segunda-feira, 9 de novembro de 2020

Devolvo à natureza um sorriso tímido

Devolvo à natureza um sorriso tímido

A cada manhã que acordo, mesmo que barulhenta

<< Às vezes, preferivelmente barulhenta>>

Por sentir-me parte de algo maior,

Por respirar tão fundo, calmamente enchendo o corpo de oxigênio,

E desprender-me, etérea, das preocupações mundanas.


Percebo a vida como troca,

Em que nem sempre sabemos quando receberemos nossa parte.

Sigo doando-me inteira, sem pensar na medida das coisas que entrego,

E recebo o silêncio com a calma resoluta de quem respira fundo.


A fluidez de meu pensamento não pode fazer-me mal,

A partir dela desfaço-me em tudo, reúno-me em nada,

Choco-me às ondas, 

Balanço na alta das marés, 

Corro com as correntes,

Esvazio-me na lua cheia, só pra preencher-me quando ela é nova,

E tudo em mim é novo, impossivelmente novo,

Mas concreto e real, como sou,

E basta-me ser.


Às vezes as nuvens fecham-se e o dia me oprime,

Mas toda tempestade lava a alma.

Como a água, minha liberdade é adaptação,

E rendo ao mundo o que há de melhor em minhas formas.


Se a chuva cai forte, penso na força da terra, 

que aguenta, serena, toda carga sobre ela jogada.

Se a chuva cai mansa, a terra renova-se em vida

E os ares sopram pro novo,

Eu apenas respiro fundo

E durmo tranquila sob a chuva que bate nas telhas.


Se o dia amanhece cinzento, o sol tem todas as cores

E eu posso tê-las também,

Tudo que preciso segue comigo.

Guardo ao peito a calma que emprego nos versos que fico,

Nem penso ainda nos versos que vêm.

quarta-feira, 4 de novembro de 2020

Cometa

Posto que sou chama, digo que queimo frio,

Já não aqueço mais aos que procuram meu abrigo,

Tremulo ao vento gélido da ventana semiaberta,

Semiaberta como eu, fui e tenho sido.


Posto que sou rocha, digo-me oco por dentro,

Já não sustento mais os alicerces desta vida,

Duro por fora e por dentro, pra guardar não sei o que,

Erodindo, solitário, às camadas de influência.


Posto ser o que me mostro, digo que não valho a pena,

Pois me mostro intermitente, como um surto de minha alma,

Com o intento de frisar que sou eu sempre capaz,

Capaz de decorar a minha fala e movimento.


Posto que sou nada disso, devo ser coisa nenhuma,

Devo ser como um cometa, passo pra deixar registro,

Então adentro a noite extensa, o universo e o vazio,

Para todos que ficaram morro no esquecimento.


terça-feira, 27 de outubro de 2020

Espelho

Maldizes o tempo, maldizes, simplório,

A todos aqueles que há tanto partiram,

Maldizes gastando este seu repertório

De fases e crises que mal existiram.


Maldizes a sorte, o destino e a esperança,

E a gente que dança sabendo dançar, 

O presente, o futuro e a lembrança

Dos dias que ainda querias tentar.


Maldizes o amor, conturbado e confuso,

Como quem cai na armadilha por livre vontade,

E então evade, difuso, 

Por versos de sonho e saudade.


Maldizes a tudo, é o que lhe restou,

Só assim justifica essa tua inépcia de perdoar.

Maldizes a tudo, inclusive a ti mesmo,

Pra ver se alguém vem te resgatar.

sábado, 24 de outubro de 2020

Já não somos os mesmos, certamente,

Já não somos os mesmos, certamente,

Hoje carregamos o fardo
Da consciência que emana de nossa responsabilidade sob os atos,
Estas coisas que temos evitado, diariamente,
Nos olhares atravessados por sobre as xícaras,
Em talheres despejados com desajeito incomum,
No súbito silêncio que lhe recepciona em eventos de família,
E o desinteresse porcamente disfarçado em um convite falso
Ao qual esperam que não compareças.
As fraturas vão tomando o vidro do porta-retrato
E as nossas distâncias, agora tão visíveis,
Dispostas bem na mesa de entrada, junto às chaves 
E aos retratos deste passado,
O tempo ao qual rendemos suspiros 
E não foi real.

Quisera acreditar na mesma ilusão que vós,
E não perder a voz, silenciando novamente as verdades
Que ninguém espera ouvir,
Enquanto recebo em meus braços o corpo que hesita,
Por não saber se é sincera a minha entrega,
Se o momento é belo ou só constrangedor.
Ah, mas se fosse sincero, se qualquer coisa em mim fosse sincera,
Senão as palavras que desabam nesses momentos,
Que é que seríamos?
A fagulha prestes a explodir.

Anuviei a vida, me tornei tempestuoso,
Qualquer hora precipito tudo pra fora de mim.

segunda-feira, 5 de outubro de 2020

Senti o frio, o abraço vago que a morte oferecia,

Senti o frio, o abraço vago que a morte oferecia
No horror da noite, vi na sombra do passado
A ilusão do amor jamais vivido antes
Do sonho terno que teu corpo me propõe.

Súbito cessaram as máquinas, a obra poética,
Os planos herdados de apreço e desilusão,
O indulto dos mortos e o ardil dos Deuses,
A vida que tua luz não iluminava e que a mim foi tudo.

Pois o amor, enquanto arte, é um sonho quente,
Como uma valsa que repete noite a noite, 
Mas não aquece e nem renova o coração.

Somente tu é que acende o que não queima,
Só teu beijo recompõe minha vontade,
Só a ti amo, como nunca amei ninguém.