quinta-feira, 17 de novembro de 2011

Minha Culpa

"Sei lá! Sei lá! Eu sei lá bem
Quem sou? Um fogo-fátuo, uma miragem...
Sou um reflexo... um canto de paisagem
Ou apenas cenário! Um vaivém

Como a sorte: hoje aqui, depois além!
Sei lá quem sou? Sei lá! Sou a roupagem
De um doido que partiu numa romagem
E nunca mais voltou! Eu sei lá quem!...

Sou um verme que um dia quis ser astro...
Uma estátua truncada de alabastro..
Uma chaga sangrenta do Senhor...

Sei lá quem sou?! Sei lá! Cumprindo os fados,
Num mundo de maldades e pecados,
Sou mais um mau, sou mais um pecador..."

Florbela Espanca

domingo, 13 de novembro de 2011

Obsessão

Significado de Obsessão:
s.f. Ação de obsedar, de importunar.
Sentimento, idéia, conduta que se impõe a uma pessoa atingida por uma neurose obsessiva.
Fig. Idéia fixa, preocupação constante

Acordar é muito difícil quando a gente para de sonhar. Eu já tentei de tudo, de remédios a drogas, de planos a provas, mas nada parece preencher um espaço que se criou aqui dentro, nada pode ser se eu não permitir que seja. E assim, eu fico aqui... revirando de um lado para o outro, procurando uma escuridão que me pareça mais confortável do que essa que eu me encontro, essa escuridão que é mais do que não se encontrar, é mais do que não ter direção... é simplesmente não sentir mais o que era o sentido de todas as coisas, que achei que vivia, que achei que sentia.

Eu já reli cada um dos meus sentimentos e corrigi todos os erros de concordância. Eu já refiz todos os versos. Já usei todas as rimas que eu conhecia e você merecia, e ainda assim, não consegues compreender que eu me repito porque você se repete. Eu assumi minhas doenças, mas não curei meus vícios. Já reafirmei os vícios, mas não encontrei respostas.

Eu já sei tudo o que eu podia saber sobre nós dois, mas não sei absolutamente nada sobre você.

E aqui continuo... Colecionando as minhas decepções e as suas frustrações, só pra mais tarde, pegar papel e caneta e escrever alguma tragédia em que o Pierrot apaixonado sofre por uma Colombina que nunca se importou com o amor que o pobre coitado lhe deu. Esse sou eu, o idiota que escreve sobre si mesmo, mas nunca conseguiu decidir se seria o Pierrot ou a Colombina e nunca teve a sorte de acabar por Arlequim. Que minhas palavras alimentem uma fogueira, pra finalmente terem serventia.

Pois bem, dessa vez eu vou tentar ser diferente. Assumo não estar escrevendo mais para você. Não espero mais por um impacto que nunca aconteceu, não são as minhas poesias que te chocam, meu amor, não são meus pensamentos que te inspiram. Dessa vez, quero que cada linha aqui seja um traço do meu rosto e que nas entrelinhas eu encontre a vergonha que me falta pra, finalmente, mudar essa obsessão que me consome a tantos anos. Você nunca devia ter se tornado pra mim o que eu fiz de você: essencial.

Essa busca, enfim, terá um fim. "Sentir" perdeu o sentido, porque não faz sentido se não eu não puder sentir por ti. Mas que seja, sabe, que seja assim, sem lógica, sem métrica. Talvez dessa vez eu não tenha razão, talvez o sentido de tudo isso seja não haver sentido, talvez eu encontre outros significados em outros contos que não o do Pierrot, talvez eu reviva tudo em outros braços, talvez eu faça os braços que me acolheram viverem o que eu vivi, talvez eu mesmo crie uma razão pra existência. Mas, de uma única coisa eu tenho certeza: chega de viver a obsessão.

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O Amor Morreu

O amor morreu. Morreu de velho, depois de tantos anos sofrendo as mesmas pancadas. Morreu de tempo... tempo demais pra resistir, quase nenhum tempo pra de fato existir. O amor simplesmente passou do prazo de validade e, como qualquer outra coisa, a gente jogou fora. Não se sabe ao certo quando tempo, quantos anos, quantos meses.... só o que se sabe é que o velho coração já não bate mais.

Devo dizer, o amor morreu de susto. Seu corpo já tão frágil não aguentou o choque que foi perder seu lar pra um sentimento qualquer com qualquer falsa sensação de pertencimento. O amor morreu de cansaço. Permanecer forte e seguro durante todos aqueles anos esgotou seu peito, já cansado de tanto suportar por fora e apanhar por dentro.

O amor morreu de overdose, como qualquer lenda distante que a gente busque pra nossa vida. Depois de perceber que entre os dois só existiria AQUELE amor, ele amou dobrado, pra compensar qualquer falta de sentimento, mas não aguentou a responsabilidade de controlar dois corpos, duas mentes, dois corações. O amor perdeu a alma... vendeu ela por qualquer olhar, qualquer toque e, principalmente, pelo seu olhar e o seu toque. Mas você não controla sua força.

Você matou o amor.

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Compensação

Aceite, meu caro
A tua imagem já não mostra nada
As tuas palavras já não dizem nada
Mas isso não dói
Aceite que não sentir também é uma condição

O eterno é raro
O efêmero já se fez tão vago
E não há como desfazer o estrago
Troque os lençóis
E novamente desocupe o coração

Agora senta e espera
Que as pessoas aprendam com os anos
Sobre a dor de refazer os planos
Abaixa a voz
E guarda pra ti tudo que é vontade

Esqueces de novo o que era
Apaga os novos velhos desenganos
E volta a te cercar de estranhos
Desata o 'nós'
E deixa se ocupar todo de saudade

Que é bom lembrar que a gente é muito pouco pra qualquer um
Mas que a gente é muito mais do que o valor que nos é dado
Se faz de forte só por hora e sobrevive por agora
Que todo esforço é compensado

terça-feira, 18 de outubro de 2011

Uma Certeza Que Tenho, Um Sonho Que Tinha

Eu tenho um gosto na minha boca
Tenho uma sede que nunca sacia
Eu tinha uma voz que soava só
Eu tinha um grito que nunca se ouvia

Eu tenho mãos frouxas ao redor
De um corpo que não se movia
Eu tinha braços fracos e quietos
Que esperaram pelos teus algum dia

Eu te vi esses dias, como a tempos não via
E ainda tenho memórias de outra estação
Eu tinha uma dúvida que ainda vivia
E algumas certezas sem nenhuma razão
Eu tinha uma esperança de viver algum dia
Todos esses dias que certamente virão