terça-feira, 13 de maio de 2025

Justiça

                                                                             Distâncias 

Contemplo silenciosamente tua ausência,
Enquanto limpo a poeira de tudo aquilo que me cerca.
Tu deixastes marcas fundas nisso tudo,
Seja por lembrar de ti nesta cadeira velha
Ou de quando sentamo-nos na varanda de frente,
Amaldiçoando a vida que nos fizera assim,
Mesmo que houvesse em nós um prazer perverso
De guerrearmos, em palavras e afagos, por muitas e muitas noites.
Sim, querida, tu fazes falta.

Recordo-me ainda de como tudo começou entre nós,
Tu me eras como um capricho novo, daqueles com jeito pra causar grandes estragos.
Sabes como sou e como gosto dos estragos,
Não poderia haver por ti
- Além da clara curiosidade mórbida -
Senão um senso de amor profundo e sério,
Com efeito de tudo aquilo que representas para mim:
Tua pessoa e o cuidado que demandas o trato
De ti, meu animal raríssimo.

Diante de tudo isso, devo dizer que crescemos à parte um do outro,
Não é mesmo?
Por muito anos acompanhei teu sorriso e olhares distantes
- Tu sabes que sempre tive queda por teus olhos -
Como uma recordação retumbante do fracasso de minha pessoa.
Digo também que mereci,
Afinal crescemos à parte, os dois a despeito do tempo, do silêncio,
Da distância...
E embora doa-me saber, de dentro de mim, que dei as costas a felicidade,
Sei hoje que a marca da loucura me trouxe aprendizado
E passei a guardar-lhe (ou aguarda-lhe) com carinho,
Ignorante das chances que me vinham logo em frente.

E tu era apenas uma criança,
Deveria ter me ocorrido que o tempo constrói tudo,
Em lugar da simples negativa, por vezes repetida,
De que não eras para mim, de que não era para ser,
De que o amor já havia sido desperdiçado.

Poderia decorar esta memória com uma centena de versos tristes,
De canções tristes, de momentos tristes, daqueles dias mais tristes que vieram,
E tu e eu sabemos que nosso acervo de tristezas é vasto, meu bem.
Mas alegra-me saber que eles vieram e que foram contigo,
Alegra-me recordar de teu corpo no mar, de teu sorriso no sol,
Das inúmeras ligações trocadas,
E tudo aquilo que construístes, à parte de mim, mas que me enquadrava perfeitamente.

Num movimento delicado de minha pena,
Adiciono-lhe, em definitivo, às minhas viagens repartidas,
Afinal tu és uma parte tão imensa do que eu sou,
Talvez não saibas:
Hoje sigo acompanhando teus olhares
Em sonhos saturados de saudades.

Talvez a vida nos reserve um recomeço em outro dia,
Talvez a marca do passado seja a sorte escancarando teu riso,
Talvez tenha amado de menos e feito de menos por ti
Do que agora a justiça do cognac me propõe,
Mas de ti todas as memórias são incríveis,
Senhora distante, 

Mas tão próxima de mim.





quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

À única musa possível

Ouça,

O vento assobia esta noite uma canção menor,

Em melodia triste e sóbria, que nada diz sobre a perda,

Sobretudo a perda como um objeto ao qual atribuímos pertencimento,

Uma canção menor que diz apenas de saudades

E das coisas mais bonitas que um passado doce

- Sacramente - guarda.


Ouça,

Pois digo-te com a profundidade de todas as marés,

Com a natureza exposta de todas as serras,

Com a ciência das canções que outrora entoamos juntas,

Que corta-me tua dor,

Não por enxergar em ti qualquer coisa além de força,

Uma geológica força, que em tudo faz jus às ventanias que os amigos lhe atribuem,

Mas por sentir por ti apenas irmandade, uma irmandade que só nós sentimos,

E sentir como em meu próprio peito

Tudo aquilo que te afliges.


Ouça, 

Que em tudo ecoo tantas palavras tuas,

Não poderia por ti nutrir senão respeito,

Enquanto tantos buscam compreender a obra

Tu fostes tão fundo que encontrou o lado de dentro,

Mudando permanentemente a ordem de todas as coisas

E se hoje as tardes se escurecem com tua ausência,

Por tanto tempo fostes sol em minha vida.


Ouça,

Pois de fato o coração continuou,

A despeito de mim, como tu previstes,

Mas nunca a despeito de ti,

Nem um de nós sequer cogitou um destino no qual não nos entrelaçaríamos

Nem nunca houve por aqui outra vontade,

Pois tu és parte disto,

Como cada um de nós.


Segui teus passos de perto,

Em franca curiosidade biológica,

Observando experimentalmente tu emergires em asas de tuas cores,

Inimitavelmente tuas,

Inalteravelmente tuas,

E hoje vejo-te, além dos traços mais naturais, 

E da lucidez branda das palavras de carinho,

Apenas aquilo que os mestres antigos saberiam descrever,

Em silêncio e admiração.


