quinta-feira, 28 de maio de 2026

De Carvalhos e Oliveiras

                                                    Ao amigo Matheus Oliveira


Passo, sutilmente, as mãos por sob as teclas deste velho piano,
Tu recordas, caro amigo, que tudo isso era tão teu?
Que por noites reuníamos, eu, tu e nossos amigos,
Penaforte e Cruz de Sá cantavam, aos teus acordes dissonantes,
Não por qualquer estratégia ou almejo de jazz, que tua
Imensa petulância adoraria propor como um intento,
E aqui, em segredo público, afirmo tratar-se de preguiça
Afinal a ti sempre faltou um certo afinco.
Disciplinas a menos, ímpetos a mais,
E os anos foram esculpindo a tua obra,
Como um triste memorial a tudo que tens perdido.
Já nem lembro quando é que nos perdemos também.

Naturalmente, tempestade e ventania não resultam em tranquilidade,
E tu, mestre de tudo aquilo que cai, 
Há de convir que tua queda doeu muito — e ainda dói em ti,
Como se a chuva de nosso encontro nunca houvesse passado.
Tu se lembra? 
Chovia muito na esquina de Guajajaras e Bahia,
E nosso encontro deve-se, em grande parte,
À existência de uma escada que subia ao céu,
Ou a qualquer boteco,
Onde, por não mais que alguns trocados,
Era possível desfrutar de cervejas, canções e amizades,
Das procedências mais incertas desta cinza capital.

Nunca fomos grandes, tu e eu, por mais que gostemos da ilusão...
Talvez por isso busquemos no outro uma mão insólita,
Que ergue aquilo que nos soa tão medíocre,
Medíocre como nós.
Há de se exibir um certo orgulho, meu amigo,
Afinal tu fostes sempre o mais difícil de lidar,
E se isso não causa em ti um certo espanto,
Certamente causa em nós um breve senso de sucesso,
De manter em rédeas curtas tua personalidade tão...
Selvagem?

Afinal, tu és cria das províncias mais selvagens,
Druida autodidata, feiticeiro elevado pelo fracasso do espírito,
E então, um jovem mago, de poder desconhecido,
Haveria de querer provar-se.
Por anos quisera ser apenas grande,
Depois quisera ser imenso,
E hoje, com sorte, talvez ainda queira ser você.

Afinal, quem busca ser quem é, há de buscar sinceridade,
E tu, meu nobre mentiroso, tens mentido até sobre teus nomes.
De Caeiro aprendeu as lições com primazia,
Mas de Fernando Pessoa, tiraste apenas a vontade de ser outra pessoa...
Perdido nessa farsa de ser qualquer pessoa é que 
Esquecestes
Da pessoa que tu és.

Por que buscas sofrer, meu velho amigo?
Ao que recordo das palavras do mestre,
O fingidor finge, mesmo que deveras sinta,
E tu, que tens fingido sorrisos às beiras de mar,
Que tens escavado teu rosto de pedra
Buscando devolver a quem lhe ama
Algum traço de riso, só tens sofrido.
Teu fingimento não engana ninguém,
Nem mesmo este ser tão limitado,
Não mais que essência de tudo aquilo
Que fostes outrora.

Devemos buscar novamente as raízes, tu e eu,
Buscar o que há de comum nas sombras
De Carvalhos e Oliveiras,
Dois jovens abandonados pela sucessão dos fatos
De um passado desastroso.
Devemos buscar aquilo que nos orgulhava sonhar,
Afinal, de tanta dor sempre nasceu arte,
De tanta solidão sempre ressoou teu canto.

E um universo inteiro se desenha ao teu redor,
Terras onde nos aventuramos, por fragmentos de sonhos,
Por ilusões, traços de delírio, talvez alguma realidade...
Tu és o centro disso,
E sem tua mão e tua escrita, que é que seria de nós?

Por isso clamo que retornes às tuas práticas, feiticeiro,
Quero ver tua tinta sobre o papel desta vida novamente,
Quero sentir o pulso de tua magia, seja ela qual for,
Desejo me enraivecer com teu sucesso
E preterir tua escrita à minha, pelo doce despeito
Que resta neste senso de orgulho,
Culpa sua, que criou em mim esta vã antipatia.
Em teu próximo ritual, esqueça que eras Merlin,
Pois teu nome ainda soa bem melhor.

