falar que sentia saudades, mas não conseguiu. Não conseguiu conversar com o irmão. Não conseguiu nada, só se arrepender de ter ido até lá.

Levantou, entrou no carro e foi embora. Chegou em casa e começou a chorar. Sabia que devia ter falado tudo aquilo a ele, mas tinha medo de machuca-lo. O insone sempre fora o exemplo do covarde, e ele não podia magoar o irmão. Teve medo de fazer o certo. Teve medo de errar. Teve medo de falar. Medo de pensar. Medo de estar alí. Medo. Medo. Medo!

Ele sabia, essa noite seria longa...

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 2

Segundo Capítulo - A Covardia do Covarde

Ele afastou um pouco as cortinas e deu uma olhada na vida lá fora. A luz do dia iluminou um pouco aquele quarto que a muito estava completamente escuro. A quase quatro meses ele estava trancado alí. O covarde voltou pra cama, a vida não era pra ele. Adormeceu novamente.

Acordou poucas horas depois completamente suado, tivera um pesadelo. No sonho ele abria a porta do quarto, saia pra vida lá fora e então o sol queimava sua cara. Aterrorizante, mas não o suficiente pra lhe tirar a vontade de permanecer dormindo, pois sono ele não tinha havia tempo. Virou pro lado e fechou os olhos, mentalizou palavras que o fizessem dormir. "Sono". "Sonhos". "Dormir". Seu cérebro cedeu depois de alguns minutos.

O telefone tocou e o acordou novamente. "Que inferno". Desligou, não tinha nada pra conversar com ninguém. Aliás, tinha, mas lhe faltava a coragem de olhar fundo nos olhos de alguém e dizer o que devia ser dito. Não se considerava covarde, apenas não via o porque de causar intrigas, então ficava calado. No mais, ele sempre estava errado mesmo... era o que o irmão vivia lhe dizendo.

Além da covardia havia também aquele descaso, aquela arrogância. Ele não se julgava capaz de ligar com complicações, mas também não queria lidar com algo que estivesse abaixo de sua capacidade. Adorava desafios, mas só desafios que ele sabia a resposta. Também nunca teve foco. Nunca soube ao certo o que fazer, nem sabia o que queria pra ser sincero, e sempre que tentava começar algo lembrava que não tinha capacidade. Ah, como era fraco.

Adormeceu, não tinha coragem o suficiente pra autocrítica rotineira. Não tinha coragem de enxergar os próprios defeitos. Sempre se sentiu o injustiçado, ninguém nunca conseguia ver sua qualidades. Não conseguia entender que ninguém via o que ele tinha de bom porque ele não tinha coragem de se expor. Algumas vezes se expusera, com entrelinhas... e metáforas... e palavras pela metade, mas tinha se exposto, e depois de algumas verdades pela metade, que obviamente ninguém entendia, ele dizia já ter se mostrado demais e mudava de assunto. Tinha fama de misterioso, mas nunca teve um segredo.

Era covarde desde muito jovem. Lembrava-se de quando ainda lidava com o medo...de quando era só medo. Afinal, o medo é bom, nos move, nos incentiva e nos faz lutar pra sobreviver. Ele agora tinha que lidar com o pânico. O pânico era o contrário do medo, só nos faz ficar parados, sem saber como agir ou reagir e assim vamos aos poucos nos apagando na angústia.

Acordou, pegou o telefone, discou os números. "Alô" seu irmão atendeu... o que ele devia falar? O que? Gaguejou ao telefone, o irmão entendeu quem era e imaginou do que se tratava. "Tudo bem, estou indo aí te fazer uma visita breve".

Visitas?! A quanto tempo não abria a porta de casa... Foi procurar as chaves, talvez fosse um passo para mudar a vida. Abrir a porta, a boca, a mente e o coração. Quem sabe a coragem não entra por si só?

Estava errado, como sempre...

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

O Insone e o Covarde Pt. 1

Essa é uma série em 5 capítulos que contara a história dos irmãos Insone e Covarde.

Capítulo 1 - A Insônia do Insone

Passavam das 3:00 da madrugada. O insone estava sentado no sofá, pronto para o trabalho desde as 1:30, quando havia desistido de dormir, vendo cada volta dos ponteiros do seu relógio desde então. Mantinha os olhos pouco abertos. Se alguém o visse não teria certeza se ele estava acordado ou não.

Em sua cabeça nada funcionava direito. A sua única certeza é que tudo isso era a culpa daquela maldita insônia que já não o deixava dormir a quase quatro meses. Pensamentos desconexos voavam e colidiam em sua cabeça. Tudo parecia um filme muito ruim e sem previsão de término.

Por volta de 3:30 ele se levantou e foi até a cozinha, já era hora do sua primeira xícara de café, só pra garantir que o sono que não evoluía lhe atacasse mais tarde. Ligou a televisão, mas seu cérebro não conseguia acompanhar a programação.

Por volta de 4:30 surgiram os primeiros indícios de que um novo dia amanheceria. Essa era a hora em que o Insone repetia sua frase preferida: “Sempre há um novo dia, não importa o quão horrível tenha sido a noite anterior”. Essa era a ideologia que lhe dava força pra continuar, saber que mesmo que ele não conseguisse vencer de si mesmo durante a noite sempre havia o sol do dia para lhe dar força pra continuar a batalha.

Ele acendeu um cigarro e tomou mais uma xícara de café. O dia seria duro, muito trabalho a se fazer. Pensando nisso sentiu mais vontade de fumar... Tisc tisc, dê bastante corda a fumante e ele se enforca no seu próprio vício. Já havia escutado algumas vezes que a insônia era resultado dos vícios rotineiros. Café demais, cigarros demais. Os antigos vícios (que pra ele nunca foram vícios) ele havia largado, não podia conviver com a culpa da cocaína e nem com a dor dos ácidos, isso realmente lhe tirava o sono.

Os galos de algum lugar longínquo já estavam a realizar o seu trabalho, isso significava que ele podia começar o seu daqui a pouco tempo, algo em torno de três horas. Três horas? O que eram três horas pra alguém que só tem como companhia os fantasmas da solidão durante toda a noite e a madrugada? Três horas eram o fim da tortura, o momento de se libertar das correntes que Morfeu tenta prender em todos nós.

O insone vivia seu momento de alívio. Já estava quase na hora, podia até ver o sol surgindo devagar por trás da serra. Ah, como era bom o amanhecer. Tomou mais café, dessa vez por gosto, acendeu outro cigarro, entrou no carro. Agora começava o stress que ele tanto amava... O dia a dia.

O insone não era o mesmo durante o dia, ele era alguém forte.