E resta orgulho, por ti sempre sobrarás orgulho,

Pois fostes tu quem tantas vezes me mostrastes

Que orgulho é fruto da arte mais genuína,

É resultado do exercício honesto e da lapidação constante dos diamantes mais brutos,

E assim tu és, não apenas em arte, mas em vida,

Um trabalho inacabável de esmero exemplar,

Que a própria terra em reverência à tua presença

Recita as obras desta vã literatura,

Assobiando as melodias que tu amas

E fatalmente cantam apenas sobre ti.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Who am I from the back?

Once again you saw me leavin’ And again you start believin’ That someday I might be back But I left you now forever And I guess it’s now or never So I’ve really got to ask Who am I from the back?

Is the lack of hair that matters

Or the fact I’m wearing black

Please, you got to tell me

Who am I from the back?

As we’re leaving Philadelphia

For that old Chicago shack

Who am I from the back?


I know I’m not the same

As I walk out through that door

But I don’t know what became

Of the man I was before

It feels like I lost track

Or inside I have a crack

'Cause I may never know

Who am I from the back


You may not understand me

Or the places I’ve been at

But only you can tell me

Who am I from the back

I know it means so little

As you hope for love instead

But the only thing I offer

Is that glance into my back


One day I bought a mirror
What I saw made me mad

I looked into my face

And that face smiled back

I don’t know what became

Of that smile I used to wear

But actually doesn’t matter

Cause it’s never coming back

So you may even ask me

What’s the point of feeling sad?


I don’t know what I run from

I don’t know when to stop

But when I saw you crying

Well, it really hurts a lot

I know I’m not the same

So I’ve really got to ask

Who am I from the back?


quinta-feira, 21 de setembro de 2023

Confraria

                                                                                                Prelúdio

    

Esvazio-me, como de costume, 

No clímax de outra madrugada desperdiçada entre excessos e promessas.

Solenes companheiros de esquina, trajetos repetidos,

E a conhecida sensação de sermos apenas nós, amigos do acaso, 

Contra toda sorte de transtorno que a vida tem a oferecer...

Ao fim, resta remorso,

Não por qualquer traço de moral que os inomináveis detentores da sociedade

Garantem, vergonhosamente, ser um único caminho para o céu,

Mas por saber que nosso cinismo já nos deixa mais próximos do inferno.


Viver é fácil, 

Basta deixar que o vento sopre e as tempestades caiam, 

No meio tempo tudo é só uma trovoada,

Um relance breve de uma eternidade vaga,

Um sopro fresco ou um choque forte,

Qualquer caminho serve quando nada leva a lugar nenhum.


Retas traçadas, viagens repartidas, sonhos que temos adiado pela falta de coragem.

Busca aí outra resposta, qualquer coisa que não fale de energia

E da vontade incognoscível de seres míticos.

Esta confraria reúne-se para admirar os mais belos fracassos,

E a culpa é de cada um de nós.


A César o que é de César, 

A Ulisses o que é de Ulisses,

Ou Douglas, Daniel, William, Leopoldo, 

Aqueles que podemos citar os nomes,

Todos nós merecemos as moedas de prata que o traidor recebe,

Por buscarmos, incoerentemente, uma saída para baixo

Enquanto contemplamos a Lua,

Os astros,

O vazio que nada mais pode preencher.


O que temos é lindo,

Patético, mas lindo,

Pouca coisa importa quando esvaziamos latas e frascos,

Recipientes sórdidos de angústia,

Prostrados em um presente com aspecto de passado,

Repetindo a punição, porque é tudo o que conhecemos.


Mas a madrugada acaba ao som da última moeda,

E logo voltamos à realidade das coisas,

Tudo aquilo que escolhemos ignorar e logo deixa de existir,

Afogado pela escuridão da noite e o silêncio das casas vizinhas.

Prelúdio de memórias fictícias,

Afinal, o que é real esconde-se muito além desta esquina,

De qualquer praça ou padaria,

E já não me interessa nada que eu possa viver de forma prática,

Hoje só quero sonhar.

sábado, 13 de maio de 2023

Meu Coração

Descansa em paz, meu coração...
Vê se não vai perder-se em outro recomeço,
Culpar os outros pelo teu próprio tropeço
E acabar-se nesta angustia sem razão.

Tu fostes forte e se propôs ao infinito,
Mas não há amor além da tênue divisória
Onde o afeto torna-se mais um atrito,
Resta carinho e a inércia da memória.

Desprende-se da mágoa, névoa torpe,
Esquiva-se da trégua e, enfim, suporte,
Este caminho há de ser pago com suor.

Esconde-se do vício, vasto abismo,
Entrega-se ao início sem cinismo,
Que o tempo há de provar se foi melhor.