Matheus, outrora esquecestes das promessas que fizestes,
Mas nós não nos esqueceremos,
E cada obra serve de fundação à próxima,
Neste universo que montastes peça a peça
De teu fútil quebra-cabeças,
Passatempo de nossos iguais,
Da mediocridade ainda emana algum mistério
E desta queda, fez-se vasta literatura.
Dessa vez resguarda o que tu és a ti,
E não ofereça pérolas aos porcos
Ou provérbios aos loucos.
As profecias já nos revelaram que a grandeza está sempre a uma
Esquina de distância,
E, assim, aguardo-lhe

Na próxima curva.


Um não-lugar

E assim, diante às portas que me levariam
Novamente à fantasia de um amor perdido
Devo tomar, em súbito choque de qualquer realidade,
A direção oposta?
E ao buscar, de mãos postas em ferragens 
Deste encontro, qualquer vislumbre de um futuro,
Encontraria senão ruína,
Senão aquilo que não foi e nunca será?
Frente a instância de teu novo recomeço,
Em uma impensável hora, de temor e lucidez,
O fim acusa um recomeço,
Em que eu não posso estar.

Das Sentenças

Nosso crime sempre fora nutrir qualquer tristeza
E assim, compartilhamos, além de ausências e silêncios,
Esta sentença de penosa solidão,
Mesmo quando acompanhados.
Resta ainda a dúvida, os mistérios sujeitos apenas
A teus tristes olhos, tuas mãos de garras felinas.
Tuas mazelas anunciadas friamente, no vestido negro que trajavas,
Teus cortes de tecido, tuas alegorias mórbidas expressas em tela,
Tuas palavras, lâminas lançadas a meu corpo,
E eu, alçado na loucura de tuas apresentações,
Servo de tuas indisposições e amarguras,
Já não sei mais como servir.

Considerações Acerca do Retorno

Por fim, me encontro em meios de trajeto,
De um lado o despenhadeiro cavado por tuas mãos,
Do outro, o muro que edifiquei com as pedras que jogastes,
E eu, que já não me recordo o que era,
Me pego a pensar no que serei ao fim desta viagem.
Considero o retorno, considero a noite tenra,
Considero as hospedarias que se erguem, luzes frágeis como eu.
Se te busco, perco-me, amor,
E ainda que me venha algum sorriso nessas horas,
Me lembro do silêncio que se abate sobre a angústia
E das paradas obscuras que fizestes no caminho,
Tu e eu, tão condenáveis...

A Impensável Hora

Cegava-me o sol, às onze horas, de frente à linha
Onde tomaria, por mais uma vez, o trem
Que leva à instância de teu novo recomeço.
Há anos busco a paz que tu me prometeras,
Enquanto viajo pelos vales e depressões de nossa vida.
Por tantas vezes desdenhamos do futuro, enquanto descíamos
Os andares escuros do Edifício Raposo Tavares, em busca
De serras e pecados.
Haveria de chegar um tempo em que tu subistes só,
E quando chegasses, essa impensável hora, anunciaria
Um ano sombrio, peste, guerra,
O fim de nossa sintonia.

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A Chave do Feitiço

Ergue-se o sol e não dura mais que um dia
E minha triste melodia, aqui chega em seu final.
Há de haver algum sinal que marque o cerne da memória
Ou transforme em bela história o que já não é real.

Clamo sutilezas mil, translúcidas de ensejo,
E condenso algum desejo, que é a chave do feitiço,
Então, dito tudo isso, são dez giros de ampulheta
E o passado, que se enfeita, abre as portas de um início.

Há perigo além da curva, disso tu já sabes bem,
Seja neste ou em outro conto, o canto pode silenciar,
A distância, a bruma, o tempo, são questões subjetivas...
Há perigo além da curva, outra curva sempre vem
E em uma destas curvas tu bem podes se lembrar
Desta marca na memória, desta história ainda viva.

sexta-feira, 3 de outubro de 2025

Outro Eu

Quantos desertos ainda devo conhecer
Antes que o frio da noite me cale
E o sol me sussurre em resposta:
Agora que te calas, lhe ouço.

Quantas ladeiras ainda devo subir
Pra encontrar horizonte azul e azul e azul
Que renova e perpetua
A despeito de teus olhos tristes na janela.

Quantos caminhos ainda devo trilhar
Até encontrar qualquer caminho
Que me sirva, sem servir aos propósitos
Do tédio e angústia, tiranos das rédeas.

