segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Réquiem

Eu andei demais por essas ruas procurando algum sentido em cada passo. Sim, essa busca pelo sentido de todas as coisas vivas já consumiu grande parte da minha vida. Não eu ainda não encontrei as respostas.

E eu que julgava saber sobre todas as coisas, todas as cenas
Eu que julgava ser muito mais do que um simples qualquer
Eu que tentava e lutava, cruzei becos, ruas, cidades pequenas
E no final ainda não sei quem está pra o que der e vier
O julgamento se mostrou mais uma vez contrário ao reverso
Pois cada verso que eu fiz pra vocês, nunca foi nada demais
E o que eu quero eu não tenho, penso e desconverso
Evitando tantas outras palavras banais

Eu só desejo a vocês o melhor dessa vida
Que seja longe de mim, que seja longe daqui
E que essa memória da gente não seja esquecida
E que esse desencontro traga o encontro que pedi


Minhas memórias são curtas e frágeis, morrem em silêncio
E eu sei que quando se trata de vocês, meus amigos, será diferente
Meu grito será ouvido e cada verso que canto será o mais intenso
Pois que eu aguente todas as dores, mas que nunca seja indiferente

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Outro Eu

"Até agora eu não me conhecia, 
julgava que era Eu e eu não era 
Aquela que em meus versos descrevera 
Tão clara como a fonte e como o dia. 

Mas que eu não era Eu não o sabia 
mesmo que o soubesse, o não dissera... 
Olhos fitos em rútila quimera 
Andava atrás de mim... e não me via! 

Andava a procurar-me - pobre louca!- 
E achei o meu olhar no teu olhar, 
E a minha boca sobre a tua boca! 

E esta ânsia de viver, que nada acalma, 
E a chama da tua alma a esbrasear 
As apagadas cinzas da minha alma!"

Florbela Espanca

Diferente

A estrada me espera, bem longe daqui
Chama meu nome nas noites mais frias
E me acena de longe durante os dias
A estrada me espera, devo fugir

Longe de toda essa gente padrão
Trabalho, família, escola e eleição
Cerveja, cigarro, samba e oração
Não! De nada disso é feito meu coração

Eu nasci diferente e é assim que vivo
Não quero nada que esteja ao alcance
Corro do dia-a-dia tão corrosivo

Não quero que a vida normal me canse
Eu nasci pra viver o que sonhei sozinho
E sozinho eu sigo cada passo desse caminho

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Soneto ao teu Calor

Eu que contava as horas pra te ver
Hoje acordo sem você, sem companhia
Esse fantasma, que aqui jaz na cama fria
Relembra agora os passos velhos pra viver

De quanto tempo o tempo é feito?
Como um detento eu sento e perco a sanidade
Grades abertas que me tomam a liberdade
Meus carcereiros são ponteiros, na verdade

Devo chamar-te por qual nome?
Talvez de dor que me consome
Não, melhor manter o mesmo amor
E se eu ficar farto de saudade?
Se antes de ti vier a idade?
Melhor morrer do que deitar sem teu calor

sexta-feira, 14 de setembro de 2012

Geleiras e Calmarias

Eu só quero paz, pedir a conta e ir embora
Chegar em casa e com um cigarro no cinzeiro
Sentar na escada com o whisky companheiro
E recontar as coisas que eu joguei fora

Eu só quero transformar ódio em poesia
Aliviar a dor do pensamento
E aos poucos no piano, esse lamento
Se dissipa e morre em melodia

E depois, abro minha janela pra pegar os cacos desse dia
Recorto as frases que me doem os olhos e os ouvidos
Relembro como a vida teima em permanecer vazia
Anoto toda a série de pensamentos outrora esquecidos
Será que se eu dormir hoje, amanhã passa a calmaria?
Essa geleira em minha vida, esses problemas repartidos

E eu vou me procurar em programas de tv que eu nunca vi
Quem sabe um vilão sádico e assassino
Quem em meio ao constante desatino
Para e pensa: "Será que eu gostei do que vivi?"

No final da conta, tudo é sempre igual
A cerveja e os três copos sempre cheios
E nas palavras os já tão velhos receios
De tudo isso não dar em nada no final