Quantas vezes eu, e eu somente, 
Um ser e um sonho, a que se ergue os braços
Quantas vezes devo repousar quem sou aos traços
E ser um outro eu, sempre um outro eu.

domingo, 28 de setembro de 2025

Calvário de Shiva

Devo minha vida à poesia.
A alma é dos Deuses, que estendem a mão em cobrança.
O pagamento, obra tão simples, reparte-se entre meus iguais.
Devo
E pretendo pagar o valor integral,
Em franco apreço à palavra
Ou juventude desvairada, 
Que me fez a negligência.

Devo e isso desfaz-me.
Ao contraste, esta dívida velha
Renova-se em mim,
Cresce em minhas entranhas 
A urgência
E já não posso continuar.

Devo encerrar este capítulo.
Pontuadas as causas, 
Detalhadas as contas,
Agora me abro às demandas
De Caronte.

Devo seccionar-me.
Em punhos a lâmina fria,
Passageira e condutora 
Do milagre reverso,
Que já não deseja estancar qualquer 
Sangria.
Devo aceitar toda vazão.

Devo alçar voos mais longos,
Sem prever os resultados.
O concreto me aguarda,
A despeito da certeza
De todas as quedas.
Devo aceitar que o impossível 
Está sempre do outro lado
Da janela.

Devo amordaçar-me.
Estrangular o cínico lamento,
Cessar qualquer vestígio
De palpitação desesperada,
Até restar o nada,
Profusão lírica de todo vazio.
Devo suprimir o pulso
Da angústia.

Devo intoxicar-me.
Tragar o ácido,
Amar os venenos que me corroem.
Então encerro a dúvida,
Pois o futuro cabe a quem ainda não veio.
Devo ingerir esta cicuta,
Assassina de temores.

Devo buscar o fundo.
Deitar-me seguro em leito de rio,
Fundir-me à naturalidade das coisas,
E, de corrente em corrente,
A rotina transforma o hábito,
E a vida floresce às margens.
Devo afogar as mágoas.

Devo despedaçar-me.
Moer, triturar, misturar,
E eu, alimento de vermes,
Conhecerei as raízes,
Só assim me encontro
Frente ao palácio da origem
E questiono o verbo
Sobre o começo.

Mas o caminho das coisas permanece inalterado,
E ao contraste, esta dívida velha
Renovando-se em mim, já em outros planos,
Paga-se em carne e sangue.
Devo matar o que sou 
Para viver o novo.

quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Predador e Presa

No começo fez-se o laço de armadilha simples
Pra quando teus olhos cruzassem os meus.
E assim, tu, presa de arcanjo torto,
Vistes dois desastres se anunciarem:
O desgosto e o delírio.

No segundo dia foi o poço, a queda livre,
E nós, enfeitiçados pelo sol a pino,
Já não percebíamos mais a ironia detrás,
E aceitamos o encontro
Como se fosse a única saída.

Em seguida veio a trama de nossos jovens fios,
O emaranhamento de todas as essências,
E logo já não era possível dizer
Onde tu começavas
E onde terminava o eu.

Naturalmente, no clímax dessa história,
Há de caber um certo drama.
O outono acabaria em um inverno seco,
E mesmo em meio a tanto frio
Tu vistes que comigo poderia se queimar.

Depois, em tons de uma falsa sinceridade,
Entramos em uma guerra sem vencedores,
Um refinamento agressivo de nossas vontades:
Tu defendias a emancipação de tua vida
E eu jamais lhe entregaria a chave.

E passaram-se os anos, como costuma ser,
Passou o inverno, a tempestade, a fúria,
E no campo de batalha floresceu 
A certeza de que sem ti
Nada em mim teria acontecido.

É por isso que venho rogar pragas,
Pra que tu entendas que sinto asco
Não de ti, mas de mim mesmo,
Por ser eu quem devo ser culpado
E tu quem deve ser exaltada.

Então faça, faça agora tua denúncia,
Vai lá gritar ao vento do vilão que sou,
Quem mais poderia te ouvir
Senão eu, teu predador,
Resoluto em não te abandonar, minha presa.

terça-feira, 19 de agosto de 2025

Resgate

O resgate não veio
E tu, ao relento desfez-se,
Sem contentamento vê-se
E choras ao vento que passa
Por horas e horas a fio.

Grossas camadas sobre a pele,
As frustrações te endurecem,
As tentações te apetecem, 
E as obsessões todas somadas 
Velam por tua desesperança.

Não resta-lhe muito,
Tens teus meios e limites,
Tens receios e palpites,
E os devaneios pobres
Que nutres em hipóteses vãs.

Quisera erguer-se belo
Em um pedestal edificado,
Ser tu cristal bem lapidado,
E transitar livre entre os planos
Que ainda não projetara. 

O silêncio coroa a distância
Entre tua pessoa e a realidade
E a vida ressoa em maldade
Quando tudo que ouves
Diz nada de ti.

Mas o resgate nunca veio
E tu percebe-se só no boulevard,
Entre seu dó e a força pra mudar,
Em um paletó que não lhe cabe,
Afinal, tua dor expande-se além de ti.

E, já bem tarde, vês que o tempo passa
E tudo tem passado em tua frente,
Tudo tem passado e tem presente,
Mas és tu quem mostrará ao mundo
A novidade que ainda serás.

O futuro reserva a glória e o esquecimento,
Venenos letais que dispõe-se em doses idênticas,
Aguardando apenas teu movimento
De excesso ou ausência,
No mais arriscado dos jogos:

A vida





quinta-feira, 17 de julho de 2025

Vida Vã

Venho corrigir um erro antigo
E impor limites à tua descompostura.
Chega a noite e tu rende-se ao perigo
À selvagem e inconstante forma pura.

Tu crês que sempre podes mais,
Mesmo que tudo em ti lhe peça menos.
Sei que amas todos os venenos
E já nem pensas que os danos são reais.

Mas afirmo, tudo em ti decai,
Enquanto, louco, tu festejas outro dia
E morre um pouco ao levantar-se de manhã.
Essas feridas mostram o corpo que lhe trai
E só lamentos hoje soam de quem ria.
Até quando vais viver a vida vã?

sexta-feira, 11 de julho de 2025

Reconstrução Romântica

Chega dessa antiga história
De dar escolha ao coração
Depois sofrer sem opção
De incompetência inglória.

Tu és músculo, daqui em diante
Que, de obediente serventia,
Nunca questiona minha guia
E cega-se ao que é importante.

O corpo estúpido e carente
Deseja o pulso e luta debilmente
Por qualquer traço de ilusão brilhante
Mas eu, agora pérfido tirano,
Já não recaio mais no velho engano
E todo sentimento é só um instante.

quinta-feira, 10 de julho de 2025

Calmamente

                                                                                         Tuas iniciais aqui.


Um dia tu deixastes claro que 
Em minha vida não dava mais.
Teus apontamentos, de profunda coerência,
Desfizeram a mística que julgava haver
Em mim, certamente em mim,
Mas sobretudo neste caso
Criado e repetido entre nós.

Devastada, busquei entre ciências
E ilusões uma resposta capaz de
Suscitar em mim uma outra vida.
A mim não era claro que tudo se 
Muda,
Mesmo que tu, calmamente,
Houvesse mudado tudo em mim.

quarta-feira, 9 de julho de 2025

Ao vale cinza

Sonhei por noites a fio
A meu lado tua sombra,
Inquieta lembrança de tudo aquilo que deixastes,
Ecos do que era, desejos reparados
E em nossa frente o coração do mistério
Será que poderíamos - outra vez -
Romper a dúvida e encontrar felicidade?

Quis gritar,
Tremi de noite, por medo e solidão,
Não sei se acreditei, por um momento sequer,
Que era capaz de atravessar a imensidão
Sem tua luz.

Confesso que caí,
Lancei-me ao fundo de todas as sarjetas,
Já não podia erguer-me
De toda essa sujeira.
Dormi na vala e reconheci
Um lugar que era, enfim, só meu

E em um destes inúmeros pesadelos
Ouvi a voz da musa
Que em incisivo golpe
Rechaçou meu sofrimento
Sua dureza em decreto me dizia
Que essa sombra já havia tirado muito de mim

Então, em segunda parte de infortúnio,
Larguei o conforto de meu poço lúgubre
E assim subi por desesperadas 
Almas que habitavam o caminho.
Não sei dizer quanto tempo se passou.
Cheguei ao topo e vi a paz.

Hoje sou grata.
Selo o sol
E vou correr em campos verdejantes
Sem nunca olhar pra trás
Ao vale cinza.

terça-feira, 8 de julho de 2025

Prêmios Literários

Nunca ganhei um prêmio literário.
Nem ganhei sequer um prêmio 
ou uma menção honrosa.
Nunca ganhei placa ou estatueta
Nem mesmo fui lembrado por 
minhas grandes qualidades
- que estão aqui ou ao menos dizem-me.

Nunca ganhei um prêmio
Nem me disseram bom poeta.
Nem vi meu nome em meio aos grandes 
que admiro 
Nunca ganhei nada
e penso poder ouví-los rindo de mim
e dos meus blocos de versos.

Ocorre que gosto daquilo que não presta
e dos quadrados postos sobre mesa
postas sobre qualquer coisa
e canto sobre qualquer coisa.
Talvez por isso não tenha ganhado coisa alguma
nem convencido ninguém como bom poeta
mas calha que estou aqui a escrever ainda assim.

E em flor de minhas trinta e três promessas de mudança,
devo dizer que talvez nunca ganhe prêmio algum
e me chateia a chance factual de nunca figurar entre eles
De escrita livre, leve e memorável.
Mas, caso eu ganhe um prêmio,
agradeço apenas a ti
e ao fato de sempre ter gostado daquilo que não presta.

domingo, 6 de julho de 2025

Por amor

Resiste aos testes do tempo
Apenas aquilo que importa
Toda loucura se perde
Tudo que dói se conforta

Palavras balançam no vento
Sentenças caem por chão
Versos de outros momentos
Não cabem no meu coração

Perduram no meu pensamento
Tantas das nossas memórias
Encerra-se o fútil lamento
À força que tem nossa história

Tu sabes que meu sentimento
Não muda por nada no mundo
E isso é só um fragmento
De algo que é muito profundo

Sei que fui desatento
E as rodas da vida giraram
Mas canto, a despeito de tudo
Pois nossos caminhos cruzaram

Sou grato por tê-la em minha vida
Na festa ou na guerra, onde for
Na vida só o que importa
É o que se faz por amor



Milagres

Vês, o céu torna a se abrir quando teus olhos reparam
E o sol já não projeta sombras do que tu não és
Passada a tempestade, tu percebes que ficaram
Apenas os vestígios de teu cíclico revés.

Traçastes teus caminhos, em completa oposição,
Ao que o coração sabia ser a única resposta,
Tu fostes resoluto em tua contradição
E vistes que o caminho era a direção oposta.

Quem dera ser possível corrigir o teu engano
Mas tu tivestes sorte, percebendo bem a tempo
Que o teu jeito inquieto não somava ao grande plano
E deu valor sincero a quem lhe trouxe crescimento.

Tu sabes que a fortuna vem de formas diferentes
E a ti foste estendido o mais verdadeiro amor
Atente-se ao que importa, seja grato e coerente
Milagres acontecem pra quem sabe dar valor.


terça-feira, 13 de maio de 2025

Justiça

                                                                             Distâncias 

Contemplo silenciosamente tua ausência,
Enquanto limpo a poeira de tudo aquilo que me cerca.
Tu deixastes marcas fundas nisso tudo,
Seja por lembrar de ti nesta cadeira velha
Ou de quando sentamo-nos na varanda de frente,
Amaldiçoando a vida que nos fizera assim,
Mesmo que houvesse em nós um prazer perverso
De guerrearmos, em palavras e afagos, por muitas e muitas noites.
Sim, querida, tu fazes falta.

Recordo-me ainda de como tudo começou entre nós,
Tu me eras como um capricho novo, daqueles com jeito pra causar grandes estragos.
Sabes como sou e como gosto dos estragos,
Não poderia haver por ti
- Além da clara curiosidade mórbida -
Senão um senso de amor profundo e sério,
Com efeito de tudo aquilo que representas para mim:
Tua pessoa e o cuidado que demandas o trato
De ti, meu animal raríssimo.

Diante de tudo isso, devo dizer que crescemos à parte um do outro,
Não é mesmo?
Por muito anos acompanhei teu sorriso e olhares distantes
- Tu sabes que sempre tive queda por teus olhos -
Como uma recordação retumbante do fracasso de minha pessoa.
Digo também que mereci,
Afinal crescemos à parte, os dois a despeito do tempo, do silêncio,
Da distância...
E embora doa-me saber, de dentro de mim, que dei as costas a felicidade,
Sei hoje que a marca da loucura me trouxe aprendizado
E passei a guardar-lhe (ou aguarda-lhe) com carinho,
Ignorante das chances que me vinham logo em frente.

E tu era apenas uma criança,
Deveria ter me ocorrido que o tempo constrói tudo,
Em lugar da simples negativa, por vezes repetida,
De que não eras para mim, de que não era para ser,
De que o amor já havia sido desperdiçado.

Poderia decorar esta memória com uma centena de versos tristes,
De canções tristes, de momentos tristes, daqueles dias mais tristes que vieram,
E tu e eu sabemos que nosso acervo de tristezas é vasto, meu bem.
Mas alegra-me saber que eles vieram e que foram contigo,
Alegra-me recordar de teu corpo no mar, de teu sorriso no sol,
Das inúmeras ligações trocadas,
E tudo aquilo que construístes, à parte de mim, mas que me enquadrava perfeitamente.

Num movimento delicado de minha pena,
Adiciono-lhe, em definitivo, às minhas viagens repartidas,
Afinal tu és uma parte tão imensa do que eu sou,
Talvez não saibas:
Hoje sigo acompanhando teus olhares
Em sonhos saturados de saudades.

Talvez a vida nos reserve um recomeço em outro dia,
Talvez a marca do passado seja a sorte escancarando teu riso,
Talvez tenha amado de menos e feito de menos por ti
Do que agora a justiça do cognac me propõe,
Mas de ti todas as memórias são incríveis,
Senhora distante, 

Mas tão próxima de mim.





quarta-feira, 18 de dezembro de 2024

À única musa possível

Ouça,

O vento assobia esta noite uma canção menor,

Em melodia triste e sóbria, que nada diz sobre a perda,

Sobretudo a perda como um objeto ao qual atribuímos pertencimento,

Uma canção menor que diz apenas de saudades

E das coisas mais bonitas que um passado doce

- Sacramente - guarda.


Ouça,

Pois digo-te com a profundidade de todas as marés,

Com a natureza exposta de todas as serras,

Com a ciência das canções que outrora entoamos juntas,

Que corta-me tua dor,

Não por enxergar em ti qualquer coisa além de força,

Uma geológica força, que em tudo faz jus às ventanias que os amigos lhe atribuem,

Mas por sentir por ti apenas irmandade, uma irmandade que só nós sentimos,

E sentir como em meu próprio peito

Tudo aquilo que te afliges.


Ouça, 

Que em tudo ecoo tantas palavras tuas,

Não poderia por ti nutrir senão respeito,

Enquanto tantos buscam compreender a obra

Tu fostes tão fundo que encontrou o lado de dentro,

Mudando permanentemente a ordem de todas as coisas

E se hoje as tardes se escurecem com tua ausência,

Por tanto tempo fostes sol em minha vida.


Ouça,

Pois de fato o coração continuou,

A despeito de mim, como tu previstes,

Mas nunca a despeito de ti,

Nem um de nós sequer cogitou um destino no qual não nos entrelaçaríamos

Nem nunca houve por aqui outra vontade,

Pois tu és parte disto,

Como cada um de nós.


Segui teus passos de perto,

Em franca curiosidade biológica,

Observando experimentalmente tu emergires em asas de tuas cores,

Inimitavelmente tuas,

Inalteravelmente tuas,

E hoje vejo-te, além dos traços mais naturais, 

E da lucidez branda das palavras de carinho,

Apenas aquilo que os mestres antigos saberiam descrever,

Em silêncio e admiração.


E resta orgulho, por ti sempre sobrarás orgulho,

Pois fostes tu quem tantas vezes me mostrastes

Que orgulho é fruto da arte mais genuína,

É resultado do exercício honesto e da lapidação constante dos diamantes mais brutos,

E assim tu és, não apenas em arte, mas em vida,

Um trabalho inacabável de esmero exemplar,

Que a própria terra em reverência à tua presença

Recita as obras desta vã literatura,

Assobiando as melodias que tu amas

E fatalmente cantam apenas sobre ti.

segunda-feira, 1 de julho de 2024

Who am I from the back?

Once again you saw me leavin’ And again you start believin’ That someday I might be back But I left you now forever And I guess it’s now or never So I’ve really got to ask Who am I from the back?

Is the lack of hair that matters

Or the fact I’m wearing black

Please, you got to tell me

Who am I from the back?

As we’re leaving Philadelphia

For that old Chicago shack

Who am I from the back?


I know I’m not the same

As I walk out through that door

But I don’t know what became

Of the man I was before

It feels like I lost track

Or inside I have a crack

'Cause I may never know

Who am I from the back


You may not understand me

Or the places I’ve been at

But only you can tell me

Who am I from the back

I know it means so little

As you hope for love instead

But the only thing I offer

Is that glance into my back


One day I bought a mirror
What I saw made me mad

I looked into my face

And that face smiled back

I don’t know what became

Of that smile I used to wear

But actually doesn’t matter

Cause it’s never coming back

So you may even ask me

What’s the point of feeling sad?


I don’t know what I run from

I don’t know when to stop

But when I saw you crying

Well, it really hurts a lot

I know I’m not the same

So I’ve really got to ask

Who am I from the back?